segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Histórias de uma vida não vivida (69)


*Nem todo sonho expressa um desejo inconsciente ou reprimido. Seria loucura se desejássemos certas coisas que aparecem em nossos sonhos. Contudo quando um sonho dá vida, do seu jeito, a um sentimento verdadeiro e a um desejo puro do coração, não existe nada que possa superá-lo como origem de um sorriso bobo pela manhã.

Estava sentado no chão, olhando um pouco entediado para o marco da porta e pensando em como havia sido mal colocado, quando ouviu sua voz. 

- Vem para cima, senta aqui na cama. 

Era bom, pensava, estar em um lugar assim e ter a oportunidade de vê-la tão próximo. Sentia-Se um privilegiado por acreditar que ali encontrava em pedaço de céu, terreno. Na verdadé era difícil não imaginar que, se Deus permitisse, faria de tudo para alcançar o próprio Céu ao lado dela.

Esse raciocínio ocupou sua mente enquanto levantava o corpo, sentado no chão, e o colocava sobre o final da cama, ficando de frente para ela. 

- Oi! - disse ele ao vê-la, com um sorriso bobo nos lábios e as sobrancelhas erguidas,  como quem acaba de receber uma surpresa boa.

- Oi.  - respondeu ela em um tom tímido, olhando para baixo como se estivesse com vergonha de algo que fizera. 

- O que foi? - perguntou ele, tentando lembrar-se de alguma palavra dita que possa tê-la perturbado.

-Eu sei que você me pediu para não fazer mas...

Ele sentiu o coração quase parar, esfriar com a sensação de que uma hecatombe era iminente. Ainda assim tentou fingir tranquilidade, maturidade, evitando transparecer seus medos infantis. 

- ... eu li a dedicatória que você escreveu no livro que me deu de presente. 

Não conseguiu evitar o olhar irônico, daqueles que só um bom emoticon é capaz de representar. 'É sério? Só isso?' pensou enquanto tentava encontrar uma forma de conter o sorriso bobo, e aliviado, uma vez que havia concluído antes que a dedicatória era a melhor coisa que já havia escrito na vida. 

- O que foi? - agora ela parecia preocupada, ou um pouco perplexa com a reação dele. 

- Achei write fosse algo gigantesco, ou terrível, o que você havia feito. 

- Mas quantas coisas você me pediu para não fazer? 

Ficou em silêncio. Pensou. Viu-a sorrindo. Riu. 

- Você está certa. 

Ela manteve o sorriso, deixando ainda mais visível as covinhas nas bochechas. Então aproximou-se dele all arrastar o corpo pela cama, encostando o travesseiro na parede ao lado. Ele, por sua vez, parecia cada vez mais encantado com ela. 

- Não está chateado comigo? - agora seu tom era mais calmo, suave. 

- Não. Estaria se você tivesse rasgado e queimado a dedicatória. - a mudança no tom de voz dela parecia ter trazido a ele uma paz que nunca havia sentido.

- E quem disse que não fiz isso? 

Bingo.  Ela riu.  Ele sorriu, tentando manter o controle de seus impulsos e evitar perguntar o que ela havia achado da dedicatória. 

- E... - ela começou - achei incrível o que você escreveu. 

Ele não conseguiu conter o sorriso cada vez mais bobo. Ela percebeu dia alegria e continuou a falar,  aproximando-se um pouco mais, o que certamente trouxe a ele um caos interior que todos gostam de sentir. 

- Achei incrível o quite você escreveu. Mais do que isso, na verdade. Uma pena que não consiga encontrar uma palavra que represente o que quero dizer. 

Ele pensou por um momento. Olhou para ela e sentiu um imenso frio no estômago quando seus olhares se encontraram. 

- Você talvez goste de su...

Ela moveu-se par a frente, interrompendo-o, e encostou seu lábios nos dele. De olhos fechados, não viu que ele pareceu espantado, depois como se tivesse recebido uma doce surpresa para, então, também fechar os olhos. Aí pode sentir que todas as escolhas que fizera Até então haviam sido justificadas, embora nenhum deles tenha tido coragem para transformar aquele gesto singelo em um beijo.

Pareceram segundos intermináveis, ao menos para ele, até que inclinou um pouco a cabeça para trás, quando ela então trouxe de volta o corpo para junto do travesseiro encostado na parede. Ele, por sua vez, abriu os olhos e, olhando-a, apenas balbuciou, em um tom quase inaudível. 

-... blime.

Olharam-se por alguns segundos, surpresos, alegres e ao mesmo tempo preocupados. O silêncio desapareceu Quando ambos tentaram falar. 

- Eu...

Pararam. Trocaram sorrisos cada vez mais envergonhados. Ela ergueu a mão, fazendo um sinal para que ele a deixa-se falar. 

- Desculpa,  eu sei que...

- Tudo...

Ela ergueu a mão novamente. Ele parou de falar. 

- Desculpa. Eu não acho que seja bom para você...

Ele então repetiu o gesto com a mão, e falou após o silêncio dela. 

- Isso é complicado mas estou fazendo o possível para lidar bem com isso. Não vou me empolgar e achar que isso é um sim da sua parte...

Ela o interrompeu.

- Como também não foi um não. 

Perplexa, viu-o sorrir, tentando entender por que havia dito aquilo sem pensar. Baixou a cabeça, envergonhada.

- Que bom. Estou aprendendo a esperar porque sei que, se algo acontecer, terá valido cada esforço feito. 

Ela sorriu.

- Mas...

- O quê?

- Sublime

Ela sorriu. 

- Era sublime a palavra que eu estava tentando dizer. Se encaixa no que você quis descrever? 

Por um momento ela pensou em xingá-lo, achando que ele não estava tentando descrever e sim, apenas encontrar uma palavra... Não. Ele não estava rindo. Estava sorrindo. Como quem mostra algo que não quer evidenciar para não...

Então ela sorriu, percebendo que ele apenas estava procurando uma forma de dizer algo que ela tentou falar quando encostou seus lábios nos dele. 

- Sim, sublime é uma boa palavra - disse ela, sorrindo, enquanto fazia com que seus olhares se encontrassem mais uma vez.

sábado, 15 de agosto de 2015

Cartas do Billi J.

"Caro amigo Vinícius!

Há muito não escrevo-lhe pois há semelhante muito não consigo transcrever minhas notas mentais em palavras passíveis de leitura. A vida, como um todo, tem sido boa porém, é bem verdade, não há tranquilidade suficiente, sequer uma mínima intensidade para dizer que estou bem. Não estou mal, deprimido ou decepcionado, não, não é nada disto. Tampouco beiro a novidade, os sonhos e a alegria. Vivo um marasmo difícil de lidar e sei que você sabe bem do que estou falando.

É difícil, para quem não conhece a situação como um todo, entender o que se passa comigo e que, como bem sei, já se passou - será que ainda passa? - com você. As pessoas, meu amigo, não sabem mesmo o que é construir uma base, definir um caminho e beijar as portas do inferno que surge quando as metas decorrentes das escolhas não são alcançadas - quaisquer que tenham sido os motivos. Não é uma má fase, uma decepção ou uma frustração que pode ser comparada com um inferno - Deus nos livre daquela bobagem de inferno astral que nossos contemporâneos insistem em cuspir em nossos já fadados ouvidos.

Você sabe bem do que estou falando, mais uma vez. As pessoas, num todo, não entendem o que é, em si, o fundo do poço, a porta do inferno, o túnel sem luz ou o beco escuro, fétido e sem saída. As pessoas não entendem porque, para elas, qualquer situação que transcorre de forma diferente do que elas querem, ou por alguma expectativa criada, geralmente superficial, acaba sendo uma grande razão para julgarem suas vidas como alvo de conspiração cósmica - ai ai ai -, azar ou algo que provoque nelas lamentações ou decepções de qualquer espécie.

Quem almeja o raso acaba se decepcionando, e sofrendo, pelo que é raso e superficial, ainda que a dor sentida não o seja porém, é bom ressaltar, é injusto comparar a dor de quem vai muito além daquilo que é vago e passageiro com a dor daqueles que buscam a Plenitude e o Sublime. Seria injusto dizer que todos sofrem na mesma intensidade. Não é verdade. Quem recebe 100 reais e perde um sofre menos do que quem recebe mil e perde 100, mesmo que o segundo receba muito mais e, no fim, tenha muito mais. É injusto comparar as perdas neste exemplo superficial do mesmo modo que não pode ser aceitável comparar as dores de quem fica vivendo levianamente com as de quem realmente batalha por algum fruto da Verdade.

As pessoas, meu amigo, realmente não sabem como é se preparar uma vida inteira para chegar a um momento de intensa Alegria e não conseguir chegar até ele por diversos fatores. Não, não faltou luta, esforço ou sacrifício. Não falta nada disso, ainda. As quedas durante o caminho foram superadas embora nem todas possam ser relevadas como uma simples perda.

Quem se prepara para o Céu não pode ficar satisfeito por ter raspado, ainda que no passado, nas portas do Inferno. Não é fácil lidar com esta certeza, que sempre fará parte do passado (e algumas vezes insiste em tentar se fazer viva no presente, novamente), e que insiste em tirar a tranquilidade todas as vezes em que volta à mente - ainda que seja feita uma guerra para evitar que isto aconteça.

Não, Vinícius, as pessoas realmente não entendem que guerra é essa. Que vida é esta que queremos. Que sonhos insanos temos buscado. Não entendem que as nossas dores foram consequências de nossas falhas e limitações e não de um aproveitamento vago, e inútil de vida - como elas quase sempre fazem. Não são experiências dignas de felicidade ou calmaria. São destroços nossos que poderíamos ter evitado se tivéssemos conseguido ir além de nossas forças, com Alguma ajuda e uma humildade que nos faltou para reconhecer que éramos incapazes - e ainda o somos.

As pessoas não entendem que Sonhos, de verdade, exigem sacrifícios e não fazê-los comprova a falta de desejo, real e puro, por eles. Poucos conseguem entender todas as vezes senti um aperto gigante no meu coração, uma angústia absurda e uma vontade quase incontrolável de explodir para não sentir mais dor. Não conseguem entender porque não faz sentido o sofrimento por erros que para elas são rotina, aceitável e prazerosa rotina. É tudo normal, tudo cabível, tudo tranquilo para estas pessoas que não entendem que para ir além é preciso buscar um auto conhecimento próximo do total, uma humildade crua e uma sinceridade radical nos sonhos, no querer e na busca pelo que é Verdade.

Até mesmo meus anos de sofrimento pela ausência da Renata, Vini, e pelos anos de namoro com ela, volta e meia me trazem imagens de atitudes e escolhas que tenho vergonha de lembrar. Amei-a intensamente todos os dias em que estivemos juntos, todos os dias dos anos em que ela esteve na Inglaterra e durante alguns meses depois que terminamos também porém, hoje, anos depois, não posso dizer - como fazia tempos atrás - que ela é o grande amor que tive. Não construiremos uma história definitiva juntos e, então, não faz sentido continuar exaltando-a no lugar de alguém, que virá e completará o que há tempos percebo faltar.

Queria poder dizer que soube esperar até aqui. Que soube me proteger. Defender meus sonhos e os Sonhos que regem minha própria história mas falhei, meu amigo. E como falhei. Tantas e tantas vezes esqueci que momentos passam e sentimentos ficam. Minha tristeza era profunda toda vez que não conseguia evitar os erros que destruíram minhas chances de provar que o meu desejo estava muito longe daquilo que meus olhos conseguiam ver. Falhei miseravelmente todas as vezes em que decidi seguir os instintos meramente humanos.

As pessoas não entendem isso, meu amigo. Não entendem por qual motivo fiquei tão mal, e por tanto tempo, quando percebi o tamanho do mal que deixei crescer em mim. Habitar em mim. Sorrir em mim. Sorrisos estes que nunca mais quero ver.

Sei que você me entende. Que sabe do que estou falando. E que compreenderá por que é, para mim, tão difícil fazer de conta que o que passou foi pura, e simplesmente, vivência de uma vida normal. Não foi. Não é. Nunca será. Uma pena que apenas agora, depois de tanto tempo, eu consiga ter a firmeza suficiente para afirmar isso e a humildade para reconhecer que nunca conseguirei chegar, até onde os Sonhos querem me levar, sem um auxílio.

P.S. O olhar, o sorriso, o abraço e o simples fato de me fazer querer companhia para a Eternidade. Que incrível é isto mesmo que, ao menos por enquanto, seja apenas esporádico e não recíproco.

Quero, de verdade, de ter o direito de ouvir aquela voz, ser alvo daquele carinho e ter a obrigação de ser a melhor pessoa do mundo para ela.

Não sei se poderei viver isto mas... estou tentando ser o máximo possível paciente, de uma forma que nunca fui - o que, também, me levou a sempre cometer erros infantis.

Abraço, amigo.
B. Johan"

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Histórias de uma vida não vivida (68)

*Enquanto estou aqui, onde estará você? Será que já não estou esperando-a a um tempo assumidamente suficiente? Ou o sublime que você experimentará ao meu lado faz com que toda espera seja mera formalidade insignificante? Onde você está que não aqui, ao meu lado? Quando, ao sentir a delicadeza de suas suaves mãos, perco a noção da própria existência, estou beirando um surto ou apenas experimentando o próprio Paraíso? Cada detalhe parece tão único, tão espetacular e tão intenso que me perco ao descrevê-los. Sou incapaz de transformar em palavras todas as sensações, e os sentimentos que existem simultaneamente, e, sendo assim, nada posso fazer além de esperar. Onde quer que você esteja, gostaria que estivesse aqui. Por qualquer que seja o motivo que não está, estou esperando. Aliás, aprendendo a esperar. Nunca pensei que o próprio Céu pudesse ser tocado com minhas humanas, e limitadas, mãos. Nunca pensei que almejaria com tamanha vontade a própria Eternidade em meus dias de tempo limitado. Ainda estou um pouco atordoado com todo este mundo que venho descobrindo e, não tendo experiência na espera pelo Tudo, sinto um forte e insaciável medo de concluir outra página com um ponto final vazio, seco e decepcionante. Não sei o que virá. Como será. Se será. Você. Quando. Onde. Por quanto tempo. Nada sei com relação ao que foge do meu próprio ser. Tudo que sei, por fim, é que há algo incrível que só alguém como você poderia ter sido capaz de produzir em alguém tão duro, e indiferente, quanto eu. Só a pureza de um coração repleto de Amor poderia ser capaz, ainda que não intencionalmente, de trazer de volta a sincera espontaneidade típica daqueles que são tocados por respingos de Céu, por feixes, mesmo que minúsculos, de Luz. A incerteza e a insegurança, o medo e a ansiedade, e todos os seus semelhantes, não são capazes de tirar a tranquilidade que é fruto da esperança de vivência de uma intensa, e sublime, Alegria.

Quando olhei para o relógio, após incansáveis minutos, ou horas, de leitura, não pude acreditar que o dia já havia acabado e eu continuava ali, parado, com um livro na mão. Enquanto as histórias, de outras pessoas, eram imaginadas enquanto as lia, a minha própria história, escrita com rabiscos tortos e inelegíveis, permanecia parada, intacta, imóvel e, possivelmente, inútil. Aproximava-se o novo dia da primeira hora e eu, ainda pasmo, tentava imaginar o que poderia, ou mesmo deveria, estar fazendo para que a minha vida ganhasse a intensidade própria da literatura na qual havia estado preso, por olhos e mente.

A beleza das formas, a perfeição das descrições e a complexidade das relações em nada assemelhavam-se ao que conseguia visualizar na minha própria história. Como alguém que não consegue listar sequer cinco pessoas importantes para si seria capaz de viver algo semelhante, ainda que minimamente, ao que absorvia da vida de outrem? Aquilo não fazia qualquer sentido para mim. Eram tantos detalhes que, quando tentava encontrar análogos em meu dia, não conseguia sequer terminar uma frase. Os tempos em minha vida perdiam-se tanto quanto se perdem aqui, nestas farsas supostas frases.

Nada em minha vida poderia ser relacionado, e comparado, sequer à mais simples das histórias lidas. A falta de detalhes, pessoas, situações, opções e intensidade me pareciam, e ainda parecem, prova de que há uma vida inteira sendo desperdiçada. Não consigo seguir muito adiante porque tornar-me-ei repetitivo por não ter condições de contar sequer uma história engraçada. Triste. Alegre. Curiosa. Decepcionante. Enfim. Sinto como se meu tempo estivesse sendo meramente jogado fora em uma rotina decepcionante de um ser humano deprimente. As horas passam e eu continuo aqui, ali, acolá e nada, mesmo, acontece. Mesmo um náufrago, sozinho em uma minúscula ilha, é capaz de ter uma vida com mais detalhes, acontecimentos e experiências do que a minha. Parte disto é fruto da depressão. Outra parte é da incompetência em sair dos meus limites, tão medíocres, e viver.

Queria poder encontrar uma razão para sair daqui, correr, bater, quem sabe morrer. Queria ser capaz de cortar as cordas invisíveis que eu mesmo enrolei, e apertei, sobre meus braços e pernas para poder ao menos cair. Sequer decepções pontuais consigo viver. A decepção é apenas uma: a falta de vida. Sinto-me despedaçado como um quebra-cabeças que não foi retirado da caixa. Ele está separado por nunca ter sido usado e é este tipo de fragmentação que pareço ser.

Indo além, não espero que alguém venha e transforme minha vida. Tire-me da minha melancólica morte diária. Não. Já disse que minha vida, medíocre, não permite a aproximação de alguém, por mais abençoada que a pessoa seja. Continuo intacto, imóvel, imerso em vidas que não são minhas, em histórias que nunca poderei contar, em decepções e alegrias que nunca serei capaz de experimentar, lamentar, reviver e agradecer.

Continuarei aqui, por algum tempo, morrendo lentamente por não conseguir sair do lugar. Por não conseguir ir para longe sequer em pensamento. Limitações, mediocridade, misérias, defeitos e covardia. Tudo isso e mais uma grande quantidade de coisas.

Já não faz sentido continuar. O relógio não para de caminhar e, ainda assim, é mais rápido do que eu e meu vão, inútil e patético esforço para correr.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Histórias de uma vida não vivida (67)

*Quando você passou, naquela noite, meus olhos vislumbraram o céu. Não um céu azul, distante, que existe por si só e em qualquer lugar do mundo é o mesmo céu. Não. Era um céu diferente, um paraíso único, a certeza de que a perfeição existe e não é por si só, é por algum motivo. É pelo seus lindos olhos. Pelo seu sorriso único. Pelo seu rosto desenhado com tanto carinho pelo Criador. Pelo seu jeito suave de caminhar e balançar levemente seus cabelos de comprimento médio. Cada detalhe que pude pegar, na sua rápida passagem diante de mim, foi suficiente para ter a certeza de que você é exceção em um mundo repleto de coisas, e principalmente pessoas, comuns, rotineiras, normais. Você não pode ser normal. Seu rosto não é normal. Seu jeito não é normal. Se seu coração for tão belo quanto o que meus olhos enxergam em você e se a sua mente está aberta a buscar a plenitude eu, sem qualquer dúvidas, investiria todo meu tempo para conquistá-la e fazê-la parte fundamental da minha vida. Quantas vezes pensei que a beleza, superficial, era desnecessária. Você me mostrou que não. Se não for apenas beleza visível, e tiver uma série de virtudes louváveis e dignas de reconhecimento silencioso - para não incitá-la a perder a humildade que também espero que tenhas - terei a alegria de reconhecer que errei. Que sua beleza excepcional vai além do visível. Se o que há de invisível em você for tão incrível quanto pode ser - para manter a coerência com o que há de belo na sua aparência - terei de pedir uma coragem que não tenho para lutar por alguém que desejo há tanto encontrar. E que, de alguma forma, torço de verdade para que possa ser você. Eu gostaria, tanto, de poder olhar nesses seus olhos mais do que os raros segundos que tenho quando você passa, eventualmente, por mim.

Estava voltando do supermercado e, ao abrir o portão do edifício onde moro, me deparei com elas. Duas. Mulheres. Jovens. Estudantes. Que moravam junto. No mesmo edifício que eu. No mesmo bloco. Sim, minhas vizinhas. As minhas vizinhas lindas. Maravilhosas. Espetaculares. E ainda por cima simpáticas. Estavam as duas paradas. Cumprimentei-as e, ao passar por elas ouvi uma delas dizendo:

- Foi você que deixou esse convite para nós na caixa de correio?

Parei. Olhei para os lados, para frente, para trás.

- É comigo?

Não deveria ser mas como não havia mais ninguém achei que aqueles monumentos poderiam estar falando comigo, sim.

- Sim. Foi você que deixou esse convite na nossa caixa de correio?

Elas me mostraram um papel pequeno, bem recortado, que convidava para um... não sei, parecia um convite conhecido mas como estava meio escuro e sou meio...

- Alô? Você está aí?

Tinha mergulhado em pensamentos tentando ver o convite nas mãos dela e parei prestando atenção naquelas mãos de princesa.

- Ah, desculpe, estou um pouco cansado.

- Então? - disse a outra, igualmente linda, só que loira (a outra tem cabelo castanho) de olhos azuis - Foi ou não você que deixou esse convite?

- É um convite para quê? - tentei alongar a conversa para ter uma boa razão para olhar de perto para elas já que, nas poucas vezes em que elas passam por mim são rápidas, ágeis e simpáticas ao ponto de me hipnotizar com seus sorrisos que dizem tudo e exigem toda minha atenção.

- Para um grupo de...

- Ufa.

- Ufa?

Eu havia suspirado alto.

- Não era para ter sido ouvido mas, sim, ufa.

- Por que?

- Porque achei que eu poderia ter surtado durante a madrugada e sem perceber escrito um convite e deixado na caixa de correio.

- E por que você escreveria um convite e largaria na nossa caixa de correio? - perguntou a loira.

- E por que você surtaria? - perguntou a de cabelo castanho.

Eu não sabia para quem olhar. Só que aquela situação sempre pode piorar.

- Eu poderia ter criado coragem e escrito no papel um convite para ela - falei olhando para a de cabelo castanho enquanto apontava, com a cabeça, para a loira - ir no cinema comigo.

Elas fizeram menção de dizer algo entretanto continuei.

- Ou ir comer uma pizza. Ou tomar um chopp. Ou um mate no calçadão. Ou um xis gigante do...

Sem merchandising.

Elas entreolharam-se. Depois olharam para mim, percebendo minha expressão que indicava um claro 'opa, escapou'.

A de cabelo castanho então olhou para mim, para sua amiga loira linda espetacular e virou-se, não sem antes dizer:

- Preciso ir estudar.

A loira me olhava. Eu intercalava olhares longos para os seus olhos azuis e muito breves para os cabelos castanhos ondulados que balançavam delicadamente a cada paço da outra obra-prima do Criador.

- Por que você iria me convidar?

'Pergunta retórica' pensei em responder. Ou algo do tipo:

- Porque você é um espetáculo, um pedaço de perfeição que tenho o azar de não poder ver, e muito menos tocar, todos os instantes da minha vida miserável.

Provavelmente ela entenderia o porque da minha hipótese do surto e procuraria outro lugar para morar. Respondi ser simples, e breve.

- Porque acho você incrivelmente linda e porque o seu sorriso me encanta, mesmo que eu não tenha a felicidade de vê-lo todos os dias.

Meu coração palpitava violentamente. Achei que se não infartasse naquele momento nunca mais correria o risco. Parado, com uma vergonha do tamanho de Júpiter, fiquei olhando para as mãos delicadas dela enquanto percebia que o seu olhar vinha de encontro aos meus caídos olhos.

Ela, parada, sem saber o que dizer, resmungou:

- Eu só aceito com uma condição.

Caso fosse realmente sincero, e um pouco muito impulsivo diria algo como "te dou o Sol, a Lua, a Terra, busco Vênus e transformo Plutão de novo em planeta se você quiser" porém, mais uma vez, pensei que isso a espantaria.

- Qual? - perguntei, com um medo monstro da resposta.

- Que você me explique o que acontece quando surta.

Fiquei olhando para ela com um olhar cético. Ela completou:

- Vai que você surte enquanto sai comigo e... vai saber o que pode acontecer.

Até para se proteger ela era meiga. Doce. Um sorvete de chocolate misturado com ovomaltine (desculpem o merchandising, foi inevitável) e chocolate granulado. Uma simpatia sem...

- Não se preocupe, eu não vou surtar perto de você.

- Promete?

- Prometo?

- De mindinho?

sábado, 2 de maio de 2015

Histórias de uma vida não vivida (66)

"...My minds made up..."

*Se todos soubessem estaria eu, há dias, internado em uma casa de repouso psiquiátrico, ou qualquer que seja o nome atual dado para hospícios. Se soubessem do anseio pela sua descoberta, pela chance de poder olhá-la e tê-la comigo, de poder ouvi-la e falar-lhe sobre a vida que virá, de poder abraçar-lhe e dizer que tudo está bem... ah, se soubessem. Louco não sou eu, que sonho com alguém que talvez não conheça. Louco é quem pensa superficialmente, não sabe esperar e sequer sabe o que esperar. Louco é quem não sabe o que quer, o que precisa, o que planeja, é quem não tem sonhos dignos de serem sonhados e pelos quais vale à pena lutar. Confio que um dia virá e tomará o lugar que é seu, por direito a ser conquistado. Não, você ainda não merece o lugar que sei que preencherá no entanto tenho certeza de que fará por merecer. Hoje, mais uma vez, sonhei com você, com seu abraço, com a calma, a coragem e a confiança que você trará para a minha vida. Sonhei sem ver seu rosto porém senti algum conforto só por ter a certeza de que você virá. Que estará. Que ficará. Que será. Louco seria eu se não sonhasse com o dia em que você chegará e tomar para si meu pequeno tesouro: meu coração.