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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Histórias de uma vida não vivida (44)

*Desperte da escuridão, pedaço reprimido pela sensatez. Saia de mim, agonia amaldiçoada por tudo que é correto. Os pequenos detalhes que transcrevem essas palavras são insignificantes perante o que existe, de verdade. É como se estivesse disfarçando tudo aquilo que incomoda, escondendo tudo o que irrita e transformando tudo o que atua com a adrenalina em poeira miseravelmente passageira. O que surge logo desaparece, levado por um vento estranho, lento vento, inexplicável com palavras. Até mesmo as lágrimas ele leva. E, com tudo mais que passa do inevitável para o desnecessário, desaparece, sem deixar resquícios de sua existência, ou da existência daquilo que um dia pareceu ser porém não passou de mera sensação.

Há dias em que a violência toma conta de mim. Sério, não consigo ter paciência sempre com tudo e todos, ainda mais quando surgem idiotas, óbvios ou irônicos, que conseguem fazer com que a minha vida passe do aceitável para o insuportável. Eis que, hoje, decidi me rebelar contra isso de uma maneira bem simples, usando de um artifício estúpido. Desci ao nível dos ridículos, caí ao nível dos idiotas e, digo mais, o abismo é tamanho que não há nível positivo que condiga com o que quero fazer.

Fiquei louco. E serei violento.

O mais irônico disso é que, mesmo quando decidi que acabaria dando um esporro, verbal ou físico, em tudo que acabasse com o meu estado de espírito equilibrado, acabei condicionado a alguns detalhes:

1 - A polícia. Sair batendo em todo mundo até vai, mas na frente da polícia, não. O arrependimento por semanas, meses ou anos na cadeia, por bater em civis, ou policiais civis, seria grande demais. O politicamente correto age mesmo quando tento deixá-lo de lado. Fico pensando na resposta que daria se me perguntassem o porquê de estar batendo pra valer em todos esses infelizes. Talvez fosse algo como 'alguém te chamou aqui?' ou 'você sabe com quem está falando?' ou, talvez a melhor, 'se você não sair daqui vai ser o próximo'. Pensando bem, é melhor evitar o confronto, não quero ser alvo daquelas máquinas imobilizadoras com choque elétrico, o cara fica todo retardado depois de levar uma  daquelas;

2 - Os sensacionalistas defensores dos animais. Dar um chute naquele cachorro imundo que estava prestes a mijar nos meus pés seria bom para o meu propósito de violência para libertação de raiva porém tenho consciência de que sempre tem um idiota parado na rua sem fazer nada que pega o celular e filma tudo. Meu rosto apareceria na internet e seria alvo de fanáticos defensores dos animais até mesmo enquanto estivesse no banheiro. A vontade de mandar essas bichinhas hipócritas, que não querem violência contra cachorros mas não pensam duas vezes antes de pisar em baratas e atirar pedras em pássaros, para a p...onte que partiu é tão grande que eu mesmo queria ser capaz de arremessar um deles para lá. E ainda colocar no youtube depois;

3 - Dona Matilde Ferrari: minha sogra. Aquela jararaca dos infernos me puxaria para o mundinho quente e amaldiçoado dela se descontasse minha irritação, de maneira violenta, na filha dela. Amor, é brincadeira tá, em você eu não desconto nem uma pena :)(mas a sua mãe é sim uma cobra perigosa, só você não vê);

4 - Ronald Twinquer, meu professor de jiu-jitsu. Se aquele monstro disfarçado de professor de lutinha descobre que saí usando golpes que ele ensina até para aqueles pirralhos de 7 anos, não sobraria muita coisa de mim. Talvez alguns ossos da mão ou do pé. Talvez. Pacifista hipócrita, dá a entender que é a favor da paz, que as técnicas de luta não podem ser usadas na rua e tal mas só ele não sabe que todo mundo nesse inferno de cidade sabe que ele já agrediu 20 pessoas em um bar. Naquele dia, o tele-entulho recolheu 612 quilos de vidro quebrado. Mesmo assim, não posso competir com ele;

5 - João Panás Gonzáles, o mendigo. As minhas ações estão condicionadas a não reações dele sobre mim por um simples motivo: ele sabe usar um canivete como ninguém. A vontade é de, à noite, ir lá e roubar aquele canivete, quebrando-o em mil pedaços mas... alguém já fez isso e o infeliz conseguiu consertar. Para piorar, já vi ele furando dois plaiboizinhos que tentaram queimá-lo vivo. Também entra nessa lista porque não aguento mais a sua mania de me pedir, todos os dias, 'um trocado pra mim comprá leite pras criança'. Eu juro que se ele falasse a verdade e dissesse que queria dinheiro para comprar cachaça, eu dava dinheiro para ele (mas só uma vez);

6 - A lista continua com a Doutora Janice Quadros, a vaca gorda. Tenho feito algumas comparações visuais e, se alguém tiver uma trena suficientemente grande para medir a barriga dela, olha, o valor dessa medição passaria o da circunferência da Terra. Sério, e ela ainda teve coragem de, dia desses, me dizer com um sorriso no rosto: "Você precisa fazer academia, está começando a ficar com barriga de cerveja". EU NÃO BEBO CERVEJA! Inferno. Ela é psiquiatra, não nutricionista ou personal trainer. E ainda por cima me diz, toda maldita semana, que ' é fraco o homem que cede a seus impulsos '. Eu queria mesmo ser muito fraco para dar umas livradas bem dadas naquelas bochechas  inchadas;

Minha raiva contra essas pessoas idiotas só aumenta na medida em que o meu contato com eles se mantém ativo. Estender a uma atendente uma nota de 100 reais e ainda ouvir um 'vai pagar à vista?' me faz desistir de ser uma pessoa sociável. Queria poder comprar tudo pela internet mas... ah, os atendentes de telemarketing, preparados pelo próprio encardido, não fazem outra coisa senão ligar para o meu CELULAR às 7 da manhã do sábado para perguntar se não quero colocar no débito automático as minhas contas que... estão no débito automático. E depois, para completar, a pessoa da tele-entrega ainda me pergunta 'quer que entreguemos na sua casa o seu almoço?'.

É impossível. I-M-P-O-S-S-Í-V-E-L.

Chega dessa baboseira, preciso traçar um caminho para levar a minha fúria ao extremo. Talvez um bastão de... porcaria, no brasil ninguém joga baseball. Ou um taco de... é, 'não temos tacos de hóquei', já me disse um atendente afeminado. Se bem que... não, o João fedido não me emprestaria o canivete e... sem as técnicas de luta, não me sobram muitas opções.

Sacanagem, preciso me conter por mais alguns dias até achar uma solução. Mais alguns dias... ah, inferno.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Histórias do Billi J. - Eu sou você amanhã (1)


- E aí seus medonhos! - disse, sorrindo, o Billi J..

Agora estavam todos reunidos. Todos os quatro, no caso.

- O que temos para hoje? - perguntou aos outros.

- Estou com fome.

Esse era o Rafael, pensando, quase sempre, nos prazeres básicos da vida, como comer.

- Eu também.

Luiz, vinte e dois anos de muitas bobagens feitas que demorou um pouco para perceber que amigos de verdade tinha poucos.
- Acho que todo mundo está com fome. Corremos que nem uns idiotas.

Palavras do Douglas, o mais velho. O mais experiente. O mais radical, irônico e despreocupado. E geralmente o menos empolgado com atividades físicas.

- Mas foi engraçado ao menos.

Esse, óbvio, era o Billi J. .

- Me lembre de cortar os pulsos antes de aceitar quase morrer correndo com vocês, de novo. - insistiu Douglas.

Todos riram.

- Então vamos comer logo que eu quero dormir cedo. - insistiu Rafael.

- Agora que você está solteiro não tem motivos para ir dormir cedo.

Todos riram.

- Mas o que vocês querem fazer, querem me levar para o mal caminho?

- Você já está no mal caminho, namorava a mulher que ama e agora está solteiro, quer caminho pior? - ninguém lembra quem disse isso.

- Diz o cara que esperou anos praticamente sozinho para namorar o tal 'amor da vida'.

Todos riram.

- Não fica tripudiando com quem está solteiro. - a voz da sabedoria do Luiz.

- Quando a Renata ainda tava bem longe vocês ficavam soltando piadinhas, rindo da minha cara e dizendo que eu, pai, só se adotasse uma criança, é a minha vingança.

Ninguém riu. 

O silêncio imperou. 

O clima pesou.

Eles se olharam.

Então riram.

- Terminar o namoro foi uma escolha sua, pelo que você disse.

- Ela era muito ciumenta, não podia sair com vocês que ela já perguntava onde íamos, como íamos, com quem íamos, quando voltaríamos, o que iríamos fazer.

-Todas nos enchem de perguntas.

- A toda hora, a toda ação e, se pudessem descobrir o que pensamos, nos fariam perguntas a cada pensamento.

- Não esqueça de cada olhar, você olha para o outro lado da rua procurando uma loja e elas já te cutucam perguntando por que você estava olhando para a bunda da atendente da farmácia. Detalhe: a atendente da farmácia estava dentro da farmácia, atrás do balcão e a única coisa que se podia ver da rua eram caixas de pasta de dente.

- Sério isso?

- Claro, fatos verídicos.

- Ei, o assunto é comigo, a reclamação é minha agora!

Todos riram.

- Fala então.

- Valeu Billi. Eu ia dizer que a Andresa era pior. Sempre achava que eu tava saindo com outra pessoa, que tava traindo ela. Três anos de namoro e não confiava em mim mesmo que eu nunca tenha dado motivos para ela desconfiar. Eu me sentia uma bosta de homem com isso.

- Você é um bostinha.

Todos riram.

- Rafa, claro que, também, dar carona para uma mulher que tem fama de garota de programa não tem nada a ver com o ciúmes da Andresa.

Todos riram.

- Douglas, você sabe que eu não fiz e nunca faria nada enquanto estivesse namorando né?

- Claro que não, só não quero falar de assuntos sérios enquanto estiver com a camisa molhada de suor e os pés cheios de lama.

- Vamos tomar banho e depois comer.

- E depois?

- Tem baile de formatura hoje, eu posso consegui ingressos.

- Claro Douglas, você conhece todo mundo nessa cidade, como não teria ingressos para uma simples formatura de... de que?

- Mas você é mesmo um grande filho da mãe, Douglas. Arruma um baile de formatura no dia do último capítulo da novela. Como que eu vou assistir o último capítulo da novela se tenho que ir no baile com vocês?
Todos riram, muito.

- Tá, é formatura de que curso?

- Sei lá, só sei que tem baile.

- Não tem muitas opções de curso nessa universidade medonha.
- É, são só sessenta e sete cursos, entre técnicos e superiores.

- Como você sabe?

- Li no panfleto que tá ali. - apontando o dedo para a parede.

Todos riram.

- Fechado então, vamos para o baile afogar as mágoas.

- Luiz, ainda guarda mágoas da Mari?

- Eu sempre guardo mágoas, de tudo e de todos.

Todos riram. Sabiam que ele estava brincando.

- E eu não estou brincando, guardo mágoas até de vocês.

E riram novamente. Ele estava sim apenas brincando.

- Estão achando que é brincadeira né?

E era.

- Então vamos logo que eu estou com fome.

Saíram.

(...)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Histórias de uma vida não vivida (37)


*Entendi que sob a luz está tudo o que se pode descrever. De olhos fechados não há descrição pois não há luz, logo não se pode ver. Apenas os outros sentidos valem quando não há luz. Descrevendo apenas o que se sente, quando possível, dá-se a mais simples forma até mesmo às mais complexas sensações. Quente ou frio, forte ou fraco, grande ou pequeno, redondo, quadrado ou triangular. Amor, raiva ou decepção. Então, olhos fechados para aquilo que não quero lembrar e tudo talvez seja mais simples.

- Olha ali embaixo!

- Onde?

- Ali, ali, lá...

Ela parou.

- Não, continua caminhando...

- Por quê? Não estou vendo nada.

- Continua caminhando que vai ter sentido.

Ela voltou a caminhar.

- O que você quer que eu veja?

- Olha para o chão, olha para os detalhes desse piso.

- Então eu tenho que parar e prestar atenção!

- Já disse que não, continua caminhando, já disse que parada você não vai entender!

- Está bem.

- Agora você está vendo?

- Só vejo os detalhes do piso da calçada.

- Reparou na luz?

- A do poste?

- A que vai mudando de lugar, refletindo de um jeito diferente no piso a cada passo que você dá...

- Ah, era isso... agora entendi.

- E aí?

- Sabe, é legal. Cada piso diferente, cada tipo de piso nas calçadas dão um reflexo diferente e os detalhes são...

- ...diferentes!

- É! Isso é legal mesmo. Como você consegue?

- Como eu consigo o que?

- Descobrir coisas legais em coisas simples.

- Talvez seja inspiração por você estar aqui comigo.

Ela parou mais uma vez.

- Você é estranho.

- Por que?

- Geralmente pessoas inspiradas criam alguma coisa e não ficam reparando tanto em detalhes.

- Você sabe que não sou detalhista.

- Sim, por isso não faz sentido logo você ter reparado em uma coisa tão simples, e tão legal quanto os diferentes reflexos das luzes da cidade nos pisos das calçadas.

- Obrigado.

- Ah, eu não quis dizer que...

- Você quer inspiração com palavras? Achei que nada do que eu dissesse lhe importava mas...

Ele fez um gesto com a cabeça para continuarem andando. Uma finíssima garoa começava a cair.

- Pega.

Ele tirou o moletom e colocou sobre as costas dela.

- Não quero que você fique gripada.

Ela sorriu. Eles então voltaram a caminhar.

- Você ia me dizer alguma coisa.

- Ah sim, as palavras.

- Não precisa dizer nada, eu não quis mesmo...

- Agora precisa.

Ela não desviava o olhar dele, aquilo talvez viesse a ser engraçado.

- Caminhamos sobre o piso e as luzes se transforam. Cada detalhe gera uma nova imagem, cada pequeno fim gera uma expectativa sobre um novo começo. Quem sabe a vida seja assim, como as luzes da cidade que batem nos pisos das calçadas e geram uma imagem diferente a cada passo. Caminhamos escrevendo uma história nova, vendo imagens novas e a luz, ah, a luz é nova a cada dez passos. Quem diria que algum dia seria assim, que estaríamos aqui, sozinhos, caminhando sobre luzes sem saber ao certo onde iremos chegar? São tantas imagens que fica difícil escolher uma porque, a cada passo, surge uma nova imagem e essa parece ainda melhor do que a anterior. E assim os passos se sucedem e as escolhas mudam a cada passo. E as que ficaram para trás? Quem se importa com elas agora? Não será a mesma coisa se voltarmos para revê-las. Como as lembranças que ficaram e foram boas. Não dá para querer revivê-las, elas tiveram seu tempo certo. Assim acontece com as más lembranças. Não precisamos dela, não precisamos de nada delas porque, se quisermos, cada passo dado gerará uma imagem pior, no caso, uma lembrança pior. Depende do ponto de vista. Agora estou aqui com você e, pelo resto dos meus passos, quero que você esteja comigo para ver todas as imagens que as luzes colocam à nossa frente. Que esteja comigo para me ajudar a caminhar e para fazer parte não apenas das minhas lembranças como também das novas histórias que serão escritas na minha vida.

Ela pareceu perplexa. Ele nada mais disse.

- Nunca imaginei que você conseguisse dizer tudo isso.

- Inspiração.

- Eu?

- É.

O silêncio da noite veio.

- O insensato da espera me cansa, queria que tudo pudesse ser sem qualquer condicional.

Ela o olhou sem saber se havia entendido.

- Sabe, daqui a algum tempo tudo talvez pareça tão simples, os condicionais do mundo e das outras pessoas talvez sejam bons.

- Para quem?

- Talvez para você, talvez para nós dois. Eu não sei.

- Então?

- O problema não é saber o que vai acontecer.

- Qual é o problema?

- Pensar que esses condicionais, em algum tempo, impeçam você de estar comigo.

Ela não sabia o que responder.

- Eu...

- Não precisa dizer nada. Estou feliz por estar aqui comigo. O futuro preocupa mas... sabe, o futuro sempre preocupou, então...

- Então?

- É isso, nada.

- Pelo menos sempre teremos as lembranças né.

Ele sorriu.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Histórias do Bandiolo - Até os malucos vão ao psicólogo


- O senhor pode começar.

- Por onde?

- Bem, por onde quiser.

- Eu não quero falar nada, mas me disseram que o senhor poderia me ajudar.

- Qual o seu problema?

- Assim, direto?

- Pode ser, com o passar dos minutos, acabará me falando o que eu preciso saber para lhe explicar o que está acontecendo com você.

- Se é pelas minhas palavras, eu já sei o que acontece.

- Então, por que me procurou?

- Simples, eu não sei como entender por que isso está acontecendo me ajuda a...

- ...sentir-se melhor?

- Isso, o senhor até que é bom nisso.

- Bom, você está perdendo tempo, comece a falar o que está acontecendo.

- Está bem. Acabei percebendo que...

- Não, você não deve me dizer o que percebe, o que pensa ou o que entende, a menos que eu lhe pergunte. Você deve apenas contar o que está acontecendo, entendeu?

- Hum, tá bom. Nesses últimos dois anos, a minha vida tem andado sem um rumo certo. Eu mesmo não tenho certeza com relação a muitas coisas.

- Que coisas?

- Sabe aquela história de dom, para música, artes, oratória, escrita ou mesmo algum talento esportivo ou intelectual? Pois é, não tenho nada disso. Meu futuro profissional, portanto, depende muito do que me agrada e...

- ...você ainda não descobriu com o que quer trabalhar pelo resto da vida.

- Mais ou menos isso. A questão não é descobrir o que quero, mas sim o que preciso.

- Por que, ao invés de buscar o que acha que precisa você não busca o que quer?

- Porque eu também não sei o que eu quero.

- Do que você gosta?

- Não desvie do foco, não é de um teste psicológico ou daqueles testes vocacionais que preciso.

- Então continue a falar sobre o que você quer falar.

- Muito bem. Da mesma forma que não consigo sequer começar o encaminhamento da minha vida dentro de um trabalho, não consigo resolver problemas emocionais e, não me chame de débil, mentais.

- Problemas emocionais todos temos.

- O senhor é casado?

- Quem é o paciente?

- Você venceu. Então, se o senhor já viu Chaves, sabe o que é amor platônico.

- Dona Florinda e Professor Girafales.

- Isso. Pois é, sinto como se estivesse em uma situação parecida.

- Você a vê...

- ... não me interrompa! Eu a vejo, fico com cara de bobo, gaguejo, não consigo manter um assunto razoável com qualquer outra pessoa quando ela está por perto. A conheço e sei que não há em nenhum reinado desse mundo coração tão bom. Conversamos à distância...

- ...internet?

- Eu já disse, não me interrompa senão eu saio sem pagar a consulta. Sim, pela internet. Horas e horas mas quando estou perto dela não consigo conversar.

- I...

- Shhhh. O problema é que não importa o que eu diga ou o quanto demostre o que acontece comigo por causa dela, para ela, está tudo bem como está e isso talvez me incomode. É uma companhia adorável, uma pessoa simples e Deus bem sabe como pessoas simples me encantam. Só que...

- ...

- É, isso aí. Penso nela todos os dias, doutor. É como se o sol brilhasse mais a cada pensamento que me lembra aquele rosto, aquela voz e todos os momentos que passei perto dela. Eu sou um grande bobo, não sei o que fazer, tenho quase certeza de que nada posso fazer mas ainda assim isso...

- ... lhe desanima, lhe tira as forças, a motivação e consequentemente os sorrisos.

- Exato, essa foi uma boa interrupção.

- Obrigado, estou aprendendo.

- Não se empolgue.

- Bom, eu vejo que..

- Eu disse que terminei? Assim, os meus pensamentos, quando não direcionados para o que eu sinto, para a saudade da família, dos amigos e dela, bom, esses pensamentos tem me feito pensar que aquela crise dos 25 anos chegou cedo demais em mim, pois não tenho nem 20 anos.

- A tal crise existencial?

- Não devia tê-lo elogiado. Bom, é essa crise existencial, sim, ou algo próximo. É terrível pensar que, hoje, poucos são ideais que me motivam a continuar seguindo-os. É como se muito do que eu acreditasse tivesse transformado-se em...

- ...nada.

- Isso! Nada! Todo o tempo que passei amadurecendo em mim tudo aquilo que sempre vi como correto, justo e sincero, parece estar fraco. Por muito tempo busquei esse crescimento e hoje eu me pergunto 'para que tudo isso?'. É cansativo ter de aprender e mudar à partir do que se aprende, do que passa a ser o melhor.

- Há algo tomando o lugar desses ideais?

- Bom, não. E isso incomoda mais ainda. É como se estivesse me esvaziando e me tornando um pastel de ar, sem carne, frango ou qualquer outro recheio. É muita massa para pouco interior. Me sinto vazio, cheio de nada, sem rumo a seguir, sem saber como sair disso e estar sozinho...

- ... potencializa isso.

- Na trigésima potência. Bom, não vou falar de números, sei que o seu forte são as palavras audíveis.

- Obrigado pela consideração.

- ...

- Mais alguma coisa?

- Sim, estou com fome.

- Você entendeu.

- Sim, entendi. Bom, o senhor não é a primeira pessoa que me ouve e tenta entender o que está acontecendo comigo. Doutor, tem sido difícil encontrar motivação. O final de parte do meu caminho não parece ser suficiente para o que estou passando. A curto prazo algumas coisas funcionam mas... eu não consigo me concentrar, não consigo escrever, não consigo criar nada, não consigo sequer cantar sem uma letra na frente para me guiar. É como se eu tivesse um microfone e, no show mais importante da minha carreira, tivesse um ataque de pânico e desmaiasse na frente de 80 mil pessoas.

- No Maracanã?

- Não, em Wembley.

- Deve gostar de Beatles.

- Não vem ao caso. Qualquer vestígio de concentração desaparece quado percebo que posso estar começando a concentrar-me. Estudar é uma guerra contra a minha vontade, mente e corpo. Não me vejo engajado em nada e essa nulidade me enerva. Durmo mal, não consigo lembrar de qualquer sonho e, acordado, sonhar racionalmente com desejos realizados está sendo tão difícil quanto perceber que perdi muito tempo me preparando para chegar até aqui e ver que de nada adianta estar preparado no lugar errado. E sim, gosto de Beatles.

- Você está no lugar errado, então?

- Talvez esteja, talvez seja só uma fase.... E TALVEZ O SENHOR POSSA ME AJUDAR.

- Gosto do seu bom humor.

- Odeio a sua ironia, o seu sarcasmo e suas frases curtas e sem qualquer pingo de direcionamento para a resolução dos meus problemas.

- Você é um banana, um covarde.

- O senhor é um idiota arrogante que acha que, por ter estudado durante anos, sabe tudo sobre todos, generalizando casos e esquecendo que eu SOU ÚNICO! E que ninguém vive as mesmas coisas que eu.

- Você está sendo arrogante ao achar que só você passa por situação semelhante.

- Mas a maneira com que eu reajo a tudo isso deve ser única.

- Claro, você tem medo do futuro e se prende ao passado para justificar o que está acontecendo.

- Eu não mencionei meu passado.

- Não? "Tudo o que eu pensava e achava certo' - isso não é passado?

- Mas...

- E tem mais:...

- Não tem mais nada, continue com a teoria do medo do futuro.

- Bom, não há muito o que dizer. Há uma grande insegurança em você por não ter nada encaminhado, nem no campo profissional e muito menos no afetivo. Você queria ter na faculdade uma certeza de trabalho para o resto da vida e ao seu lado um pessoa com quem, pelo sentimento e por aqueles ideais sinceros que mencionou ter, gostaria de constituir família. O problema é que nada disso está sob o seu controle e isso lhe deixa inseguro, pois não é apenas pela sua vontade que passam todas essas certezas.
- Isso é passageiro, então?

- Claro, a insegurança vem com...

- ... a maturidade.

- É, e não faz diferença se você tem uma mentalidade bem avançada para a sua idade, ninguém se importa com isso e talvez sequer você ache isso uma grande coisa quando percebe que essa segurança pelo crescimento não lhe garante segurança no futuro. Você se incomoda com algum defeito ou mania que tem?

- Sou ansioso, talvez isso explique a insegurança.

- Muito bom, você já pode ir embora.

- Meus problemas não acabaram só por tê-lo ouvido falar de um ponto de vista diferente do meu sobre alguns dos problemas que considero ter.

- Não, não acabaram.

- Então?

- Sua consulta acabou.

- Ah.


domingo, 29 de maio de 2011

Histórias do Billi J. - Em resposta, adeus passado


"Amigo Manfio.

Li seu último e-mail e fiquei positivamente surpreso. Você está conseguindo se expressar com maior clareza e mostrando muito mais o que está acontecendo na sua vida, assim é muito mais fácil entender e tentar ajudá-lo embora, por exemplo próprio, saber que nesses casos a ajuda alheia acaba muitas vezes restringindo-se ao simples fato de demonstrar preocupação.

Tivemos uma adolescência parecida e depois de ter concluído uma das minhas metas para esse ano, sei que posso lhe mostrar um bom exemplo. Como você, enfrentei pessoas que de várias formas atrapalharam a normalidade do desenvolvimento da minha personalidade e me impuseram dificuldades que aos poucos precisei superar para conseguir ter uma paz com meu passado. Sei que com você também acontece isso e me alegra saber que você está conseguindo deixar tantas mágoas e outros maus sentimentos, dentre eles a preocupação com o que não foi feito, para trás. Transcreverei uma carta que escrevi há duas semanas para sete daquelas pessoas que tanto tentaram, e fizeram, para que não houvesse tranquilidade na minha vida. Não acho que seja o seu caso mas é uma boa maneira de ser direto e, com nobreza e serenidade, expurgar da vida o que tanto nos incomoda ou, no meu caso, incomodava.

Escrevi para eles assim: 
"Saudações, antigos colegas. Não escreverei muitas palavras pois sei que o tempo de vocês é tão escasso quanto o meu para coisas que não lhes importam. Não sabem o quanto tive de lutar para superar as provocações, as humilhações e tantas outras atitudes ridículas que tiveram para comigo nos muitos anos em que dividimos a mesma sala. Lembro de cada uma e por muito tempo alimentei um sentimento de raiva para com todos vocês. Nunca fez diferença para vocês, mas para mim foi sempre um fardo pesado que tantas forças tirava de mim. Com o passar do tempo, trabalhei em cima disso e hoje posso dizer que sou livre de todas as mágoas e de toda a raiva que por tanto tempo guardei. Vocês não são mais nada e suas lembranças me preocupam tanto quanto um gato morto preocupa um rato. Demorou algum tempo mas consegui me desprender de todas aquelas lembranças de momentos, terríveis para um adolescente em formação, que passei próximo a vocês. Pela Renata, por meus pais e pelo bom Deus consegui ter forças para sobreviver e nunca chegar ao mesmo nível de vocês. Hoje, ao lado dela, deles e Dele, sou feliz e tenho liberdade para dizer que a parte da minha história que vocês escreveram, por um motivo que não compreendo bem, não tem relação alguma com o presente. Que suas vidas sejam boas e seus filhos não sigam seus exemplos. No mais, tenham saúde e felicidade. Sendo insignificantes ou não para vocês, são sinceras minhas palavras. De alguma forma, agradeço por terem me fortalecido tanto, apesar de tudo. Adeus, passado."

Talvez nem cheguem a ler, mas escrever e mandar para os endereços certos me fez bem. De verdade, muito bem. Acho que ao tocar nisso e não sentir-se mais preso, você consegue uma liberdade muito grande do que tanto lhe prejudica. E isso é tão bom meu amigo. Você está quase lá, pelo que percebo em suas palavras, isso me alegra. 

Quanto ao mais importante do que você escreveu-me, tenho que lhe dizer que você, como eu por algum tempo, e como a maioria das pessoas, errava ao generalizar um problema como o problema, uma dificuldade como a dificuldade. O pior disso é perceber, depois, que apenas atrapalhamos o andar natural das situações. Colocamos mais peso nos problemas e perdemos força para reconstruirmos nosso caminho. Não, não estou falando de otimismo e todas aquelas baboseiras afins. Estou falando de uma responsabilidade que, inconscientemente, carregamos por querermos sempre acertar, por buscarmos sempre a melhor das pessoas e por entender que não merecemos o ruim. Fica a pergunta, se não merecemos o que é problema e dificuldade, o que invariavelmente se tornará aprendizado, merecemos de verdade o que temos de bom em nossas vidas?

Sem tentar ser quem não se é e conseguindo entender que ninguém é perfeito, e você nunca o será, tem-se mais tranquilidade para ser pontual em possíveis mudanças e, com uma grande dose daquela loucura sincera, esperar pelo que há de vir. Só nunca deixe de lado aquilo que é verdadeiro em sua vida e muito menos aquelas pessoas que você sabe que são indispensáveis para você, mesmo que às vezes você se sinta um tanto esquecido. No fundo você sabe, e deve tirar essa ideia da mente e fazê-la superar o desânimo da solidão, que há pessoas que se importam e querem saber de você.

Parece que você me escreveu depois dos piores dias dessa fase, o que indica que ela já passou, isso é bom. Como também é bom ver que há algumas mudanças em andamento. Buscar a verdade, a justiça e a sinceridade no dia-a-dia deve ser uma luta incansável para nós. Sim, também estou tentando evoluir mais, deixar para trás hábitos que nada acrescentam na minha vida. Algumas pessoas não entendem essa vontade de melhorar, de crescer e de deixar para trás o que não é bom. Nunca chegaremos à perfeição mas felizmente, e sei que falo por você, nunca nos conformaremos com o que de errado há conosco.

Torço para que os condicionais alheios dos quais depende grande parte da sua felicidade venham cada vez mais para perto de você, dando-lhe a oportunidade de começar a escrever, de uma vez por todas, uma história tão espontânea, conturbada e, claro, engraçada, quanto a minha.
Grande abraço. Continue escrevendo." 
Ass. Billi J.

"...let the wind blow through your hair, be nice to the big blue sea..."

sábado, 28 de maio de 2011

Histórias do Bandiolo - Mais longe do que nós


- Incrível como eles conseguem fazer o ônibus andar sem que todos estejam sentados.

Sei que ouvir isso me pareceu uma reclamação um tanto mau humorada de alguém que reclama de tudo. Até porque, quanto antes o ônibus sai, antes ele chega ao destino e nem a minha confusão com mochila, pão, bolachas e o cartão do ônibus me tirariam a vontade de chegar no horário da aula.

- E ainda por cima vamos em pé, por que não colocam mais ônibus já que aumentam o valor das passagens?

- Não sei, acho que em todos os lugares é assim.

- Claro, todo mundo aceita numa boa e os grandes amassam os pequenos.

Fato inquestionável. Fui então para o fundo do ônibus e ela, com a entrada de mais pessoas, acabou parando, em pé, ao meu lado.

- Mas eu te garanto que isso vai mudar e que daqui a pouco iremos sempre sentados.

Gente idealista e sonhadora me faz rir. Talvez porque veja parte do meu ridículo nelas.

E isso não deixa de ser engraçado.

"...and I know how I feel..."

quinta-feira, 3 de março de 2011

Histórias do Billi J. - Eis que hoje quem escreve sou eu

"
Caro amigo!

Li seu último email e creio que, depois de tanto ser ajudado por seus conselhos e paciência, possa ajudá-lo relembrando algumas coisas passadas comigo. Entendo perfeitamente que você tenha a certeza de que tempo e espaço transcorridos não são nada além de tempo e espaço transcorridos. As pessoas que costumam acreditar que o tempo apaga ou faz esquecer uma pessoa ou um sentimento geralmente são pessoas facilmente iludidas por promessas de terceiros que não se cumprem. Passei pela mesma situação de tentar deixar aquele sentimento que fez de mim o mais espontâneo dos seres somente no passado, e fracassei. Bem ou mal hoje, tempos depois, fica óbvio que foi melhor assim. O grande problema é conseguir descobrir pequenos detalhes que garantam que o futuro não é um terror de dúvidas. Na verdade, estaria mentindo se dissesse que hoje consigo encontrar razões no passado que expliquem a minha completa falta de confiança no que poderia vir, ou voltar a ser, o que, de certa forma, me impediu de dar um rumo diferente à minha vida social, mais especificamente, de amor puro e simples.

Provavelmente o grande problema, e tenho certeza de que entenderá o que lhe digo, é ter de carregar um peso que não possui um nome claro e objetivo. Os pensamentos são carregados de lembranças, com arrependimentos e alegrias misturados como em um purê de batatas. Não há diferença entre um e outro em alguns dias. A felicidade vem e vai com a mesma frequencia que aqueles pensamentos que fazem com que nada no futuro possa vir a ser tão bom quanto o que foi. Digo-lhe então: é mentira. O futuro, começando pelo minuto seguinte a esse e seguindo anos e anos, dia pós dia, minuto pós minuto, transformando-se em presente e logo em passado, bem, o futuro será muito mais do que os seus dias ruins lhe indicam. Não há mundo contra ninguém e sei que você sabe disso, mas não custa relembrar isso para dizer que você não precisa ficar preocupado com uma possível distância, não apenas física. O que acontece nesse caso é o ressentimento por um desgaste natural quando se luta por aquilo que se quer.

Li dias atrás sobre a falta de ideologia dos jovens como nós. Um velho idiota que escreveu duas ou três linhas sensatas em um jornal de quinta categoria. Não precisamos de Marx e Maquiavel para termos uma ideologia e construírmos uma vida seguindo alguns padrões. Nossas mentes são capazes de criar por si mesmas, e com alguma ajuda Divina, uma ideologia que nos permite fazer o que é certo. Buscar aproximação daquela que, com a simples lembrança de um olhar, traz ansiedade e algum medo de decepção alheia é uma forma de fazer o que é certo. Quando um sentimento existe e nada é feito por ele, um erro é cometido mas o arrependimento por esse erro virá apenas com o crescimento o que, convenhamos, hoje em dia é difícil de ver em uma juventude que sequer sabe diferenciar o certo e o verdadeiro do errado e de todas as mentiras que o mundo coloca em belas formas, induções e aromas.

Não há fracasso que o seja por completo. Nem que aquela velha história de 'nunca mais farei' é de todo bobagem. Resquício de conformidade com o que não muda mais: o passado. Hoje você não pode fazer mais nada além do que já fez, pelo que entendi. É impossível mudar o pensamento alheio quando este é significativo. Motivos desaparecem, convicções são alteradas para uma melhor vivência e o único fator que acelera tudo isso é a constatação de que tudo que é verdadeiro é duradouro e, portanto, será assim até que por desistência, o que acho difícil no seu caso, ou vontade de buscar outro caminho seja um determinante. Também não há coisa no mundo que lhe faça deixar de sentir o que sente e de acreditar, com um resto de esperança bem guardado entre a lembrança de um olhar e o sonho de felicidade que encaminhe para um final, onde quer que esteja e quem quer que possa vir a ser a guardiã dessa plenitude que você, eu e todos os que entendem a felicidade como a junção de todas as realizações, sonhos e pessoas por quem prezamos.

Mesmo na inocência de nossas infâncias fazemos com que nossos corações batam em ritmos semelhantes ao de outras pessoas. Nossos pais, amigos, pessoas que admiramos por quem são e, nessa fase da nossa vida, alguém por quem esses corações podem até parar, são verdade, partes de felicidade. Portanto, são eternos no presente. Aquele que é, aquele que acabou de ser e aquele que logo será. Não há como impedi-los de fazerem parte disso. Algum dia poderá tentar impedir que voltem a ser presente por meio de lembranças mas, não será tarefa fácil. Tudo que nos aconteceu de ruim, vindo de outras pessoas, são partes do presente que já passou e portanto, não são mais parte do presente que é e acabará sendo. Por mais que as lembranças sejam ruins e ainda hoje lhe tragam sentimentos e sensações duras de viver com um sorriso no rosto eu lhe garanto, amigo, que um dia conseguiremos fazer com que a fortaleza que vem de Cima seja muito mais viva em nossas mentes do que a ideia que introduziram em nossos pensamentos, quando éramos novos e indefesos de ataques alheios, de que nada éramos além do que o pouco que eles diziam.

Quando conseguir livrar-se desse peso passado que ainda dificulta seus passos presentes você verá, assim como eu vi, que tudo o que tens para carregar hoje um dia será tão nada quanto o que já foi algo ruim e não é mais. Como entender isso naquela história do amor? É simples. Arrependimentos, lamentações e consequente desgaste, consigo e com a outra pessoa, passarão a ser apenas folhas secas que vão ao chão e tornam-se adubo para uma árvore que pode crescer, e muito. Esse sentimento que tempos atrás, como você disse, fora sufocado pela pura e simples vontade, afobada, da mudança, será luz para o caminho. Ou, na pior das hipóteses, para um novo caminho. Nesse caso, acredito, há mais coragem em acalmar, esperar e orar para que haja uma condução Sábia na história do que tentar fazer por conta própria a condução desse caminho ou a abertura de um novo.

Não seja bobo como muitos são, não dê tempo ao tempo. Como escrevi lá em cima, o tempo não é fator, é apenas tempo. Sei que não vai pressionar para que nada aconteça pois, se agisse dessa maneira, não seria você. Está certo em agir dessa maneira, a liberdade para sentir, pensar e, quem sabe, mudar é fundamental para vivência prazerosa. Tendo em vista que nada  do que você possa vir a fazer terá alguma consequência senão um desgaste, seja paciente e continue entendendo que ela carrega sentimentos tanto quanto você. Alguns diriam ser responsabilidade pois, como você me disse, você se preocupa com a felicidade dela muitas vezes mais do que se preocupa com a sua própria felicidade e satisfação. Pense que pode ser mútuo esse cuidado, esse zelo, esse 'te tornas responsável por aquilo que cativas'. Não que você deva ficar feliz com isso mas, convenhamos, seria mentira se disséssemos que não gostamos quando alguém se preocupa conosco.

Digo por experiência própria em momento não menos próprio. A Renata acabou de me ligar, vou buscar ela no curso. Ah, não contei que ela decidiu fazer curso de pintura. Você nem imagina como está a casa dela agora que toda parede pintada com uma única cor ela tenta transformar em arte. Bom, devo ter esquecido uma ou vinte e sete coisas que poderia e deveria lhe dizer. Também peço desculpas pela falta de objetividade. No mais, tenho que ir agora.

Ah, não pense duas vezes quando for escolher entre o que é racionalmente sensato e o que você sente. Eu fui chamado de idiota quase todos os dias dos anos em que esperei por aquela que sempre, com lembranças ou palavras, escritas como essas, fazia do meu dia uma verdadeira bênção Divina. O importante não é como vamos terminar essa nossa história e sim com que verdades, ou ideologias, iremos conduzi-la até chegar a esse fim. O amor é um sentimento estranho, quando ele não flui, parece que quase tudo perde o sentido. Há um pouco de verdade nisso entretanto, não é o fim do mundo, da vida. Ou da história. Novas páginas começam a ser escritas, geralmente, quando há liberdade para sentimentos, e nesse caso ideologias. Mais ou menos isso.

Abraço.
Bilionárico Johansson
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domingo, 23 de janeiro de 2011

Histórias do Bandiolo - Onde está a luz?


Havia algo errado. A luz era fraca, artificial. O Sol parecia morto e o céu era seu cemitério. O verde das árvores, a vivacidade dos animais, enfim, todas as formas de vida estavam agora vazias. O caos imaginado por doutores e cientistas parecia ter chegado. Estranho era ver que ninguém mais estava se importando, se é que do alto de seus egos arrogantes conseguiam perceber algo em torno de seu corpo cheio de enfeites, vazio de verdades. A sensação térmica era... estranha, nem calor nem frio. Não ventava porém as folhas das árvores e os papéis de bala das crianças no chão estavam sem movimentando sem auxílio externo. Quanta sujeira, quanta escuridão porcamente iluminada por luzes que aos poucos se apagavam. Como tudo ficou tão... sem graça, sem vida, sem sentido. Olhos humanos não conseguiam ver, mente não imaginava e coração não sentia... nada. Voltou para casa, fechou a porta. A campainha tocou, o telefone tocou. Não atendeu nem um nem outro. Ouviu gritos. Havia sim, vida. Que diferença fazia esse sinal de vida se não sentia calor, não conseguia imaginar nada à partir do que via, não havia nada especial naquele dia, que diferença fazia?

Voltou para o quarto e deitou-se. Daquele jeito, queria dormir pelo resto... de algum tempo, até que tudo voltasse ao normal. Talvez fosse apenas um pesadelo, ele estivesse ainda dormindo e a luz brilhava normalmente lá fora. Talvez fosse apenas um dia nublado. Talvez ainda fosse madrugada. Telefone, campainha, gritos, qualquer coisa. Quis dormir.

Fosse o que fosse, mesmo querendo, percebeu que há dias em que não há calor, luz, um sorriso ou um céu azul com nuvens brancas.  Dias em que tudo parece descolorir, perder a veracidade, a essência. Felizmente a luz volta a brilhar em algum momento, o céu volta a ser azul, as árvores ganham cor e os animais, humanos ou não, voltam à vivacidade.

No pesadelo, no sonho, no céu nublado ou na madrugada.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Histórias do Bandiolo - Agora, então


Os passos eram pesados como nunca haviam sido, fosse pelo peso sobre a cabeça ou sobre suas costas. Caminhava com dificuldade, com lentidão sofrível e digna de pena. Cabeça baixa, olhava para o chão pois não conseguiria levantar caso tropeçasse. Fraco, instável, desgastado, suas forças estavam direcionadas aos pesados fardos que carregava e aos lentos passos, necessários para que não morresse ali mesmo, com tudo aquilo sobre si. Não poderia deixar nada daquilo para trás por isso, mesmo que custasse o mínimo que lhe restava, continuava a carregar aquela enorme quantidade de... o que era mesmo? Ah sim, coisas do passado. Visíveis e invisíveis, pesadas como nenhuma outra fora no presente. Talvez pelos anos que haviam corrido desde o surgimento de cada uma delas, talvez pelas lágrimas que encharcaram-nas ou, quem sabe, por estar sozinho desde algum então. Seu pai lhe ensinou a nunca baixar a cabeça. Ninguém deveria se curvar ao mundo, ao tempo ou a qualquer outra pessoa, dizia. Baixar a cabeça era sinal de fraqueza, ainda mais para si. Seu pai era sábio porém não poderia fazer jus ao seu conselho. Seus olhos ardiam pois a luz do sol refletia no chão seco, carente de gotas de água. Seus pés e suas mãos tremiam. Fraco, incapaz, lembrava de seu pai e o remorso por não poder fazer o que lhe fora dito transformava aquela situação na pior já vivida. Pelo amor, pelos amigos, por erros ou qualquer outra coisa presente ali, naquele pesado passado. Não tinha mais forças, deixou que tudo aquilo caísse no chão. Assim como ele caiu, exausto e acabado. Cercado por tudo que com vontade e sem razão carregava, estava com a cara no chão. Percebeu que, embora estivesse no chão, não estava mais de cabeça baixa. Talvez seu pai, se ainda vivo, lhe desse uma surra ouvindo isso. Dormiu com um sorriso delirante nos lábios.

Horas, quem sabe dias, depois, levantou. Organizou o que estava ao seu redor e, para sua surpresa, muita coisa havia ficado de fora. Então seguiu, deixado uma parte de seu passado para trás. Dessa vez, sem remorso algum.


*do nada para palavras vindas de pensamentos distantes, 
sem muito significado.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Histórias do Bandiolo - Essa vida não me pertence


Saiu de casa, decidido a mudar tudo que não estava no lugar certo na sua vida. Caminhava muito, pensava mais ainda, olhava para nada. Sentou em um bar, decidiu que teria um bar em casa, mas sem bebidas para frescos, só cervejas, champanhes, refrigerantes baratos, pacotes de suco e muito gelo. É, um bar assim faria toda a diferença na sua vida. Também aquele armário sairia da cozinha. Inútil ter um armário sem gavetas na cozinha. Venderia e trocaria por uma mesa, de sinuca, de ping pong, tanto faz, queria uma mesa para na teoria virar praticante de um esporte de mesa. Era importante para a vida social, pensou, entre um gole e outro de água. Fazer o que, não é todo dia que se tem dinheiro na carteira para brindar à vida com goles alcoólicos.

Outra coisa seria demitir a empregada. Aquele asno de avental não sabia limpar, não sabia cozinhar, não sabia anotar um recado e sequer abrir a porta. Porta por porta, ficaria com a da sua casa sempre fechada, assim, como nas bocas, não entrariam moscas. Por que cargas d'água tinha uma empregada mesmo? Bom, tanto fazia. Junto com ela ia aquele jardineiro com quem tinha um caso. Ah sim, era por isso que ela não fazia nada e ele sequer cortava a grama. Verdade, agora sobraria para si a tarefa de cortar três metros quadrados de grama com um cortador elétrico.

As mudanças não parariam por aí, assim como os goles de água com gás. Burps de arrotos seguiam e ele continuava com o planejamento de sua vida. Terminaria aquela eterna dança da morte com a Mariana. Sim, porque aquele vai e vem, aquela aceitação da vontade dela de dar um tempo para, depois de uma festa, um porre bem tomado, uma ressaca do caramba e mais um na sua lista de pegados, precisava ter um fim. Ela dava um tempo e logo depois queria voltar porque ninguém mais se interessava nos seus assuntos de nerd, no seu sorriso branco, seus olhos negros que pareciam que... Pararia também com essa história de elogiá-la. Estava cansado de pensar nela e, sem ver, o tempo dado vinha e voltava, vinte ou cinquenta vezes em um ano.

Outra mudança essencial seria dar um chute na bunda do sogro. Que mala. Não ser mais seu sogro não era o bastante, aquele cara pediu empréstimo, não devolveu e ainda vem com aquele papo que começa com 'meu genro favorito'. Idiota, não percebia que só tinha uma filha? Bom, sujeito safado com era, talvez não fosse o único genro mesmo. Tanto faz, daria um chute naquela bunda gorda para receber às avessas seu pagamento.

Falando em dinheiro, chegaria no banco e diria ao gerente que não teria como pagar a dívida. Ele era seu fiador, que se lascasse então, capitalista arrogante, só pensava no seu dinheiro. Aquele gerente era um representante da boa e velha escola dos gordos donos de bancos que são vistos em filmes antigos. Goles se seguiam e o clima esquentava em sua cabeça. A raiva de tudo aquilo que estava errado em sua vida, em sua casa, em seus relacionamentos com as pessoas, a raiva da sua vida sem nexo começava a aumentar.

Pediu a conta, pagou com moedas de 5 e 10 centavos. O garçon reclamou, mandou-lhe ficar com os 15 centavos que sobrariam de gorjeta. Recebeu um 'seu pão duro' com o olhar daquele fedelho que não devia ter mais do que 16 anos. Sua vida mudaria, não aceitaria mais desaforos, não deixaria nada igual em sua casa e seu trabalho seria diferente. Não obedeceria mais às cagadas que seu chefe impunha. Faria algum relatório errado, ferraria com a empresa e na reunião do conselho colocaria a culpa no chefe que não revisava porque o filho bastardo passava a tarde inteira com dor de barriga.

Que inferno essa vida, mas tudo seria diferente. Culpa daquela água com gás horrível que o deixou com uma vontade insaciável de arrotar. Voltou para casa, abriu a porta e viu sua futura ex-para-sempre-namorada sentada no sofá, acompanhada pelo seu gordo pai, pela sua ridícula mãe e pelos seus pais. Sua mudança começaria ali, expulsando a todos de casa.

Entretanto, antes que pudesse falar, sua ex-para-sempre-namorada Mariana disse:

- Eu já contei a eles que vamos nos casar, môzinho.

Sua nova vida desceu pelo bueiro da rua. Todas as mudanças, incluindo o chute na bunda do gordo e o bar com champanhe e refrigerante barato, a falência da empresa, nada daquilo seria real porque ela, aquela maldita dançarina de tango que quase o matava com pisões irresponsáveis em seu pé quase fraturado, ela, o havia intimado ao casamento. Como dizer não àqueles olhos escuros?

Palavras não falou, apenas resmungou um burp.

Ah, aquela maldita água.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Histórias do Bandiolo - Um sapo não chega às estrelas


Passos dados são passos dados. Voltar atrás é físico, espacial, jamais temporal. Enquanto caminhava lembrava de todo o tempo que perdia por estar pura e simplesmente caminhando ali, naquele lugar. Ruas fétidas, sujas, sapos e rãs caminhavam por elas e por pouco não eram esmagados pela raiva dos passos que meus pés pisavam.

Eu não queria ter estado lá. Meus passos raivosos, meus pés inquietos, minha boca silenciosa e meu olhar, que ia muito além das placas sujas, das pessoas mesquinhas e das lojas com decorações de um gordo com um saco nas costas, provavam isso. Era raiva, era nervosismo por estar onde estava, sem fazer diferença o tempo, o dia ou o dado momento presente.

Malditos foram meus passos, maldita foi essa história que não quis escrever. Meus passos pisaram, isso é história, chega. Lembrarei pela última vez agora que olhei para o céu e dei nome a duas estrelas. Imaginei se algum dia um astronauta ou qualquer coisa criada pela humanidade chegaria lá. Duas, nenhuma, todas, tanto faz. Estrelas distantes, como eu daquele lugar sujo, daqueles sapos que eram tão estúpidos que nem barulho faziam. As folhas secas quebravam em silêncio, a música não tocava, apenas ruídos foram ouvidos por mim, ao longe. Ouvidos que não ouviam e olhos que não viam nada que pudesse fazer essa raiva cessar.

Longe, sempre longe. Longe, demais, de tudo, em um parafraseamento de Frejat e seu Barão Vermelho, semelhante ao da Corrida maluca. Idiota, longe da ideia de um texto que não deveria existir, assim como a história escrita pelos meus passos curtos, pesados, cheios de raiva. Raiva por não querer estar, por não conseguir distinguir qual estrela, qual pensamento, qual era o motivo, para qual seriam cada um dos motivos. Indefinido, com raiva.

Da distância.

Como sempre, estava longe, dessa vez ainda mais, de onde queria estar.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Histórias do Bandiolo - Costas para a porta, para a dúvida, para o entendimento


Fechou a porta, não voltaria mais ali. Virou as costas e, com princípio de lágrimas nos olhos, caminhava tentando não pensar no que havia acontecido. Não poderiam ter sido tão ruins as suas palavras. Porém, sentia-se mal. Pela situação, por si, por ela. Uma mistura de arrependimento com vontade de desaparecer. Não era a primeira vez que acontecia. Rezaria para que fosse a última, mas que conseguisse enfim, deixar de lado seus problemas pessoais passados, libertando-se das amarras que acabavam, inevitavelmente, prejudicando-o e interferindo negativamente em suas relações. Explicações que, contudo, não justificam. Há algo que vai além disso. Talvez a vontade de parecer menos... alguma coisa. Chegou à calçada. Aquele longo caminho seria mais longo ainda enquanto estivesse pensando. Não havia música, barulho de carro ou qualquer evento naquela noite que tirasse sua atenção de seus pensamentos. Dos pensamentos que estavam em um lugar bem definido: atrás da porta da casa de onde acabara de sair. Chutar pedras como autoflagelação não adiantava. Ele sentia e não sabia explicar. Não sorria e nem chorava. Atônito, querendo se entender.  Raiva de toda a situação, da porta mais uma vez fechada. Entendimento das suas palavras nesses e em tantos momentos menos importantes. Talvez fosse isso, talvez desse importância demais para poucas palavras, para consequências ruins dessas palavras. Entretanto, como não dar importância? Sentir-se sem saber como definir, por tempo quase incontável. Horas que eram segundos, todos anos que não passavam de dias. Tudo isso era motivo suficiente para entender por que dava tanta importância a pequenas palavras, a pequenos momentos, a todos aqueles pequenos segundos que, agora sim, passavam a ser horas. Ansiedade com frio. E aquela nuvem de dúvida sobre... Já nem sabia mais do que duvidava.


*sem saber da dúvida, 
da explicação, 
da justificativa, 
da razão. 
Sem saber.
**Claro, eu não gostei.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Histórias do Billi J. - Era apenas... alguma coisa


Algumas das lembranças do Billi J. eram tão incompreensíveis quanto a própria vida do Billi J.. São tantas lembranças que fica complicado escolher uma e transcrever aqui. Bom, como em muitas das lembranças de histórias significativas contadas pelo Billi J. para mim, havia nessa uma mulher. Mentira, ainda era uma menina, no salto alto dos seus 17 anos. Nem velha demais, nem nova demais. Da mesma idade do Billi J.. E foi a única que conseguiu, por um pequeno espaço de tempo, fazer com que o Billi J. esquecesse a Renata. Ah, a Renata... como ela era linda, e como seus cabelos balançavam quando ela caminhava...

A menina em questão era Verônica. Contrariando a lógica, em vez de Vec, como o Veranópolis Esporte Clube, seu nome para os íntimos era Vic, como as pastilhas para a garganta e as pomadas. Vic era tão bonita que ninguém a chamava de bonita, ou de linda. Ela era deslumbrante. Desfilava em passos certeiros, chamando a atenção e fazendo tremer qualquer par de olhos que a colocava em seu campo de visão. Usava uma rasteirinha e, contrariando o que muitos dizem, tinha um jeito de andar que prendia a atenção. Não parecia modelo, não parecia uma qualquer. Era apenas Verônica. Vic. Chamá-la assim era perigoso, seu misterioso sorriso sempre surgia quando chamavam-na pelo carinhoso nome. Sim, Vic era nome carinhoso e jamais apelido, pois ela não merecia um... apelido.

Atormentava aquele sorriso misterioso. Se o sujeito tivesse o privilégio de receber um sorriso particular para si sem antes conhecê-la, ele tremeria. Todos tremeriam. Todos tremiam. O Billi J. tremeu quando, poucos segundos após vê-la, teve em sua direção aquele sorriso. Mais bonito que os de propagandas publicitárias, mesmo não sendo tão branco quanto neve nova. Tremedeira inexplicável, pois não havia medo, não havia sequer razão alguma. Ele apenas olhou, recebeu aquele sorriso e... tremeu, sentindo um frio na espinha, na barriga, em qualquer lugar interno que pudesse estar momentaneamente congelado.

Ela, exuberante, cativante. Ela sorria sempre que via o Billi J.. E quando sorria para o Billi J., sorria apenas para o Billi J.. Os matumbos dos colegas do Billi J., asnos em razão e arrogância, não entendiam como podia aquela... maravilha de jovem, aquele ser deslumbrante e incomparável dar o mínimo de atenção para aquele... como era mesmo o nome daquele cdf de óculos? Bom, eles sequer sabiam o nome do Billi, mesmo sendo seus colegas desde... o jardim da infância. Quanto ao Billi, no começo apenas estranhou aquelas sensações estranhas. Porém compreendia que a cada dia a Renata não parecia ser mais a pessoa perfeita. Porque, sendo bem racional, a Vic era mais decidida, não ficava com um pé atrás para largar tudo o que estava fazendo e ir apenas dar-lhe um oi... Vic, aquela intimidade toda não era normal.

Vic não era normal.

A Renata percebeu que o Billi J. estava ficando todo bobão e como quase todo mundo nessa história, ficou sem entender por que sentia tanto... ciúme(?!) quando via Verônica com Billi. Renata não sabia o que sentia, quando via, quem via. Acabava afastando-se todas as vezes em que Verônica se aproximava de Billi J., com isso, o Billi sentia-se cada vez mais distante dela, cada vez mais próximo da doce e incrível Vic. E como seu caminhar era hipnotizante, como ela ficava mais bela quando usava uma flor no cabelo, como...

Bom, e quanto a Verônica, o que sentia, como chegara até ali, por qual motivo havia trocado de colégio naquele momento final do ensino médio? Ninguém sabia, principalmente porque ninguém queria perguntar alguma coisa a ela quando estava na sua frente. Como por encanto, tinha todos os meninos do colégio, todos aqueles marmanjos de 16, 17, 20 anos em suas suaves e pequenas mãos. Todos queriam segurar aquelas mãos que, só por serem as mãos de Vic eram encantadoras.

Ela sorria, para uns e outros, para o Billi em especial.

Dia qualquer, vendo Renata se afastar quando acabara de chegar, foi atrás dela. Conversaram 10, 20, 57 minutos e 12 segundos, cronometrados mentalmente pelo Billi J.. Voltaram abraçadas, rindo, sorrindo como se fossem velhas amigas. Billi não entendeu. Mais uma vez. Como todos que há haviam percebido a repulsa de Renata por Ver...digo, Vic. Chegando perto de Billi, separaram-se. Renata foi para algum lado e Vic foi falar com Billi.

Conversaram, mas dessa vez o Billi J. não conseguiu se concentrar no tempo, apenas naquele sorriso, naqueles olhos, naquela... namorada do filho do prefeito?! Billi J. não tremia mais, não sentia mais frio. Pelo menos não pelo sentimento de outrora. Namorada do filho do prefeito? Primeiro perguntou a Vic... agora Verônica, porque estava contando a ele aquilo. Não conseguiu disfarçar o... ciúmes?. Não, não conseguiu disfarçar. Verônica riu. Disse que... bom, ela disse isso:

- Billi, você é um menino muito legal, muito querido, mas você não pode se apaixonar por mim. Primeiro porque eu tenho um namorado, rico, que tem um carro. Segundo... bom, você é muito querido mas...

Não deixou-a terminar. Ser chamado de legal e querido no começo de uma frase sempre indica que você é um idiota e não serve para a outra pessoa em questão. Billi J. estava certo, ser chamado de querido era o fim. Porém não chegava ser chamado de legal e de querido para aliviar o peso do... bom, Billi J. pode não ter dito nada, mas como todos os outros, sentia uma forte atração por Verônica. Não podia negar isso, nem quando lembrava que...

...Renata. Céus, como pode...

E saiu correndo, atrás da sua amada. Daquela que sempre saía de perto quando Verônica se aproximava dele. Por que será que a Renata...

Renata!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Histórias do Billi J. - A carta de uma mísera lembrança


"Vini, sem muita enrolação no começo, vou direto ao motivo que me levou a escrever-te mais essa carta, que será curta, prometo.

Certa feita em dia passado, estava eu em conversas com a Renata e me lembrei, após uma frase dela, de uma antiga conhecida. É, por aí mesmo, você sabe como era. Essas coisas de sentimento de fato nunca aconteceram, o amor que sempre senti pela Renata era maior. Mas você já sabe disso, também. A questão é que, lembrar de uma conversa passada nunca me havia feito tão mal. Tentarei explicar. 

Eu estava há cerca de 1 ano longe da Renata. Sabe quando a desilusão faz com que a saudade e a dor fiquem em segundo plano? É, sabe. Eu estava assim: desiludido. E como. Conversas com pessoas diferentes ajudavam a amenizar essa desilusão. Aquela menina era diferente. Ela demonstrava muita paciência com meu marasmo incansável, com minhas dores explícitas mas encobertas. Como que sem muito sentido ela, que sequer me encantava, foi me fazendo deixar de lado todos esses fatos que me deixavam, e por muito tempo estava e acabaria sendo assim, deprimido, para baixo, desanimado em um todo. Ela não tinha nada em especial, apenas me fazia companhia. A sensação que sentia quando conversava com ela era de que eu era único. Não por ser quem eu era, apenas por estar ali, conversando com ela. Não conversávamos nada muito profundo, não contei mais do que qualquer amigo rotineiro meu soubesse. Ela não dava nada a entender, não havia indireta, nada oculto. Eram conversas claras, sem frescura. Apenas conversas. Ela e eu, me sentindo especial mesmo. Aí você se pergunta, Vini, o que remeteu a um sentimento ruim pela lembrança dela, de uma conversa sua. Assim, é complicado explicar o que causou isso porém aconteceu tão repentinamente quanto começaram as nossas conversas. Em algum momento, sem nada pontual claro, ela fez uma comparação. Entre eu e outro alguém. Não pela situação, pelo dia ou pelo assunto. Ela comparou por comparar, como se quisesse medir quem era mais... bom, não lembro mais o adjetivo. É uma coisa mínima, sim, mas foi se repetindo e aquela sensação de que eu era único por ela desapareceu tão rapidamente quanto surgiu. Talvez seja bobagem sim, mas eu não gostei, mesmo. Sinto-me mal por lembrar da decepção que foi quando percebi que eu não estava mais na condição de especial. Fosse quem fosse a me alegrar e depois me decepcionar, ficaria mal ao lembrar. É bobagem minha, lembranças bobas de uma época um tanto difícil, mais ainda vulnerável. Qualquer micro-decepção era uma bomba gigantesca. Tanta coisa me foi tirada e tudo parecia ruim. Você sabe, me conheceu e já naquela época me ajudou. Hoje é diferente, sou feliz por tudo que comigo está, pela Renata estar comigo, por estar perto de casa. Bom, você sabe que não é fácil apagar traumas, por mais que sejam ínfimos perto ao que se pode, e acaba-se, vivendo. Bom, era apenas (mais) uma lembrança que gostaria de compartilhar com o amigo. Mais uma bobagem, sinto por ter tomado seu tempo. Acredito ter escrito muito sem dizer nada de mais. Espero que as coisas aí estejam andando. Há um tum tum tum louco por aí atualmente ou só lembranças?

Abraço, amigo.

Billi .Johansson, 21/11/10"

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Histórias de uma vida não vivida (28)


*Passos que mudam de direção sem motivo certo. Dobrar à esquerda na rua seguinte apenas por achar que lá estará alguém, aquele alguém lá, é tão tolo quanto... dobrar à direita na rua seguinte, por achar mais uma vez que alguém, que aquele alguém, estará passando por lá naquele momento. Em um mundo gigante, cheio de ruas, esquerdas e direitas, só o que é forte demais para não ser controlado deve tirar do caminho, certo, rotineiro ou mesmo melhor. Mesmo que o melhor esteja na outra rua, do outro lado da calçada. Ainda que o melhor esteja apenas em um sonho.

Certas coisas acontecem porque precisam acontecer, pensou. Afinal, não queria sair de casa. Seus pais insistiram tanto para que ela fosse junto com eles... no supermercado(!) que ela largou seu msn por alguns minutos e decidiu dar aos seus pais a oportunidade da sua companhia. Supermercado era lugar de gente apressada, mesquinha ou esbanjadora. Gente que faz de conta que não tem tempo e reclama da fila grande, formada por ela e outras pessoas igualmente apressadas, mesquinhas ou esbanjadoras. Gente que critica os preços, a qualidade e até a atendente. Ah, aquela gente estressava-a. Ainda assim, foi. No caminho, ao parar do carro frente uma sinaleira, semáforo ou qualquer que seja o termo para aquela caixa de metal que acende uma luz verde, amarela ou vermelha, ela olhou para o lado e viu alguém. Ele! Ela pulou do banco, não sem antes sorrir e arrumar o cabelo no espelho da frente. Era ele! Depois de tanto tempo sem vê-lo, sem poder ouvi-lo, sem... ter coragem de responder às mensagens, os recados, os toques no celular... era uma boba, idiota, pensou. Mas como aquilo, a ida ao supermercado, a parada e a passada dele pela calçada não eram mero acaso, faria algo.

O sinal ficou verde, seu pai acelerou o que pode e seguiu em frente rumo ao supermercado. Ela gritou, estridentemente. Queria que o pai parasse o carro, fizesse a volta e fosse ao encontro dele. Ele! O pai parou, de susto, mas disse que não iria fazer retorno algum. Ela não se importou, abriu a porta, desceu do carro e foi correndo atrás dele. 40, 50 metros e ele estava a centímetros. Caminhou lentamente, alcançou-o e cutucou suas costas. Antes mesmo que ele virasse por completo para trás, ela o abraçou com todo o carinho que guardava, escondia, dele, do mundo, de si própria. Que tola fora todo aquele tempo. O apertou forte. Quando o soltou, olhou para o seu rosto e... ah não, não era ele. Não era ele!

Sentiu-se a maior idiota do mundo. Passou a odiá-lo. Sim, passou a odiar ele! Tudo porque ela errou o ele, o abraço, e o sair de casa para ir ao supermercado com os pais. Tudo por culpa dele. Dele!

Grosso, monstro, idiota!

*um tantão de suposição, um tanto de exagero, um tantinho de verdade.

domingo, 26 de setembro de 2010

A vida do Jaimão(parte 5)


T-E-L-E-F-O-N-E, era isso. Mas antes deveria atender, seria algum vizinho que ouviu barulhos estranhos? Para aumentar ainda mais a raiva do Jaimão, era uma atendente de telemarketing tentando vender-lhe um conjunto de pentes para homens peludos, tipo Tony Ramos. Isso lá pelas 3 da madrugada. Xingou a pessoa, seja homem ou mulher e voltou ao seu plano, bem, à sua tentativa de ter um plano para assassinar aquela que ficaria sendo sua falecida esposa. Maldita, até mandaria um bando de pivetes urinarem na sua sepultura. Voltando, ele pensou que asfixiaria ela com o fio do telefone. Sim, com o fio do telefone. Um sorriso brotou de seus lábios. Ainda pulando, subiu mais uma vez as escadas da casa e, com boca, pé e braços ensanguentados ele foi até o quarto, não sem antes dar mais umas bordoadas nos afeminados filhos daquela... mulher. Chegando no quarto, mais uma decepção. O telefone era sem fio. Como era difícil essa vida de assassino...

Entretanto, sua raiva era maior, fazia-o engolir a dor, a sujeira da pedra e de tantos outros insetos que rondavam sua boca que mais parecia uma sopa de sangue de pato. Como nenhuma ideia surgia em sua mente, sentou-se na cama e tentou descansar. Acabou dormindo, cansado de tanto fracassar, com tantas dores que fica difícil imaginar.
Ao acordar, notou que havia dormido em cima da sua... esposa(?), que estava fria e imóvel. Tentou acordá-la, em vão. Havia matado-a sem intenção, ou pelo menos sem intenção no seu sono, no seu dormir, no seu descansar. Seu pé, furado, doía. Suas mãos doíam. Sua boca era uma poça seca de sangue. Seus dentes da frente estavam grudados naquela pedra. Mas pelo menos aquela vagab mulher, já estava morta. Como esconder o corpo dela sem que os pivetes soubessem? Tapou aquele corpo fedorento, e agora morto, com um lençol... transparente. Caramba, não havia outro na casa.

Seguiu seus passos em direção ao hospital. Passou alguns dias lá. Pensando no que fazer da vida, agora que era viúvo. Bom, não totalmente, já que ninguém sentiria falta daquela... coisa. Talvez aqueles caminhoneiros fedorentos. Tudo muito rápido, semanas depois voltou para casa, ainda com o pé machucado, com os dentes postiços e outros remendos em seu corpo sem nenhum ão de qualidade. Seus filhos sorriam ao vê-lo. Aqueles viados de uma figa. Eles o abraçaram e ele respondeu com uma bofetada na raiz do ouvido de cada um. Eles choraram e lhe entregaram o dinheiro.

Que dinheiro? Onde esses imbecis arrumaram tanto dinheiro. Devia haver uns 30 mil naquele maço todo. Mandaram-lhe ir até o quarto para ver de onde vinha o dinheiro. Com dificuldade, subiu as escadas, abriu a porta e, que nojo! Até ele ficou apavorado quando viu uma bola humana de pêlos em cima do corpo da sua ex-mulher, aquela v... . Ela, morta e eles em cima, fazendo coisas indevidas. Necrófilos! Que nojo. Não conseguia pensar em outra coisa. Ele era um gordo, obeso, fedorento, fumante. E estava ali, em cima daquele corpo morto. Que nojo.

Não sabia o que pensar. Então fechou a porta, desceu as escadas, sentou no sofá e começou a contar o dinheiro. Aqueles dias não haviam sido fáceis, mas o final valeu toda a dor.

Apesar de ter consciência de que ainda era um corno, uma vez que sua... mulher, ainda mantinha relações com outros homens, mesmo estando morta.

*o final de uma história é quase sempre ruim. 
Essa não conseguiu fugir à regra. 
Porém era preciso terminar essa história,
infeliz, de vida, de alguém que não existe.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Histórias de uma vida não vivida (23)


*Não são apenas casais que se complementam. Amigos, pai e filho, colegas de aula. Qualquer complemento verbal de um para o outro é possível quando há uma relação amigável, pessoal e voluntariosa. Com eles era assim. Essa amizade era uma grande loucura. Cada um com um gosto, uma área de atuação e interesse. Cada um muito diferente do outro. E ainda assim, completam-se nessa amizade que rompe as barreiras da distância, das diferenças, do passado e do futuro. Em um estranho e antigo sonho a homenagem atrasada e humorada, bem ou mal, àqueles que fazem parte também de histórias jamais vividas. Insisto ao dizer que a realidade, a ficção e a pura imaginação se confundem nessas linhas tortas.

O nome dele era C... C.H., só isso o que posso dizer. Ele era um cara legal, embora muitas pessoas não soubessem disso pois ele não gostava de ser legal para com todos. Tanto que no velório do amigo de um idiota, que não era seu amigo também, ele jantou e comeu carne de porco sem qualquer receio. E por que deveria ter receio de comer carne de porco? Ninguém deve saber, mas ele achou que tinha feito uma grande coisa, uma grande ofensa e, no dia seguinte, foi falar com um grande homem: o instrutor de judô, um cara de dois metros de altura e 134,66 kg. Não mudou nada, os dois mais riram do que conversaram.

Voltando ao C.H., que não conhece o Billi J. para os que tentaram associar, ele era daqueles que cortava linguicinha com foice. Ainda no espeto. Sério, ele era muito louco. O que não vem ao caso hoje. Sua vida não era algo digno de filme e sequer de coluna no jornal ou texto em blog. Mas ele era um cara legal. Impulsivo, cortava o churrasco no espeto, contava piadas dentro durante um jogo de futebol e mandava que todos parassem de caminhar na rua só para tirar um cisco do olhos.

Pois é, esse mesmo. Ele era um trabalhador injustiçado. Sua família não era das mais ricas e ele não ganhava o suficiente para comprar uma Lamborghini, o sonho de consumo de qualquer homem que gostaria de ter um carro para fazer todos os outros babar. Isso por causa da teoria do macho dominante, o que não vem ao caso. Essa Lamborghini não era seu objetivo principal. Ele só não queria que os vagabundos da cidade, bem dotados financeiramente, tivessem uma. Ou algum carro do tipo.

Porque era injusto que ele trabalhasse tanto e não conseguisse comprar seu sonho de consumo e aqueles vagabundos, traficantes de drogas em sua maioria, conseguissem sem fazer esforço. Ele desdenhava e dizia 'eles são traficantes e nem pagaram todas as prestações, de que adianta ter um carro assim?' e nós que o ouvíamos, ríamos como se fosse uma grande bobagem, uma grande piada. Mas não era.

É incrível como aquela coisa de sorte não existe. Existe competência. E ele teve de sobra para conseguir um cliente europeu. Ninguém soube como. E como clientes europeus pagam em euro, ele conseguiu ali dinheiro suficiente para um carro novo. Nada de Lamborghini, na revenda automotiva ele comprou um conversível, com capota de lona, porque afinal de contas, ele queria que o vento balançasse seus cabelos estilo John Lennon no começo dos Beatles.

Ah, que sonho era aquele conversível. Certa noite nos reunimos para jantar. Ele foi com seu conversível e não parou de falar das vantagens. O fato de aquele carro beber gasolina mais do que o próprio C.H. bebia qualquer líquido não importava. E olha que C.H. bebia qualquer líquido que não fosse veneno. Sim, ele era maluco, não burro. Janta foi, comida aqui, risos e truco acolá e ele decidiu ir embora. Aí começou a história, longos e vários parágrafos depois.

Ele sentou, como estava frio, apertou o botão e a capota subiu. Porém, notou um pequeno buraco nela. Se chovesse, molharia dentro do carro, mesmo que alguns raros pingos. Eu voltei até a casa para pegar uma fita, para tapar o buraco provisoriamente. Enquanto isso ele achou que poderia tapar com o dedo, e o que era um buraco mínimo ficou do tamanho de um dedo. Não contente, ficou balançando seu dedo dentro do buraco, aumentando-o. E depois foram dois dedos e o mesmo procedimento. Três, quatro e cinco, até que ele começou a sua mão no buraco e começou a aumentá-lo sem qualquer motivo.

Ele ria, nós ríamos junto, perplexos com a cena. Joguei a fita e acertei no buraco. Isso prova o quão grande estava aquele buraco. E o C.H. não parava de mexer naquele buraco, agora com as duas mãos, compulsivamente. Estava estragando a capota do carro conversível mas estava rindo, levando-nos a risos incontroláveis. O Miguel batia a cabeça no poste de tanto rir. Ricardo chorava e segurava a barriga de tanta dor. Eu olhava aquilo e não conseguia acreditar, ria como nunca havia rido na vida. E ele, C.H. também ria. De felicidade. Aquilo era loucura.

Quando ele parou, após ter destroçado a capota, alargando o buraco e rasgando-a quase na sua totalidade, ele encostou as costas e disse:

- Vocês acham que eu faria isso se esse conversível fosse mesmo meu?

- Sim. - responderam todos aos risos.

Ele ficou sem jeito. Sabia que faria aquilo mesmo que fosse seu carro e que uma capota nova custasse uns cinquenta mil reais. Porém, disse:

- Tá, mas esse carro não é meu. Eu peguei ele emprestado daquele europeu para quem eu fiz o serviço. Ele não tinha dinheiro para pagar então me emprestou o carro por uma semana.

- E você não vai ter de pagar o prejuízo? - disse-lhe eu.

- Coloca na conta do Abreu! - gritou um Ricardo ainda cansado de rir.

- Aaaaaaaaaaahahahahahahahaha - voltou a rir incontrolavelmente o Miguel, seguido pelo não citado irmão de C.H. o C.J. e pelo carequinha Vanderlei.

- Capaz teu - voltou a falar o C.H. - eu não vou pagar nada porque vou dizer que foi aquele pela saco lá.

- Qual deles? - voltei a perguntar.

Todos riram. Essa amizade nossa era, e é, muito estranha. No fim, ele não pagou nada mesmo, o europeu se separou e deu o carro para a agora ex-mulher. Ela que ficou com o problema da capota rasgada à partir do dedinho do C.H. .