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sábado, 15 de agosto de 2015

Cartas do Billi J.

"Caro amigo Vinícius!

Há muito não escrevo-lhe pois há semelhante muito não consigo transcrever minhas notas mentais em palavras passíveis de leitura. A vida, como um todo, tem sido boa porém, é bem verdade, não há tranquilidade suficiente, sequer uma mínima intensidade para dizer que estou bem. Não estou mal, deprimido ou decepcionado, não, não é nada disto. Tampouco beiro a novidade, os sonhos e a alegria. Vivo um marasmo difícil de lidar e sei que você sabe bem do que estou falando.

É difícil, para quem não conhece a situação como um todo, entender o que se passa comigo e que, como bem sei, já se passou - será que ainda passa? - com você. As pessoas, meu amigo, não sabem mesmo o que é construir uma base, definir um caminho e beijar as portas do inferno que surge quando as metas decorrentes das escolhas não são alcançadas - quaisquer que tenham sido os motivos. Não é uma má fase, uma decepção ou uma frustração que pode ser comparada com um inferno - Deus nos livre daquela bobagem de inferno astral que nossos contemporâneos insistem em cuspir em nossos já fadados ouvidos.

Você sabe bem do que estou falando, mais uma vez. As pessoas, num todo, não entendem o que é, em si, o fundo do poço, a porta do inferno, o túnel sem luz ou o beco escuro, fétido e sem saída. As pessoas não entendem porque, para elas, qualquer situação que transcorre de forma diferente do que elas querem, ou por alguma expectativa criada, geralmente superficial, acaba sendo uma grande razão para julgarem suas vidas como alvo de conspiração cósmica - ai ai ai -, azar ou algo que provoque nelas lamentações ou decepções de qualquer espécie.

Quem almeja o raso acaba se decepcionando, e sofrendo, pelo que é raso e superficial, ainda que a dor sentida não o seja porém, é bom ressaltar, é injusto comparar a dor de quem vai muito além daquilo que é vago e passageiro com a dor daqueles que buscam a Plenitude e o Sublime. Seria injusto dizer que todos sofrem na mesma intensidade. Não é verdade. Quem recebe 100 reais e perde um sofre menos do que quem recebe mil e perde 100, mesmo que o segundo receba muito mais e, no fim, tenha muito mais. É injusto comparar as perdas neste exemplo superficial do mesmo modo que não pode ser aceitável comparar as dores de quem fica vivendo levianamente com as de quem realmente batalha por algum fruto da Verdade.

As pessoas, meu amigo, realmente não sabem como é se preparar uma vida inteira para chegar a um momento de intensa Alegria e não conseguir chegar até ele por diversos fatores. Não, não faltou luta, esforço ou sacrifício. Não falta nada disso, ainda. As quedas durante o caminho foram superadas embora nem todas possam ser relevadas como uma simples perda.

Quem se prepara para o Céu não pode ficar satisfeito por ter raspado, ainda que no passado, nas portas do Inferno. Não é fácil lidar com esta certeza, que sempre fará parte do passado (e algumas vezes insiste em tentar se fazer viva no presente, novamente), e que insiste em tirar a tranquilidade todas as vezes em que volta à mente - ainda que seja feita uma guerra para evitar que isto aconteça.

Não, Vinícius, as pessoas realmente não entendem que guerra é essa. Que vida é esta que queremos. Que sonhos insanos temos buscado. Não entendem que as nossas dores foram consequências de nossas falhas e limitações e não de um aproveitamento vago, e inútil de vida - como elas quase sempre fazem. Não são experiências dignas de felicidade ou calmaria. São destroços nossos que poderíamos ter evitado se tivéssemos conseguido ir além de nossas forças, com Alguma ajuda e uma humildade que nos faltou para reconhecer que éramos incapazes - e ainda o somos.

As pessoas não entendem que Sonhos, de verdade, exigem sacrifícios e não fazê-los comprova a falta de desejo, real e puro, por eles. Poucos conseguem entender todas as vezes senti um aperto gigante no meu coração, uma angústia absurda e uma vontade quase incontrolável de explodir para não sentir mais dor. Não conseguem entender porque não faz sentido o sofrimento por erros que para elas são rotina, aceitável e prazerosa rotina. É tudo normal, tudo cabível, tudo tranquilo para estas pessoas que não entendem que para ir além é preciso buscar um auto conhecimento próximo do total, uma humildade crua e uma sinceridade radical nos sonhos, no querer e na busca pelo que é Verdade.

Até mesmo meus anos de sofrimento pela ausência da Renata, Vini, e pelos anos de namoro com ela, volta e meia me trazem imagens de atitudes e escolhas que tenho vergonha de lembrar. Amei-a intensamente todos os dias em que estivemos juntos, todos os dias dos anos em que ela esteve na Inglaterra e durante alguns meses depois que terminamos também porém, hoje, anos depois, não posso dizer - como fazia tempos atrás - que ela é o grande amor que tive. Não construiremos uma história definitiva juntos e, então, não faz sentido continuar exaltando-a no lugar de alguém, que virá e completará o que há tempos percebo faltar.

Queria poder dizer que soube esperar até aqui. Que soube me proteger. Defender meus sonhos e os Sonhos que regem minha própria história mas falhei, meu amigo. E como falhei. Tantas e tantas vezes esqueci que momentos passam e sentimentos ficam. Minha tristeza era profunda toda vez que não conseguia evitar os erros que destruíram minhas chances de provar que o meu desejo estava muito longe daquilo que meus olhos conseguiam ver. Falhei miseravelmente todas as vezes em que decidi seguir os instintos meramente humanos.

As pessoas não entendem isso, meu amigo. Não entendem por qual motivo fiquei tão mal, e por tanto tempo, quando percebi o tamanho do mal que deixei crescer em mim. Habitar em mim. Sorrir em mim. Sorrisos estes que nunca mais quero ver.

Sei que você me entende. Que sabe do que estou falando. E que compreenderá por que é, para mim, tão difícil fazer de conta que o que passou foi pura, e simplesmente, vivência de uma vida normal. Não foi. Não é. Nunca será. Uma pena que apenas agora, depois de tanto tempo, eu consiga ter a firmeza suficiente para afirmar isso e a humildade para reconhecer que nunca conseguirei chegar, até onde os Sonhos querem me levar, sem um auxílio.

P.S. O olhar, o sorriso, o abraço e o simples fato de me fazer querer companhia para a Eternidade. Que incrível é isto mesmo que, ao menos por enquanto, seja apenas esporádico e não recíproco.

Quero, de verdade, de ter o direito de ouvir aquela voz, ser alvo daquele carinho e ter a obrigação de ser a melhor pessoa do mundo para ela.

Não sei se poderei viver isto mas... estou tentando ser o máximo possível paciente, de uma forma que nunca fui - o que, também, me levou a sempre cometer erros infantis.

Abraço, amigo.
B. Johan"

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Histórias do Billi J. - O passado que ressurge e joga tudo para o ar



"Amigo, saudações!

Escrevo-lhe agora por não ter com quem compartilhar esse sentimento. Ao menos não alguém que entenda, compreenda e não me dê qualquer conselho banal e trivial, sendo, então, apenas um monte de palavras inúteis. Estou um tanto incomodado. Mentira. Estou muito incomodado com o que aconteceu porque, até onde julgava saber, nada disso existia, ainda. Pelo menos dessa forma.

O itálico é proposital porque é uma coisa difícil de comentar, impossível de descrever e incrivelmente complexa para ser explicada. Na real, não sei o que dizer porque não consegui entender sequer uma vírgula de todos esses acontecimentos.

Para começar, é bom dizer que isso tudo é interno. Que não há nada explicitamente demonstrado e que nem mesmo o meu espanto, com a origem e o final disso foram transparecidos, para quem quer que estivesse comigo naqueles instantes ou em todos os momentos posteriores nos quais aquilo voltou à minha mente. Não sei o que fazer, amigo, acho que você pode me ajudar, como sempre fez. Ninguém mais é capaz de entender isso. Ao menos não conheço outro alguém.

Para que entenda, preciso narrar o fato, claro.

Estava sentado, em um banco da praça, olhando as pessoas que passavam pela rua e olhavam as vitrines. Verão, calor, mulheres com roupas curtas e eu ali, acompanhado por uma mulher, moça, enfim, que tem tentado insanamente aproximar-se de mim. Sério, é difícil não olhar para aquelas pernas desnudas (estou lendo muito David Coimbra, eu sei) e rijas. Eu tentei ao máximo, acho que ela, a que estava me acompanhando, não reparou. O que é bom.

E não faz qualquer diferença.

Então, em algum momento, olhei para o outro lado, digamos que para dentro da praça onde estava sentado, e ao vê-la meu coração palpitou.

Desgraçado coração.

Ela era a Renata. Vini, sério, eu não sei explicar o que aconteceu. Parecia que nunca tinha visto-a e, naquele instante, estava sendo flechado pelo cupido. Ok, péssima frase. Senti-me, de alguma forma, como na primeira vez em que a vi, há uns vinte anos atrás, quando eu tinha seis ou sete e, já lá, sabia que amava-a mesmo sem saber ao certo o que era amor. Ao menos pensava que se amor fosse aquilo que eu senti, seria muito bom.

Eu a vi andando, caminhando com fones nos ouvidos, cantarolando. Como a vi fazendo diversas outras vezes. Meu coração parecia querer sair pela boca. Ou parecia que eu havia engolido um iceberg. Ou andado a cento e noventa quilômetros por hora em um carro conversível com a boca aberta – ou algo do tipo. Eu não entendi nada. Fiquei paralisado, com medo, ansioso, receoso, não sei, não sei, não sei. Ah, não sei.

Ela, a Renata, não olhou para o lado onde eu estava, ou seja, não me viu. A pessoa que estava comigo estava falando alguma coisa sobre quantos abdominais ela fazia enquanto assistia ao House, ou algo próximo disso, e também não notou. Congelei naquele momento, por dentro e por fora. Incrível a capacidade que o ser humano tem de ser um emaranhado de claras de ovos prontas para serem batidas e transformadas em claras em neve.

Certo, acho que estou vendo muito o canal culinário. Ao menos aprendi a fazer um Francesc’are la Tottê.
Enfim.

Entendeu o que quero dizer? Se não entendeu, estou ferrado pois não saberei desenhar. Por que senti-me daquela maneira, e tenho pensado tanto nisso, que tem tudo a ver com ela, a Renata? Por que? Terminamos há quase dois anos, decidimos que seríamos amigos como havíamos sido antes de namorarmos e, claro, sabíamos que não daria certo isso. Estamos afastados há tempos embora, eventualmente, nos encontremos no supermercado – onde sempre a vejo comprando Danette de sensação, meu favorito. E isso não acontece há pelo menos cinco meses. Apesar disso, não há contato, não há profundidade no diálogo ou qualquer tipo de relação formada. Nada.

Nada, Vini, nada.

Por que então vê-la remexeu meu interior, meus sentimentos, voltou a manifestar uma ansiedade, umas sensações estranhas, uma... paixão? Não!

Não pode ser isso. Não é isso. Essa coisa não pode ser paixão pois acho que é impossível alguém apaixonar-se pela mesma pessoa duas vezes. Eu apenas a vi, não alimentamos qualquer tipo de vínculo. Não é paixão. Nego-me a pensar que possa ser um sentimento. Não, não.

Também não estou querendo negar isso por conta da presença de outra pessoa. Não. Não vai dar certo. Ela é muito diferente, gostos diferentes, atividades diferentes, cultura diferente... como a Renata era. E ainda deve ser.

Certo, não é porque ela é diferente. Talvez seja porque ela estava comigo naquele dia que não estou pensando nela... porque seria errado, injusto, uma canalhice, certo?

Não penso na Renata, Vini, como pensava antes de namorarmos, com aquele ar de impossível, aquele sonho irreal, aquele desejo intenso e sincero. Não.

Só não consigo entender como ela pode (seria pôde, mas acho que a nova ortografia retirou esse acento) ter mexido tanto com meus sentimentos e sensações se nem sequer faz parte da minha vida. Ao que parece ela, representando meu passado, veio e jogou todos os papeis da minha organizada escrivaninha mental para o ar, e não se deu ao trabalho de organizar ou, pelo menos, explicar porque o fez.

Tenho medo do que foi isso. Medo de que ainda esteja preso a ela de alguma forma. Ligado a ela de um modo único, diferente. E tenho medo de que a pessoa que estava comigo tenha, naquela tarde, pensado que a minha relativa indiferença, à partir do momento em que vi a Renata, seja diretamente para ela.

Tenho medo de que ela distancie-se de mim? Ou tenho medo de... estar apaixonado por ela e não querer que ela descubra tudo o que a Renata foi para mim e, então, retorne à retórica da primeira pergunta.

Eu não sei, Vini. Estou cansado de dizer isso mas, não sei, amigo.

Não sei de onde veio isso. Não sei o porquê disso. E tenho medo do que isso possa significar

Forte abraço.
B. Johansson"

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Histórias do Billi J. - Eu, que amo você


"Sabe, Vini, muitas coisas mudaram na minha vida desde que terminei meu namoro com a Renata. Você já imagina o blá blá blá tosco e nostálgico que vem sempre que falo nela mas hoje só toquei nesse ponto para mostrar que estou ciente de toda melação que meus emails carregavam e, então, até mesmo peço desculpas por tantas e tantas vezes falar as mesmas frases e, enfim, você sabe, você leu, você entendeu. Rima tosca, então é hora de seguir.

Estou, sinceramente, sentindo falta de muitas coisas em mim que desapareceram nos últimos tempos. Essa série de características, gostos e etc começaram a desaparecer sem que eu notasse e, vendo hoje, ainda havia a Renata ao meu lado e, portanto, não é ela a causadora desse mal. Se é que se pode chamar de mal. Embora saiba que algumas coisas devem morrer para que outras, novas, nasçam e frutifiquem, sinto falta mesmo de uma série de coisas.

Lembra que eu gostava de jogar basquete sozinho atrás de casa? Pois é, não lembro quando foi a última vez que fiz isso. Tampouco lembro a última paródia nerd que compus, se é que paródias são compostas. Sinto falta de quando ficava sentado em silêncio, olhando para um céu nublado prestes a derramar-se sobre a minha cabeça. E que falta faz rir bobamente assistindo um filme idiota e sem graça! Nunca pensei que diria isso mas sinto falta até mesmo de pedalar alucinadamente em volta do campo de futebol. Você sabe que sou um tanto sedentário porém é verdade, sinto falta até das pedaladas. Da coleção de latinhas, da organização, das revistas que eu editava para serem lidas apenas por mim. Era legal, trazia um pouco da infância para o presente.

Não, antes que você possa pensar, não estou querendo fugir da realidade com isso. Só acho que é necessário manter algumas coisas do passado que satisfazem para que haja sempre chances de relembrar, diariamente, quem se é e não perder parte daquilo que há de melhor e que foi desenvolvido na infância. Você entendeu, sim.

Além dessas práticas, vejo-me muito mais introspectivo do que era. A Gabi, anos atrás, abriu-me para a espontaneidade e a Renata manteve isso durante todo o tempo que estivemos juntos. O problema é que o meu espontâneo, atualmente, é seco, frio e sem graça. Não anima, não distrai, não traz lembranças. Ele é vazio, opaco, obscuro e debochado. Incrível, nunca conheci alguém que debochasse de si mesmo enquanto fala sozinho. Eu, hoje, tenho feito isso. Não satisfaz, não alegra, deixa apenas a sensação de que algo está errado e a impressão de que isso é pouco perto do que existe, de fato.

Estou tentando rever cada palavra, cada pensamento para encontrar os bloqueios que tem impedido-me de ser espontâneo como descobri poder ser. E assim sou, de fato, embora não consiga encontrar meios de externar isso novamente. Não, não é pelo término com a Renata, antes mesmo disso acontecer ela relatava que eu estava diferente, distante, inerte. Maldita inércia, era essa palavra que eu queria ter citado antes. Sinto-me inerte ao que está a minha volta. Tento me mexer, sair do lugar, fazer algo novo mas, no final das contas, acabo voltando para as ações rotineiras que não levam a lugar nenhum senão ao ponto comum do qual não tenho saído.

Depois da Renata, conversei com várias pessoas sobre relacionamentos e a falta deles. Conheci pessoas novas entretanto o antissocial falou mais alto e recolhi-me ainda mais numa insignificância que só cresce à medida que o tempo passa. A exceção, e talvez apenas isso você não saiba, foi uma jovem, peculiar, diferente do que estava acostumado a conhecer e/ou conviver. Sério, Vini, ela é única, nunca conheci alguém tão diferente de mim e, ao mesmo, tempo, com tantas semelhanças.

Difícil descrevê-la e, portanto, não o farei agora. O importante é que quero falar sobre o que aconteceu comigo durante o tempo em que estava começando a conhecê-la. Não tinha opinião formada sobre aquela história que o Anjos do Hanngar cantava, algo como 'só se ama uma vez e o resto são paixões lá lá lá'. Nunca havia parado para pensar isso, nem mesmo depois de separar-me da Renata. Foram anos, difícil não pensar que ela seria a única, o grande amor mas, se fosse assim mesmo, viveria o resto da minha vida infeliz? Raciocínios derivados disso vieram à tona sem qualquer bloqueio - foram as poucas vezes, nos últimos tempos, em que consegui raciocinar - e acabei por perceber que não estava pronto para responder à minha própria pergunta.

Essa pessoa, que foi aproximando-se cada vez mais sem fazer qualquer estardalhaço, me fez pensar muito. Não só no ponto citado como também na minha própria vida. Vendo-a e conhecendo-a comecei, também, a reconhecer muitas coisas das quais sentia falta e que, por algum motivo, não tinha mais em mim. A espontaneidade foi a principal. Queria, mesmo, mostrar a ela o quanto posso ser imprevisível e arrancar um sorriso bobo mas, que droga Vini, não conseguia. E ainda não consigo. Difícil dizer o que acontece se não sei sequer o que é.

A sensação de estar em débito com ela, com seu carinho e dedicação, me fez perceber que estava em débito comigo. Pensei várias vezes no que havia se tornado a minha vida: uma rotina deprimente. As mesmas comidas, mesmas atitudes, mesmos comentários, mesmas piadas. Muito disso ainda permanece. Pouco disso tem algum significado. É como se fosse um mau hábito do qual não consegui livrar-me, ainda. E isso não é bom. Sinto que muitas vezes a decepciono justamente por não sair do lugar, por não falar, por não fazer.

Não é porque eu não quero, Vini, é porque eu não consigo sair do lugar!

Ridículo dizer que é cômodo. Ora bolas, como pode ser cômodo estar em algum lugar com algo incomodando? Por dentro meu inconformismo (pasme, ele ainda existe, embora não saia da toca onde está escondido) grita exigindo mudanças, muito mais do que qualquer pseudossocialista em passeata. Sinto-me ridículo agindo assim, parado, inerte, indiferente porque percebo que a entristeço e, também, porque fico deprimido ao ver que não consigo avançar em nada. Muita coisa já morreu mas parece que nada nasceu no lugar. Ou todos as pequenas sementes até foram plantadas mas não germinaram por falta de... cuidado. Mas o que seria esse cuidado na minha vida?

Eu não sei, jaca!

Sinto-me a pior pessoa do mundo, mesmo, com o que está acontecendo (sem acontecer) comigo. Principalmente porque isso impede que ela seja tudo o que pode, e vejo que quer, ser para mim. Falo no presente mas refleti sobre isso várias vezes nos últimos dias e, então, percebi que não estava preocupado com ela apenas por estar gerando tristeza em seu coração.

Estava preocupado por sentir medo, e muito, de perdê-la. Quando senti isso percebi que uma resposta, ao menos, eu tinha. Embora continuasse - e continue - fechado e indiferente (maldita indiferença!), tinha a mais singela resposta para uma dúvida boba e, ao mesmo tempo, significativa.

Quando percebi que sentia-me mal por magoá-la e por ter medo de perdê-la, pude responder para mim que aquilo não era tão pessoal, que aquilo não era só medo. Percebi que aquilo, que isso, é sentimento. Que é verdadeiro.

Que é amor.

Que Deus me ajude, Vini, a sair desse estado, dessa vivência retraída e indiferente. Para que eu possa ser quem Ele quer que eu seja, viver Seus sonhos em minha vida e, então, ser para ela, para aquela pessoa, quem ela merece que eu seja.

Grato pela amizade de sempre.

Saudações tricolores,
B. Johansson"

terça-feira, 28 de maio de 2013

Cartas do Billi J. - A tristeza do ser

"Sabe, Vini, às vezes sinto-me um projeto que não deu certo.

          Hoje pela manhã li uma frase e foi isso que motivou-me a escrever - fora todo o resto que ambienta e dá sentido ao que escrevi.


          “A cada dia que passa fica mais difícil ser o protagonista da minha própria vida. Acho que estou perdendo o jeito. Já não sei mais interpretar o papel “sou forte”.”

         Sinto ser um fracasso. Olho para as pessoas e vejo sorrisos, vontade, interesse, aprendizado e capacidade de fazer escolhas. Olho para o espelho e nada disso consigo ver em mim. Parece que falta algo que ainda não foi inventado, algo... como uma engrenagem que fizesse toda uma máquina funcionar. Uma roda dentada, miserável, que pudesse fazer com que todo o equipamento funcionasse à pleno vapor. Ou, mo meu contexto, um componente que fizesse a reação química entre outros componentes transformar-se em um produto final que modificasse parte da história.

        Sinto que sou um avião que nunca decolou por estar sempre com algum defeito. Uma ideia que não foi colocada em prática porque... pode ajudar-me a completar essa frase? Não sei o que dizer, a tristeza que toma conta de mim, ou algo vestido de tristeza, não é novidade. É cíclico. Vai e volta. Volta. E sempre volta. tentei de tudo para fazê-la desaparecer de vez. Falhei. Tentei dar-me conta, e reconhecer, tudo o que há de bom em minha vida para sufocá-la até deixar de existir. Falhei novamente. Fiz novas escolhas, libertei-me do meu passado - inclusive das melhores partes dele - para, recomeçando de um quase zero, conseguir viver uma nova história, longe e livre desse algo que volta e meia insiste em derrubar-me. Não adiantou, falhei outra vez.

          Não sinto dor. Talvez até não sinta tristeza alguma. É possível, aliás, que não sinta coisa alguma. Talvez seja apenas momentâneo mas, se o for, é um momentâneo repetitivo. Dizem que quando muitas frases são iniciadas por um 'não' é porque há algo errado, porque algo não está bem no emissor. Acredito mesmo na felicidade, Vini. E acredito que ela seja sincera, espontânea e modificadora de todas as coisas - para melhor. Acredito em uma felicidade que faz sorrir mesmo nos piores dias, que conforta nas derrotas e decepções. Portanto, é fácil ver que acredito no amor, terreno e Divino, que Criou e abastece, que dá a cada dia novas oportunidades de sorrir, de viver a felicidade e que, não tenho dúvidas, tira da solidão, escura e fria, vazia. Acredito no Calor que envolve e faz viver. A teoria não é o problema, portanto. Ou, por envolver tantas coisas, talvez seja ela, em si, o problema.

          Infelizmente - e essa é mais uma forma de começar uma frase com um negativo - não há nada que você possa fazer por mim. De antemão, obrigado por prestar atenção em cada pedaço desse desabafo opaco, sem vida. Fez-me bem escrever. às vezes penso que estou doente por não conseguir sentir vida. Ou por não sentir coisa alguma.

          Só posso, hoje, entregar à Deus aquilo que, envolvido em mim, tira a vontade de sorrir, o desejo de viver felicidade. Mesmo que eu tenha todos, ou quase, os motivos para sorrir. Eu quero, de todo o coração, se feliz.

          Mas hoje, Vini, não consigo.

Saudação.
B. Johansson"

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Histórias do Billi J. - Uma lembrança, nenhuma saudade. Vida nova.

"Caro amigo!

A quantas andam suas insanidades? Se da mesma forma que as minhas, só tenho a lamentar, embora duvide que possa estar acontecendo tamanha confusão ao amigo quanto acontece comigo. Pois bem.

Lembra-se que relatei algumas das minhas consultas à psiquiatra? Então, foram várias consultas e ela não conseguiu fazer nada por mim. Pudera, somente Deus, em dia de excepcional e pontual genialidade, poderia interferir no meu livre-arbítrio e tomar uma decisão que somente eu tenho o poder de decidir.

Agora sim.

Dias atrás, fui a um estádio de futebol aqui da cidade e... bah, saí com uma sensação estranha de lá. Ter ido lá e visto um menino tirando uma foto do jogo em questão - eram uns amadores locais, fui porque gosto de jogos excêntricos e você sabe disso - trouxe à tona uma lembrança longínqua...

... em que a Renata estava presente. Acho que não te contei da vez que fui para Londres com ela, né? Não que tenha ficado triste ou com aquele clima de depressão mas... foi estranho lembrar porque... faz tanto tempo. Porque foram tão bons aqueles anos. Passado. Que voltou à lembrança. Só isso.

Tínhamos ido para Londres viajar. Ela conhecia tudo afinal morou anos lá. Então fomos aos pontos turísticos, que ela já conhecia e contou-me várias histórias - e você sabe Vini que eu sou apaixonado por histórias culturais - sobre os mesmos, e tal, sobre o costume do povo, do país em si, etc.

Até que ela, em algum momento, perguntou se havia algum estádio em especial que eu gostaria de conhecer.

Aí o coração balançou, você sabe bem por que.

Meu sonho sempre foi visitar aquele estádio clássico, pequeno porém acolhedor. Sim, o Craven Cottage do Fulham! Háaaaaa, nunca te contei isso? É fantástico aquele lugar, ainda mais estando embaixo daquela cobertura super clássica. O time é fraco, dificilmente fica entre os 10 do campeonato mas, não importava, meu sonho de estar lá tinha se realizado.

Claro que eu quis uma foto. Claro, também, que quis a Renata comigo na foto. Olhei, olhei e não achei um lugar bom para tirar uma foto com ela usando o timer. Porque, né, foto de muito perto não pegaria muita coisa do estádio. Então resolvi pedir, educadamente, que alguém tirasse a tal foto. Olhei para os lados e só vi um menino.

Então, né. Se não tinha outro, que fosse um pirralho.

Perguntei se sabia mexer na câmera, disse para ter cuidado e até como deveria tirar a foto. Ele disse 'ok' para todas as minhas frases. Deixei a câmera com ele e fui até a Renata para posarmos para a foto. Parece bisonho isso e, bom, foi mesmo bisonho essa de 'posar para foto' mas... era o Craven Cottage. Clássico!

Quando disse para o pirralho 'ok!', ele saiu correndo com a minha câmera. Sem tirar a foto, óbvio.

Eu estava cheio de roupas, porque né, faz frio demais em Londres, ainda mais no inverno. Então comecei a subir os degraus como podia. Nem conseguia gritar de tão... surpreso que estava. Persegui aquele pirralho por.... sei lá, uns 10 minutos. Ele entrava em um corredor, descia pelas escadas, entrava em outro corredor, subia uma rampa e... eu atrás, tentando não perdê-lo de vista. Aquela câmera tinha fotos de toda a viagem e... Londres é muito legal, você deveria ir para lá um dia... bom, enfim. Sem contar no preço dela. Novinha! Câmera novinha! Caramba.

Corri. Acho que ganharia do Bolt se ele estivesse treinando num daqueles corredores do estádio. Acho que o pirralho humilharia o Bolt se ele estivesse correndo a final dos 100m rasos na Olimpíada. Sério, ele corria demais. E não cansava.

Eu já não aguentava mais mas, felizmente, aquilo acabou.

A mãe daquele piá conseguiu encontrá-lo. Ah, bendito seja Deus pelas mães. Ela segurou ele, fê-lo devolver a câmera e ainda se dispôs a tirar a tal foto. Tudo terminou bem, blá blá blá.

Deve ser um saco ter de chegar aqui sem grandes emoções. Apesar de saber que a minha vida é assim mesmo, um tédio. Ao menos acredito que você pense isso. Embora seja um bom amigo e saiba lê-las com atenção.

Então. Essa história voltou aos meus pensamentos quando vi um menino com uma câmera na mão naquele estádio... varzeano, por assim dizer.

É engraçado, hoje, mais de um ano depois de terminarmos, a lembrança dessa história me fez sentir mais saudade da viagem e da companhia alegre da Renata do que da Renata propriamente dita.

Acho que foi bom que tenha terminado daquele jeito. Ainda conversamos. Ela está bem, conheceu um irlandês ruivo, parece que o cara torce para o Southampton e odeia cerveja. Literalmente, um cara excêntrico. Ela diz que eles estão apenas se conhecendo. Torço para que seja feliz. E acho que, se der certo com esse cara, a filha deles será uma linda ruivinha. Hahahaha.

Você está se perguntando 'e quanto a você?', certo?

Estou bem. Nada de muito diferente tem acontecido. É estranho, tudo tão parado, calmo.

Daqui a pouco isso muda.

Porque comecei a entrar, bem ou mal, naquela fase de "ãhn... será?".

Estou sentindo-me um adolescente, novamente.

Você deve estar rindo mas eu não acho graça.

Tá bom, só um pouco.

Saudações.

B. Johansson
"

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Histórias do Billi J. - O fim em palavras (IV)

- Olá, senhor Johansson, como está hoje?

- Não estou bem.

- Então acho que vamos começar a falar sobre você.

- Já era hora.

- O que aconteceu?

- Não sei.

- Então por que não está bem? O que está sentindo?

- Angústia, agonia, tristeza, alguma coisa assim.

- Me explique o que sente.

- Se soubesse explicar, saberia definir.

- O que levou a esse sentimento ou sensação?

- Se soubesse...

- Está bem. Já havia estado assim antes?

- Claro, muitas vezes.

- E em que situação você estava nessas outras vezes?

- Ãhn, longe da Renata. Com ciúmes de alguém se aproximando da Renata. Com saudades da Renata. Com raiva porque a Renata dava mais atenção a outras pessoas do que a mim. Triste porque a Renata não respondia minhas mensagens.

- Alguma vez sentiu isso por algum motivo que não tivesse relação com ela?

- Acho que sim.

- Acha que, dessa vez, tem relação com ela?

- Não sei, acho que não.

- Por que acha que não? Vocês terminaram um relacionamento há muito tempo. Tem conversado?

- Até que sim. Ela tem tido pouco tempo lá na Inglaterra.

- Ou ela diz que tem pouco tempo.

- O fuso horário não ajuda, também.

- Sente-se deixado de lado por ela?

- Não somos mais namorados, não espero que ela me trate com alguma prioridade. Somos apenas amigos.

- Melhores amigos?

- Depois de anos de namoro chegamos a uma intimidade tal que amizade, em si, é apenas a porta para um afastamento completo.

- Por que?

- Dificilmente teremos relacionamentos duradouros se estivermos, de alguma forma, unidos.

- Certo. Por que acha isso, no entanto?

- Porque completávamos um ao outro de maneira incomparável.

- E ainda assim terminaram.

- Sim.

- Não teme por esse afastamento?

- O passado jamais será apagado. O que estou sentindo não tem relação com ela.

- Você disse que achava isso.

- Por acaso desdisse-me?

- Não. Bom, quando tinha esse sentimento...

- ...sensação.

- Isso. Quando teve essa sensação, e não foi por causa dela, foi por qual motivo?

- Se soubesse, saberia o porquê de agora.

- Bem, o que tem feito, ultimamente?

- O de sempre: leitura, escrita, futebol, fotografias, vídeos, penso bastante...

- Em que?

- Na vida como um todo. Em todo o tempo presente que Deus permite-me viver.

- Acredita em Deus?

- Claro, como não acreditar se tudo o que há de belo vem dele?

- E o que há de feio?

- O homem, de alguma forma, desvirtuou ou, por algum motivo, Deus coloca à prova nossa fé.

- Por que Ele faria isso?

- Porque precisamos mostrar que somos merecedores de todo o Seu amor. É o mínimo que podemos fazer mas... é a minha vida e não a ação de Deus que está em jogo nesse momento.

- Tentou ocupar sua mente e deixar que essa sensação desapareça por conta?

- Não adianta, ela sempre volta.

- Como sabe?

- Já passei por isso, esqueceu?

- E o que acontecia quando essas sensações passavam?

- Sentia-me livre, novamente.

- Eu quis dizer... o que acontecia antes dessas sensações passarem?

- Ãhn, se soubesse não estaria tentando descobrir.

- É difícil conversar com você.

- Só porque entendo de análise comportamental tanto quanto você?

- Quem tem o diploma aqui?

- Continue.

- Acho que você deve procurar descobrir algo que gosta.

- Eu sei do que gosto de fazer, de ler, filmes, músicas, esportes. Eu sei disso, não estou com qualquer vestígio de crise existencial ou de personalidade.

- Já tentou descobrir um novo hobby?

- Leitura, escrita, fotografias, filmes e esporte. Preciso mesmo de mais um hobby?

- Coleciona algo?

- Livros, filmes, cd's, camisas de times de futebol e times de futebol de botão. Já disse que não tenho problemas com quem sou eu.

- Então me diga, quem é você?

- Uau, você tem mesmo um diploma.

- Exato.

- Sou Bilionárico Johansson, Billi J., tenho 25 anos, formado em engenharia química. Gosto de escrever, de ler crônicas, a Bíblia e livros que me ensinem algo que não sei. Detesto ficções. Gosto de filmes de comédia porque não tem nada a ver com a realidade e me distraem. Gosto de futebol e de hóquei no gelo. Até de basquete. Minha estação do ano favorita é o inverno, apesar de ter descoberto o quanto ele deixa evidente a solidão. Gosto de estar sozinho, de pensar. Tenho a simplicidade como aliada pois pequenos detalhes me alegram. Sou paciente e sei esperar pela vontade de Deus. Gosto de sorrisos, de risadas, de olhares, de abraços. Sou feliz profissionalmente e pessoalmente estou tentando encontrar o amor para toda vida. O amor me fascina. A paixão me fascina. A saudade me entristece. Ser deixado de lado me entristece. A pessoa certa não me dar atenção tira a minha paz. Mesmo quando namorava a Renata, era inseguro quando ela estava longe, embora nunca tenha demonstrado ciúmes. Minha afetividade sempre foi perturbada por traumas passados, de infância e adolescência. Não consigo manter muitas amizades porque minha personalidade quase completa impede que alguém acrescente coisas básicas como gosto por filmes de gênero A ou músicas do gênero B.

- Muito me disse sobre o que gosta mas pouco sobre quem é.

- Admiti ser inseguro, isso não é o suficiente?

- Por que acha que é inseguro?

- Porque por anos admirei a Renata sem saber que ela sentia o mesmo por mim e me arrependi por não ter dito-lhe nada antes depois que descobri que o sentimento era recíproco.

- É um bom motivo para insegurança. Algo mais?

- Talvez o fato de ter reprimido muitas coisas que gostava, para agradar meus pais e os raros amigos de infância. Para não afastarem-se de mim ou trocarem-me por outros.

- Você me disse que são poucos os amigos de infância.

- Sim, reprimi minhas vontades e meus gostos, perturbei minha afetividade e fiquei, no final, sem os amigos do mesmo jeito.

- Entende que uma coisa tem relação com outra?

- Sim, deixei de ser quem era para ser quem queriam que eu fosse.

- Inclusive seus pais?

- São exemplos para mim, jamais os culparei por algo que escolhi fazer.

- É justo, eles não percebiam que você sorria pouco quando criança.

- Como sabe?

- É a sua quarta consulta. Toda criança que é reprimida, ou reprime-se por algum motivo como você fez, não é feliz num todo.

- Minha mãe disse que gostava dos meus sorrisos quando era criança.

- À partir de que idade acha que começou a abrir mão de si pelas outras pessoas?

- Não sei, sete anos talvez.

- Lembra de algo dessa época?

- Eu não tinha video game mas dizia que tinha para não ser excluído pelos meus colegas que tinham e conversavam sobre jogos de corrida. Então eu inventava que jogava jogos de corridas muito mais avançados mas nunca os convidei para irem jogar comigo.

- Isso os afastou de você?

- Não, sempre disse que era culpa dos meus pais, que eles não queriam.

- Nunca descobriram a verdade?

- Quem se importa com uma verdade que não faz diferença para si? Só muda para mim, certo?

- Provavelmente. Ou eles estão precisando de terapia por sentirem-se inferiores desde sempre.

- Ou estão mortos.

- Não gostei da piada.

- Desculpa.

- Alguma outra lembrança?

- Odiava jogar futebol de pé descalço porém o fazia para que não pensassem que eu era um riquinho esnobe.

- E você era um?

- Capaz, mas eu tinha tênis e sabia que, se por acaso um deles estragasse, ganharia outro de uma forma ou outra.

- Sempre teve tudo o que quis?

- Não, mas tênis é necessidade. Eu só ganhava um quando não podia mais usar o outro.

- E sobre o futebol descalço?

- Doía os pés demais. Eu não conseguia jogar direito então ficava no gol, defendendo.

- E como se saía?

- Mal. Eu uso óculos desde cedo, não tinha como defender muito usando óculos. Era perigoso.

- E seus amigos não lhe chamavam de riquinho esnobe mas reclamavam porque você era um péssimo goleiro.

- É fácil dizer isso agora, né?

- Claro, gosto de casos fáceis como o seu.

- Você tem o diploma.

- Exato.

- Então me diga, por que continuo angustiado, ansioso, nervoso ou triste?

- Talvez exista alguém que libere essa insegurança dentro de você e, com medo de que não dê certo por todas as vezes em que você dedicou-se aos outros e acabou, entre aspas, perdendo-os da mesma maneira, sinta-se angustiado por não saber o que fazer, o que dizer, algo assim.

- Hum.

- Estou certa?

- Talvez, preciso pensar a respeito.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Histórias do Billi J. - O fim em palavras (III)

- Acho que hoje podemos falar da sua família.

- Nunca tive problemas em casa, não acho que falar sobre eles ajudará.

- Quem tem o diploma aqui?

- Tudo bem, pode perguntar.

- Como é composta a sua família?

- Pai e mãe, eu e um irmão mais velho.

- Seus pais moram juntos?

- Sim.

- E como é a sua relação com seu pai?

- Não tenho do que reclamar, meu pai sempre trabalhou para que eu pudesse ter tudo o que precisasse. Depois, quando meu irmão nasceu, trabalhou ainda mais... o admiro por esse amor que tem por nós.

- Acha que trabalhar para sustentar os filhos é amor?

- Ele se preocupa, sempre conversou comigo sobre a escola, sobre o que eu pensava a respeito do mundo, das outras pessoas, não tenho mesmo do que reclamar do meu pai.

- Lembra de algum momento em que ele possa ter exercido algum tipo de pressão?

- Não, ele sempre me disse que poderia conseguir o que quisesse e que, se pudesse, ajudar-me-ia o quanto fosse preciso.

- Você me disse outro dia que sempre colocou pressão sobre si para acertar, uma vez que não queria decepcioná-los, é difícil que em nenhum momento tenha sentido-se pressionado por eles.

- Meus pais nunca disseram para fazer isso ou aquilo, sempre permitiram-me escolher, apenas diziam que algumas coisas estavam fora de cogitação... por vários motivos.

- E você queria muito essas coisas?

- Talvez, mas não acho que isso seja importante porque criança sempre quer o que não pode ter.

- E você não podia ter, por que?

- Limitações financeiras, talvez. Ou porque eu era feliz sem aquilo e eles concluíram que a minha felicidade não dependia daquilo.

- E eles estavam certos?

- Sim, aprendi a gostar de coisas simples e hoje não gosto de ganhar presentes porque, de alguma forma, sinto que é um incômodo para quem os dá.

- Há algo que possa ter originado essa coisa de você não ganhar presentes?

- Não sei.

- Pense, na infância, você ganhou algum presente de que não gostava?

- Presentes em brincadeiras de amigo secreto conta?

- Claro.

- Então sim. Uma vez dei um carrinho de controle remoto, bem legal, e ganhei um par de meias.

- O...

- Espera! As meias não serviram. Nem cheguei a usá-las. Lembro que minha mãe disse que era normal darmos presentes bons e recebermos presentes ruins então acho que, à partir disso, decidi não esperar muitos presentes para não me decepcionar.

- Se eu fosse lhe dar um presente, hoje, o que você gostaria de ganhar?

- Não sei, acho que nada.

- O que você gostaria de ganhar, Billi?

- É sério, eu não sei. Como estou trabalhando, posso comprar as pequenas coisas que quero mas... não gosto muito de presentes generalistas.

- Como são presentes generalistas?

- Aqueles que você pode dar para mim ou para um mendigo ou para uma madame. Sabe, coisas que se compram em lojas e tal, que qualquer pessoa pode ter um igual.

- Você gosta de coisas personalizadas, então?

- Um cartão escrito à mão tem muito mais valor do que, sei lá, um vídeo game ou um celular, se é que você me entende.

- A sua ex-namorada dava presentes assim?

- Ela me conhecia bem. Acho que só ganhei um cartão dela porém foram muitos, muitos mesmo, os recadinhos escritos na agenda, em papeis que guardava na carteira, enfim, pequenas coisas.

- E isso lhe deixa feliz?

- Só de pensar coloco um sorriso no rosto.

- Acha que esse gosto por coisas pessoais vem só daquelas meias que não serviram?

- Quem aqui tem o diploma?

- Haha, muito bem. Mas o que você acha? Tem algum outro presente que você não gostou?

- Ãhn... eu não sei.

- Do que você gostava de brincar?

- Eu gostava de futebol de botão.

- E você ganhou dos seus pais isso?

- Não, eu comprei uma caixa com seis times, uma vez, com o dinheiro de trocos que eu ganhava por ir ao mercado para a mãe.

- Quantas vezes você se lembra de ter pedido algum presente para seus pais?

- Eu não lembro. Não sei. É difícil dizer.

- Pense ao menos quando foi a última vez que você pediu um presente para seus pais.

- Ãhn... talvez aos seis anos.

- Sério? E depois disso nunca mais pediu?

- Acho que não, eu gostava do que ganhava.

- Mesmo?

- Claro. Carrinhos em miniatura, caminhões de madeira, bolas de futebol, bonecos de luta, livros. Eu sempre gostei do que ganhava da mãe.

- Seu pai não lhe dava presentes?

- Ele pagava eles, mas a minha mãe escolhia.

- Por que?

- Porque mães fazem isso. Meu pai não tem muito jeito com as pessoas, ele é bastante reservado, assim como o meu avô.

- Você está justificando as atitudes dele.

- Tenho razão, compreendo e, insisto, isso não faz diferença. Meu pai é um exemplo para mim, sempre foi.

- Então voltemos aos presentes. Qual foi o último presente que você escolheu?

- Um posto de gasolina para brincar com carrinhos, não era como o da propaganda mas brinquei muito, mas muito mesmo, com ele.

- Não era como o da propaganda?

- É. Não esguichava água nem tinha lugar para sabão mas era bem legal fazer os carrinhos subirem e descerem por ele, estacionar.

- Já pensou que você não gosta de presentes por ter pedido um brinquedo que mostraram na televisão e ter comprado um presente semelhante, mas sem tantas... opções... ?

- Já pensou que você pode ter passado anos na faculdade estudando teorias mas a vida prática de uma família é impossível de ser transformada em regra geral?

- Hum.

- Algo mais?

- E o seu irmão?

- Revoltado com a vida.

- E o que você pensa dele?

- É meu irmão, eu tenho de amá-lo mas discordo de quase tudo o que ele faz e de quem ele escolheu ser.

- Você é favorável à liberdade?

- Nunca tentei mudá-lo, por isso minha discordância é somente opinião pessoal. Jamais tentei influenciá-lo, embora tenha tentado aconselhá-lo várias e várias vezes.

- Sente-se decepcionado por seu irmão ser quem é hoje?

- Sinto-me decepcionado com as escolhas que ele fez. Ele não é alguém, é alguma coisa porque deixou-se manipular por pessoas ruins.

- Como sabe?

- Você tem o diploma mas não conhece ele.

- Você não tem diploma e o conhece, e daí?

- Chega.

- Você ainda tem dez minutos.

- Tome um café, não quero mais falar sobre as escolhas de uma pessoa que não está aqui e que, ainda, não tem relação com os meus problemas.

- Está irritado?

- Não, só não quero falar para não desviar do foco: os meus problemas.

- Está bem.

- Da próxima vez, voltamos para a minha afetividade ou será a última vez.