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domingo, 2 de setembro de 2012

Histórias do Billi J. - O fim em palavras (II)

- Você de volta aqui, Billi, por que?

- Ah, então se lembra da minha última consulta.

- Foi há uma semana, seria estranho se esquecesse de alguém que... acha que pode ter algum problema psiquiátrico mas não sabe bem o que.

- Raiva.

- De mim?

- Não, alguém me disse, algum dia, que em algum momento não conseguirei controlar-me e acabarei... bem, machucando alguém.

- Alguém disse que você não será capaz de lidar com ira.

- Mais ou menos isso.

- Então conte por que você acha que essa pessoa pode estar certa.

- Bem, desde cedo, fui ensinado por meus pais a respeitar todas as pessoas. Ser educado, atencioso, amigo. Sempre agi dessa maneira, pacífica, gentil, agradável. As pessoas sempre diziam aos meus pais que estavam criando-me muito bem, pois eu era o que todo pai sonha para um filho. Não sei, isso, de alguma forma, sempre pressionou-me a buscar acertar sempre.

- E seus erros nunca foram bem aceitos por...

- ... mim.

- E quais podem ter sido seus erros na infância?

- Na infância... não sei, não lembro de coisas significativas.

- Tente.

- Uma vez fui chamado na diretoria por ter ido buscar um amigo que não tinha voltado à aula.

- Foi repreendido por isso? Quantos anos tinha?

- Acho que cinco. Eles me disseram que eu era novo demais para sair na rua.

- Algo mais?

- Uma vez briguei com um menino, na segunda série.

- Por que?

- Não sei. Acho que eu tinha expulsado ele em um jogo na educação física e ele quis tirar satisfação depois.

- Quantos anos você tinha?

- Sete.

- E você bateu muito nele?

- Eu apanhei feio. Fui para casa com uma camisa branca, com estampa de 'Tom e Jerry' ensopada de sangue.

- Quantos anos ele tinha?

- Não sei, uns 12.

- Os pais dele foram chamados na escola junto com os seus, suponho.

- Que eu me lembre, só meus pais foram chamados, logo eu levei uma bronca imensa por ter brigado, ainda mais com um menino mais velho.

- Por que os pais dele não foram chamados?

- Ele tinha, pelo menos, cinco anos a mais do que os outros alunos daquela turma, os pais dele não estavam nem aí para ele, coitado, não consigo imaginar onde ele esteja hoje.

- Você sente raiva quando lembra disso?

- Não.

- O que você sente?

- Fico triste por ter decepcionado meus pais.

- O que você sente com relação a essa sua briga, esquecendo seus pais.

- Ãhn... não sei, acho que nada. Eu não lembro quantos socos levei nem nada disso, só sei que voltei para casa com a camisa ensopada de sangue e o nariz inchado.

- Alguma outra lembrança?

- De brigas na escola?

- Pode ser, você que sabe.

- Tem mais uma mas... ela é meio controversa.

- Por que?

- Porque, no final das contas, eu não briguei.

- Ele fugiu?

- Eu me recusei a brigar... está bem, eu fugi, mas não foi correndo, só me recusei a brigar com ele.

- Ele era mais velho também?

- Ele morava na mesma rua que eu, considerava-o um dos meus melhores amigos.

- Por que queria brigar com ele?

- Ele queria brigar comigo.

- Por que?

- Não sei. Estávamos sempre juntos, era o último dia de aula, ele quis brigar por algum motivo e... eu não quis.

- Por que não quis?

- Porque... não sei, acho que fiquei com medo.

- De apanhar mais uma vez?

- Do que os poucos amigos que eu tinha iriam pensar se eu apanhasse de alguém que sempre ficou atrás de mim.

- Em que sentido ele ficava atrás de você?

- Minhas notas eram melhores, eu jogava futebol melhor, todas as pessoas da escola me conheciam, mesmo aquelas que já estavam séries a frente. Não sei, quando precisavam de um representante da turma, era eu... mas éramos amigos.

- Talvez ele tivesse inveja e por isso quisesse mostrar, brigando com você, que ele era melhor em alguma coisa.

- Provavelmente mas... não gosto de pensar assim.

- Por que?

- Porque não me sinto bem nessas listas, não gosto de pensar que sou melhor que alguém.

- Seus pais diziam que você não devia se achar melhor do que ninguém?

- Acho que sim, sempre me ensinaram a ser humilde e nunca passar por cima dos outros para conseguir o que eu queria.

- Então... o que sente a respeito dessa briga que você não brigou?

- É estranho, me arrependo.

- De não ter brigado?

- Isso mesmo. Eu era um pouco maior do que ele, era mais rápido, eu tinha chances de ganhar essa briga.

- Você não teve medo de apanhar, teve medo de ser novamente repreendido por professores e pelos seus pais.

- Humm...

- O que eles falaram sobre isso?

- Eles não souberam. Eu disse que ele morava perto da minha casa, nossas mães conversavam bastante, nem eu nem ele contamos porque... não aconteceu nada.

- E a amizade de vocês?

- Ficamos sem nos falar por anos e, bom, hoje nos cumprimentamos mas nada demais.

- Acha que tem alguma relação?

- Não muito. Esqueci de contar que eu me tornei o melhor amigo do melhor amigo dele.

- Mais um motivo para ele querer ser melhor em alguma coisa.

- Insisto que me sinto mal com isso, apesar de ter usado esse 'melhor' para representar o contexto.

- Há pessoas com melhores notas do que outras. Elas são melhores do que as outras por tirarem mais notas, não há demérito nisso.

- Eu sei que não porém... não gosto, só isso.

- Há outra situação, de outro tipo agora, que você lembre que originou algum tipo de repressão?

- É difícil lembrar assim, do nada.

- Há alguma outra lembrança marcante da sua infância?

- Ãhn... um dia tivemos um... jogo, na escola, de perguntas e respostas. Um representante de cada turma respondia a perguntas junto com o professor responsável pela turma.

- Você foi o representante?

- Eu não quis.

- Por que?

- É difícil dizer, os colegas votaram em mim para ir mas... eu não quis.

- Por que você não quis?

- Não sei... eu tinha uma autoestima baixa.

- Ou tinha medo de errar uma pergunta e ser motivo de chacota.

- Eu estudava mais, lia mais, tinha mais facilidade com matemática. Minhas notas eram melhores, não fazia muito sentido eles rirem de mim.

- Fazia muito sentido você temer que eles rissem de você. Você tinha muito a perder, sua reputação de, eu acho, melhor aluno da turma. Eles não teriam nada a perder.

- Eram meus amigos.

- Com quantos você fala até hoje?

- Com um.

- Eles não eram seus amigos, eram seus colegas. Acha que esse rapaz, que é seu amigo até hoje, riria de você?

- Não.

- Ele é seu amigo, então. Eles não eram. Billi, você teve medo de errar e ser alvo de brincadeiras, de ironias.

- Também estou arrependido por não ter ido.

- Isso incomoda, não é mesmo?

- Muito.

- Você não tinha uma relação muito boa com seus colegas, natural que tivesse medo que eles pensassem que você não era bom, afinal, a maioria absoluta das crianças que tiram as melhores notas da turma são crianças tímidas e sem muitos amigos. Você era tímido, não era?

- Sim.

- Como se sente, lembrando disso?

- Além do arrependimento?

- Sim, o arrependimento é o menos importante.

- Sinto-me tranquilo porque... não sei, acho que lembrar disso diminui minha sensação de fracasso.

- Bom, continuamos na próxima semana, se você quiser.

- Sim.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Histórias do Billi J. - Essa não é a minha vida


Cansado das provocações e incessantes ironias quanto ao seu desempenho nos esportes, Billi J. resolveu que deixaria de ser bom apenas nos estudos, no entendimento da vida e na arte de sonhar com Renata. Seria bom também em esportes. Para isso, deveria começar adquirindo preparo físico. Quando descobriu que o verbo adquirir, nesse caso, era usado de maneira não-literal, pensou estar progredindo bastante. Sorria a cada nova descoberta sobre condicionamento físico e equipamentos básicos para a prática de uma simples corrida. Deixou o chinelo e o tênis de ir à missa de lado e comprou um bem simples porém recomendado pelo vendedor da loja. No começo estranhou, pois não havia nada entre a palmilha e o solado do tênis, mas se o vendedor havia dito é porque deveria ser verdade.

Um adolescente que não sabe muito sobre esportes e atividade física não é bem aceito em muitos grupos sociais. A turma do Billi J. era formada por jovens que faziam academia, julgavam-se futuros jogadores de futebol e basquete, sempre andando com camisetas regata que deixavam à mostra seus braços musculosos demais para suas idades, porém bons para atrair a atenção de meninas igualmente jovens. Felizmente Renata, infelizmente ainda apenas sua amiga, não achava aquele exibicionismo barato e fútil interessante. Era estranho que uma menina como ela, com cabelos tão livres ao vento, com olhos tão belos, com sorriso tão reluzente e com uma alegria que contagiava até o seu tédio modorrento, preferisse ficar ao seu lado, sendo ele tão... Billi J. como era. Então, para justificar essa estranha preferência de Renata, Billi J. foi em busca de qualificação esportiva.

Começou com algumas caminhadas, muito mais porque Renata disse que era bom começar aos poucos, para não se machucar. Não entendia aquela preocupação toda, mas aceitou os conselhos, até porque qualquer coisa que a Renata pedisse, Billi J. faria sem pensar duas vezes. Ah, como ela era linda, e como seus cabelos balançavam enquanto caminhava... ah, Renata! Na primeira vez em que ela não pode ir com ele caminhar, Billi J. decidiu intensificar aquele treinamento esportivo. Afinal, apenas caminhar não melhoraria sua condição física, impedindo-o de fazer frente aos colegas no esporte. Então ele fez um ou dois alongamentos rápidos, para não cansar muito, e saiu correndo. Não sabia onde estava indo, apenas estava... indo. Correndo. Até tirou o óculos para evitar algum imprevisto. Passou por dois ou três senhores de idade e sorriu quando ouviu deles um 'essa juventude está sempre com pressa'.

Continuou correndo, sem cansar. Estranho, estava correndo há meia hora e nada de cansar. Subia e descia ruas, passava sobre asfalto, calçamento e até estrada de terra batida. Até que, para não pechar em uma senhora que acabara de atravessar a rua, pisou em um buraco e caiu. Infelizmente, na frente de alguns colegas que, como era de se esperar, riram e no dia seguinte espalhariam a notícia para todos poderem rir de Billi J.. Era o de menos. Levantou e, caramba, que dor no tornozelo! Deveria ir para casa afim de...

- Billi!

Ir para casa não deveria demorar, pois lera ser bom iniciar um tratamento o mais breve possível do momento em que a lesão é sentida, mas não poderia deixar de falar com...

- Meu aluno preferido, como você está?

Professora Jussara! Sim, sua professora da terceira série, uma das poucas que o defendeu em todos os seus anos de vida escolar. Não poderia deixar de falar com ela.

- Acabei de cair um tombo por tropeçar nesse buraco após ter evitado o choque com essa senhora. Machuquei o tornozelo, mas estou bem.

- Billi, o esporte nunca foi seu forte mesmo...

Não gostou muito daquilo, mas ainda assim tinha boas lembranças daquela senhora, um pouco mais nova do que a causadora do tropeço. Foram trocando frases, palavras, lembranças. Ela perguntou de Renata, como quem faz uma insinuação. Perguntou retoricamente se ele ainda era motivo de chacota. Se sua mãe havia tido mais algum filho, enfim, perguntas comuns em conversas entre aluno e ex-professora, ou vice-versa.

O tempo passou e o céu escureceu, quando se deu conta do momento, Billi J. se viu só, olhando para um joão-de-barro que construía seu lar em cima da parada do ônibus e... com dor no tornozelo. Nos dois tornozelos. Estranho, agora também doíam-lhe as pernas, os joelhos e até os braços. Como podia sentir tanta dor assim? Enquanto corria estava tudo bem, estava indo melhor do que as expectativas mas... agora sentia-se tão machucado quanto na vez em que viu Renata abraçando um menino afetuosamente. Ah, aquilo doeu muito durante dias, até descobrir que eles eram irmãos.

Não conseguia caminhar direito. Um passo com a perna direita e até a perna esquerda doía. Um passo com a perna esquerda e toda a perna direita doía também. Não conseguia pensar em mais nada. Nem Renata conseguia manter-se em seus pensamentos por mais do que dois passos. A dor era grande. Muito grande. Muito variada. Muito intensa. E não podia avançar sem sentir mais dor. E mais dor. E mais dor. Cada passo era uma vitória, uma conquista, estava mais perto de casa. Mais longe da vontade de continuar vivendo, pois não conseguia sentir direito suas pernas, tamanha dor. Talvez aquilo fosse cãibra, talvez fosse distensão, talvez tivesse, como dizem os boleiros, aberto a virilha. Não sabia o que era, sabia que sentia dor, muita dor. Até seus ossos, se fosse possível sentir, doíam.

De onde havia surgido aquela maldita ideia de virar um esportista, de ser bom também nos esportes? Quem é bom só nos estudos vai longe, não se machuca, não corre o risco de derrubar uma velha que acaba de atravessar a rua, não corre o risco de encontrar uma antiga professora que, apesar do respeito, não parava de debochar de seu tropeço, suas atitudes tímidas, antissociais e seu amor platônico por uma menina que nunca sentiria o mesmo por ele. Professora boba, colegas bobos, ideia de sair correndo por aí boba, muito muito boba. Quem foi que inventou o esporte mesmo?

Até seus neurônios pareciam doer naquele momento, tudo por causa daquela ideia boba de sair correndo por aí, para tentar ser um atleta. Decidiu que ser estudioso bastava. Prometeu a si mesmo nunca mais correr, sequer fazer exercícios, menos ainda ser bom em esportes. Não faria mais isso nem pelo esporte, nem pela saúde, nem pelos seus pais, nem para mostrar aos colegas que era muito mais do que um bom aluno, nem por Renata.

Bom, por Renata ele quebrou a promessa, dois anos e alguns meses depois, como foi relatado aqui.*

*é engraçado reler as antigas histórias do Billi J.. 
Era tudo tão... simples.
Uma maneira de escrever comumente encontrada em livros infantis.
Não que hoje seja muito diferente quando não há uma grande inspiração.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Definitivo como tudo que é simples, como tudo que é verdadeiro


É definitivo que o país está perdido. E não é porque estamos em uma mesa de bar, bebendo uma cerveja bem gelada em uma tarde de verão, bem quente. O país está perdido pelas eleições, pelo que está sendo e será feito. Pela covardia de um povo que aceita tudo que lhe é colocado como opção indutiva. Pela influência que a mídia e tudo o que é visível têm sobre aqueles que não possuem capacidade de discernimento.

Definitivo é também que, além do país, nossas vidas estão perdidas. Porque o trabalho nos cansam. As namoradas ou quase esposas exigem-nos atenção e damo-lhes. Exigem carinho doamo-lhes. Exigem que sejamos fieis, autênticos e únicos. E assim o somos. Mas elas continuam desconfiando dessa nossa simplicidade, desse nosso jeito pacato. Estamos perdidos porque raramente sentamos nessa mesa de bar, na escada da praça ou nas cadeiras sujas da lanchonete com nossos amigos, para lhes contar sobre essa nossa vida, corrida, cansativa, mas um tanto divertida.

Definitivo como tudo aquilo que é simples apenas pelo fato de ser. Definitivo como olhar para o céu e dizer que vai chover. Minutos depois rir, vendo o palpite furado. É definitivo aquilo que não muda. Como a nossa cabeça. Quanto cabelo tínhamos, e hoje as entradas da calvície ameaçam a nós e aos nossos, quem sabe, futuros filhos. Definitivo é aquilo que não muda, ao contrário da nossa fome. De leões vorazes com fome insaciável, chegamos ao ponto de recusar o aperitivo porque o almoço de ontem não desceu bem. Estamos ficando fracos, envelhecendo, perdendo a capacidade até de jogar futebol, de resmungar com uma mulher, de sair por aí apenas para beber, uma ou duas cervejas, ou um litro de pepsi cada um. Eu disse sim, cada um.

E isso é um tanto definitivo.

Entretanto, toda essa porcaria que se encaminha para o definitivo, tudo o que a nossa juventude antiga, que vai passando a cada dia e tirando nossa vivacidade física, nossa sagacidade mental e nossa intolerância ao pouco, toda essa porcaria não consegue tirar de mim uma definição, um definitivo, muito mais importante do que todas essas reclamações. Muito mais confortante que o abraço da mãe quando ralávamos o joelho na infância. Muito mais forte do que o tapa do pai quando quebrávamos um vidro. Ainda mais, tudo que se encaminha para o definitivo não elimina um definitivo que tenho comigo e que terei, definitivamente, sempre.

Vocês. Sem promessa banal de eternidade, sem promessa fútil daqueles que dizem ser de verdade, sem promessa atemporal de todo o tempo. Definitivo que me conforta é o saber de que, estando onde estiver, estarão comigo.

Aos amigos, um brinde, alegre, sorridente, definitivo. Aos amigos, a amizade que é definitiva, que não se altera com o tempo, a distância, os rumos pessoais de cada um, trabalho, estudo ou companheiras. Aos amigos, da barriga cheia, da cabeça cheia, das palavras e dos sonhos cheios.

Aos amigos. Que são definitivos com a bênção de Deus.

Aos definitivos amigos.

*cabe a lembrança aos amigos,
companheiros de futebol,
de histórias, da vida,
que nos deixaram e que nesse
dia de finados merecem
 todas as nossas orações.

**É uma pena não ter uma foto para ajudar 
a representar o que me fez escrever hoje.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Histórias do Billi J. - Quando se conhece uma dor


Eram passados alguns anos da vida do Billi J. . Poucos anos, uma vez que o Billi tinha apenas 7, 8 anos quem sabe. Já era, injustamente, motivo de chacota pelos colegas, que não perdoavam seus óculos, seu jeito simples de falar e sua sede por conhecimento. Mas eles, os colegas, tiveram uma importância ainda menor naquele sábado de maio, ou junho.

O Billi estava na cozinha, vendo sua mãe fazendo bolachas, e colocando em cima delas açúcar com canela. Como era divertido colocar açúcar com canela naquelas bolachas que ficavam tão gostosas. A mãe do Billi realmente sabia como fazer bolachas. Porém aquela alegria, aquele momento mãe e filho que deveria ser apenas de sorrisos foi interrompido pela campainha. Billi atendeu e não gostou nada da cara de tristeza daquela mulher morena, alta, vestida toda de preto, como se estivesse de luto.

Chamou sua mãe e a mulher pediu que ele as deixasse a sós. Billi J. foi então continuar seu divertido trabalho de colocar açúcar com canela em cima das bolachas enquanto sua mãe  e aquela mulher de preto conversavam na sala, em tom tão baixo que nem desligando o rádio o Billi conseguia ouvir.

Então ouviu a porta fechar, sua mãe, antes alegre, agora estava com o semblante sério, como se algo ruim tivesse acontecido. Não, algo muito ruim havia acontecido sim. Billi perguntou o que aquela mulher havia dito. Sua mãe, como quem não sabe como dizer alguma coisa, pediu que o filho viesse para perto. Ela sentou e colocou ele sentado em seu colo, afinal, o Billi era pequeno e parecia ter uns 4 anos. Começou a falar com calma para o Billi sobre o que acontece com as pessoas que morrem.

O Billi não entendia o que ela falava. Céu e Deus eram coisas boas, mas a morte era uma coisa boa para os velhinhos, que haviam vivido bastante. Percebendo a inocência de Billi, sua mãe então deu aquela que, até dias atrás, foi a pior notícia que o Billi J. recebera.

Seu padrinho, de tantos caminhões de madeira, tantas brincadeiras, tantas risadas e tantos sorrisos, havia falecido. O Billi J. percebeu que não era uma brincadeira quando viu uma lágrima escorrendo pelo rosto de sua mãe. Ela o abraçou, disse que ele havia ido para o céu e que de lá protegeria-o.

Billi J. não sabia o que dizer. Sequer pensou em perguntar como aquilo havia acontecido. Em verdade, não tinha consciência do que era a morte. Não raciocinava que não poderia mais ver seu padrinho, que nunca mais receberia um carrinho de madeira dele, que nunca mais iria em sua casa visitá-lo. Billi J. não sabia mesmo o que dizer, o que pensar. Estava triste mas não conseguia entender ao certo o que estava acontecendo, aquela dor grande, aquele vazio, aquelas...

...lágrimas. Billi J. começou a chorar. O abraço de sua mãe não bastava mais. Desceu de sua perna e correu para o banheiro, trancou a porta e se escorou atrás dela. E chorou. Porque aquilo doía, machucava, era tão ruim que não havia remédio ou chá que fizesse aquela dor passar. Nada. Nem o abraço de sua mãe.
Ficou um longo tempo sentado atrás da porta do banheiro, chorando. Tentando entender por que, como, seu padrinho, ah não, aquela mulher morena, com cara de defunto, aquela mulher estava mentindo, não era verdade que seu padrinho havia... morrido. Não, ela era uma mentirosa que veio estragar o sábado com sua mãe. Era mentira, ela estava mentindo.

Passada a... aquele sentimento de inconformidade, de não querer acreditar no que havia acontecido e, passada a raiva daquela mulher de preto, Billi, à pedido de sua mãe, tomou banho. E chorou durante todo o tempo em que o chuveiro ficou ligado. Hoje ele ri ao contar que não lembra se tomou banho com água do chuveiro ou dos próprios olhos. Entretanto naquele momento parecia tudo tão... triste.

Billi estava triste. E não... não, seu padrinho não devia...
Era verdade. A mulher não estava mentindo. E doeu muito mais ter a certeza disso quando seu pai, um homem que nunca mente, ao contrário daquela mulher de preto, lhe disse que sim, seu padrinho estava agora chegando no céu, pois a viagem era longa. Até seu pai disse...

Não. Meu padrinho não, balbuciava Billi. Não tinha vontade de comer. Não foi ao velório, ao enterro, à missa de sétimo dia. Estava triste, muito triste. Nem o abraço de sua madrinha que, pensando de maneira quase sobrenatural, estava mais triste do que ele aliviou sua tristeza.

Estava triste e com muita dor. Dor que incomodava, cutucava, batia forte. Tão forte quanto a lembrança do padrinho que havia perdido.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O silêncio, as lágrimas.


Eu não tenho tantas palavras para escrever. Não tenho muitas palavras para te escrever. Também não quero parecer ter sido alguém que não fui para pessoas que não me conhecem e não te conheceram. Não adianta dizer-te agora que me arrependo por tempo passado e não aproveitado. Tampouco as minhas lembranças possíveis de palavras de apoio e ensino serão muitas. Sabes que é verdade. Sei que também isso não faz diferença, como nunca fez.

Não fosses tu, eu não estaria aqui. Eu não existiria. É uma maneira bem racional e um tanto quanto boba de tentar fazer o que não fiz em anos: reconhecer.

Agora que caio na realidade, perdendo o maldito senso de imortalidade que tenho pelas pessoas próximas a mim, choro por lembrar que no Natal não estarás mais conosco. Que não me receberá de braços abertos, enfim, que não escreverá mais nada no meu livro. A lembrança mais marcante que tenho de ti é só minha, já que ninguém mais sabe. Sim, as latinhas no chão e a tardia percepção da importância daquilo. Não tanto pelo fato em si, mas sim pelo entendimento, infelizmente vindo apenas anos depois. Sabes que talvez seja só um fato qualquer, uma história qualquer. É, talvez seja. Não importa.Guardo aquilo com importância, como uma lembrança própria.
 
Eu não tenho o conhecimento suficiente para dizer ao certo como eras, o que fazias, enfim, essas coisas que constam em qualquer homenagem. Poucos foram os dias em que conversamos. Menos ainda foram os momentos de conversa, já que nenhum dos dois puxava um assunto que não caísse no lugar comum. Sabes que tenho sim dificuldade para iniciar uma conversa qualquer com alguém que não vejo todo dia. Contigo era assim mesmo.

Também não vou te pedir desculpa, porque não acho que algum dia tenha feito algo muito errado para tanto. Até porque, se fiz, levei um puxão de orelha da tua filha e pedi desculpa no ato. Tampouco ajuda dizer que queria ter sido melhor contigo. Porque não acho que eu não tenha sido bom o suficiente. Eu só não o fui por muito tempo, por muitos momentos. Não vou ficar alongando palavras para mostrar um arrependimento que é só meu, mas que não é de todo verdade pois cada dia é uma história e se o futuro fosse conhecido, certamente você teria mais páginas no meu livro.

Cai por terra em dias como hoje o senso de imortalidade que acho que muitos como eu possuem. Aquele senso de que aconteça o que acontecer, vocês, senhores de idades com cabelos brancos e palavras sábias, estarão lá, sempre com um sorriso para nos receber. Cai por terra o humano, ressurge o cristão, aquele que entende que a morte é apenas a passagem para a verdadeira vida, com Jesus e todos aqueles que por aqui já passaram e que mereceram um lugar lindo para seu descanso.

Deus hoje te carrega para junto dele e esse caminho não será tão longo, eu sei. Sem pensar em como será a tua existência agora, digo que rezo por ti, agradecendo a Deus por não sido de um jeito ruim a tua partida. Eu vou sentir saudade porém conforta saber que estarás bem agora, seja como for a existência nesse lugar chamado céu, paraíso, enfim, nome semelhante.

Eu não consigo dizer mais nada, assim como não consegui te dizer muita coisa. Esse foi o meu reconhecimento da tua importância, não apenas racional como também emocional, para mim.

Eu te amo, vó Wally, Deus está contigo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O todo e a parte. As cores de uma, de várias lembranças.


A vontade é ir atrás, seja falando ou escrevendo, mesmo que não saísse de onde estou sentado agora. Não ficar parado, esperando o tempo passar para então, quem sabe, fazer o que pode ser feito hoje. Queria agir como agiria há alguns meses, impulsivamente, sem pensar em possíveis consequências negativas. Inconsequente nunca fui, impulsivo sim. E faz-me falta, hoje, essa falta de pensar, de refletir, de ponderar. Faz falta pois a ânsia por ouvir ou por ler está tirando qualquer réstia de concentração que poderia ter essa confusa, mas decidida e espontânea mente. Atenção, espontânea mente, duas palavras. Detalhe bobo ao qual não me apegaria se, sendo o que pudesse ser, tivesse em mente algum advérbio de intensidade motivado por um sopro de contagiante e alegre forma de vi... viver. Seja qual for a ordem das cores, o que elas pintam me faz falta. Poder olhar no fundo dessa pintura, a qual os mais exaltados poetas, e eu algum dia fui um deles, chamariam de oceano,  seria como detalhar um ponto branco em uma parede preta, sem uso da criatividade, apenas por ver, branco no preto, ou azul-esverdeado qualquer. Recomeço a frase para, quem sabe, ser entendido. Poder olhar para aquela pintura que, centímetros ao lado coexiste, seria o maior motivo de agradecimento por, no mínimo, poder abrir os olhos e ver. Os poetas nada sabem. Tampouco eu, ansioso e temerário por um não muito mais completo do que esse. Uma totalidade negativa a qual não quero chegar. Motivo maior de estar, covardemente, parado, esperando pelo contínuo e impiedoso tempo. Tempo. Tempo. Como pode tão pouco tempo ter passado, tão pouco tempo ter visto e ainda assim sentir tanta falta daquele quadro detalhadamente criado. E daquele pequeno pedaço azul-esverdeado, verde-azulado, ou qualquer outro nome que defina outra incrível criação de Deus.

domingo, 27 de junho de 2010

Histórias do Billi J. - Todos os caminhos levam à Roma. Ou melhor, à porrada.



Mais uma vez relembrando os velhos tempos de criança do Billi J., paramos no ano de mil novecentos e lá vai cacetada, em um dos maiores escândalos de arbitragem da história do futebol.

Era um torneio inter-série do colégio onde o Billi J., na época com 7 anos, estudava. Só que, como vocês bem sabem, o Billi J. nunca foi um grande futebolista, embora volta e meia acertava uma bola no ângulo do portão de sua casa. Só que treino é treino e jogo é jogo, em uma linguagem bem futebolística. Pois é, dada uma certa falta de habilidade, que só seria desenvolvida anos depois, e também falta de massa tamanho, uma vez que o Billi J. era baixo, franzino e usava óculos, o Billi J. foi escalado para apitar o jogo que decidiria qual das equipes da sua sala disputaria o campeonato.

O Billi J. gostava de futebol, mas não entendia muito as regras. Também a sua falta de tamanho seria prejudicial já que seus colegas eram todos maiores do que ele. Outra questão levantada foi o porquê de o professor de educação física ou a professora da turma não terem apitado o jogo. Dias depois surgiram boatos de que os dois tinham um caso, mesmo que ambos fossem casados, fato que foi confirmado após outros dias, gerando uma confusão na cabeça dos alunos, já que o filho da professora era colega do Billi J.. Sem mais enrolação, o Billi J. pediu para sua mãe pintar faixas verticais finas em uma camisa branca velha, recortou, pintou e montou cartões, até colocou as... bom, chuteiras não porque o torneio era de futebol de salão.

E aí? O dia chegou e o primeiro jogo seria qual? Exato, o apitado pelo Billi J.. Então as arquibancadas estavam lotadas já que a lista de presença só era passada depois do quinto jogo. Todos estavam lá para assistir ao jogo, pensou o Billi J., então ele teria de ser um bom árbitro.

Passou tempo e tal, Billi J. apitou e o jogo começou. Menos de três segundos e um dos jogadores do time com os coletes pretos deu um chute na canela de um adversário. Falta bem marcada pelo Billi J. e cartão... opa, muita reclamação por parte do time de colete preto, que faz pressão severa sobre o árbitro nanico. Os narradores da rádio do colégio já comentavam "esse árbitro não tem o controle do jogo". Pobre Billi J., esse era o começo apenas.

Cartão confirmado pelo fato de a maior pressão exercida ter sido a do time que jogava sem camisa. Jogo continou e a pancadaria comeu solta. Mas também burra a professora que separou os times de acordo com as 'gangues' da sala. Ah, vocês sabem, crianças querem mais é montar gangue, pegar um pedaço de pau e fazer de conta que é uma arma, ter um cumprimento secreto enfim, coisas desse tipo. O pau comeu solto no jogo, era chute para lá, soco para cá e o Billi J. marcando, ou tentando marcar o que desse.

Bola chutada, goleiro segura em cima da linha, jogador do time que chutou a bola dá um soco no Billi J que aponta para o centro da quadra, é gol. O comentarista da rádio aos berros "esse juiz precisa de óculos", ao passo que uma colega do Billi J. respondeu ao comentarista "ele precisa mesmo de óculos, não deixaram ele apitar com os seus".

E mais quatro gols ilegais foram assinalados, sendo dois marcados com as duas mãos, como em jogada de basquete. Dois gols legais foram mal anulados, escanteios revertidos em tiro de meta, e vice-versa. Tudo pela pressão que os grandalhões dos colegas do Billi J. exerciam. E nem um professor fazia coisa alguma. Eles até fizeram um bolão "quem baterá mais no juiz?", mas esse foi anulado por empate técnico, pois o Billi J. apanhou parelho, dos dois lados.

A sua escalação como árbitro indicava que seria algo complicado demais. Só que o Billi J. não pensou que fosse apanhar tanto. Jogadores de ambos os times acertavam socos e pontapés no Billi J. sem bola. A situação dele só piorou quando resolveu expulsar um jogador por repetidas faltas, uma vez que este já tinha cartão amarelo. Aí o Billi J. foi pressionado e cancelou o cartão. Aí depois confirmou. Cancelou, confirmou, e por aí vai.

Ninguém até hoje, nem mesmo os repórteres que estavam fazendo a transmissão para a rádio do colégio sabem dizer se o tal jogador foi expulso mesmo. Nem sabem dizer de qual dos dois times era.Também não sabem por que alguns torcedores, de séries mais avançadas, entraram em quadra para ajudar a bater no Billi J. E sequer sabem dizer como foi que o Billi J. arrumou carona quando jogadores dos dois times se uniram e correram atrás dele para bater-no mais.

O Billi J. decidiu que aposentaria seu api... bom, apito, só que o apito do Billi J. sumiu no tumulto. Decidiu também que jamais praticaria algum esporte que não fosse o xadrez. Claro, depois de duas ou três semanas para recuperar-se dos machucados.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Histórias do Billi J. - O perdão é doce como um sorvete


A infância seria a fase de maior aprendizado com os erros se as crianças tivessem a capacidade de aprender com os erros. Levando em conta que a maioria dos adultos não consegue aprender de fato com seus erros e crescer, não se pode querer que as crianças o façam. Felizmente as crianças tem essa capacidade de perdão ilimitado, de pouca lembrança das lágrimas e das decepções e sempre recomeçam as coisas de onde as fizeram parar. E o Billi J. não foi diferente, embora...

Diferente de tantos outros dias, o Billi J., então com uns 8 anos, foi bem recebido na escola. Seus colegas o cumprimentaram e tudo mais, chamaram-no para brincar e correr sem responsabilidade pelos gramados imensos e vivamente verdes da escola onde cursavam... bom, uma das séries do ensino fundamental. Mas aquela recepção calorosa, contrariando o rotineiro desprezo pelo Billi J., tinha uma explicação: se a turma respondesse à uma pergunta do professor de Matemática, ele os levaria para brincar na praça da cidade. E como o Billi J. era, provavelmente, o único capaz de responder à pergunta, ele fora bajulado durante toda a manhã por seus colegas.

O Billi J. sentia-se tão bem com toda aquela atenção que demorou segundos para responder ao difícil teste proposto pelo professor. Incrível até mesmo para ele, acostumado com desafios escolares. Pois então aqui e lá, almoço, janta e felicidade e no dia seguinte o Billi J. estava novamente na escola. A recepção não fora tão boa, mas ainda recebeu uns três ou quatro cumprimentos, dentre os quais o de uma menina... enfim, vocês sabem quem acabou sendo. E pelo cumprimento dessa menina ele foi ao céus, do alto do seu metro e pouquinho de altura. Como estava feliz...

Então tá e tá, formaram duas filas, uma de meninos e outra de meninas, para irem até a praça. Só que o seu melhor amigo Borongo(insisto que não lembro o nome dele) precisaria parar na loja de seu pai para pedir o dinheiro do sorvete, porque claro, criança que não come sorvete não é criança. E o Billi J. tinha combinado de esperá-lo para que ele não tivesse de ir até o centro sozinho, longe da turma.

Passos e tá, cantos de criança para passar o tempo mais rápido, professor que manda ninguém atravessar a rua sem olhar para os dois lados, aqui e lá e o Borongo então entrou na loja do seu pai e disse 'já volto Billi". Só que o Billi J., no alto da sua inocência ouviu um "não espera ele, pensa bem Billi J., dois amigos valem mais do que um". O Billi J. pensou, pensou e pensou. Sua cabeça era tão matemática que tinha lógica aquilo. 2>1 e problemas resolvidos.

O Borongo ficou decepcionado e o Billi J., sem perceber a gravidade da escolha que fizera, seguiu seu caminho como se fosse a coisa mais certa do mundo, afinal, não havia nada de errado em seguir a matemática. Chegando na praça, o Billi J. viu sua vida voltar ao normal. Seus colegas pegavam seus óculos e enterravam, atiravam pedras nele como se ele fosse um pássaro, uma latinha vazia ou algo do gênero e tudo mais  que crianças ruins fazem com crianças inocentes, como o Billi J. . Ao ver que Borongo chegava, ele o chamou, mas ouviu um "dois amigos valem mais do que um né Billi, fica com esses dois, ou quatro, ou seis".

Aquilo doeu. E doeu muito no Billi J., embora não tivesse a consciência completa do que acabara de acontecer, de fazer, de ouvir. Não entendia como aquilo, aquela história de amizade funcionava. Seu professor de matemática ali, sentado lendo um jornal e vendo ele ser humilhado pelos colegas sem sequer pronunciar uma palavra. Seu melhor amigo não querendo lhe ajudar porque... é. E ele ter deixado seu melhor amigo por amigos que não eram seus amigos, nunca foram e nunca seriam, decidiu.

Não era raiva, não era ódio, não era nada. O Billi J. só estava triste e nem o gesto daquela menina morena, com olhos lindos, rosto de anjo e voz tão doce quanto sorvete de chocolate poderiam fazê-lo feliz.

Estava triste por não ter sido amigo de seu melhor amigo. Não adiantou pedir desculpas, ficar próximo, chamar para conversar, brincar ou estudar o comportamento das formigas que carregavam migalhas de casquinha de...

Sorvete. Comprou um e o ofereceu a Borongo, entretanto só daria-lhe se ele lhe desculpasse.

O que aconteceu? Alguém chuta?

Pois é. Os colegas deles chegaram, tomaram o sorvete do Billi J., deram uma mordida e jogaram na cabeça do Billi J.. Borongo riu e, após mais um insistente pedido de desculpas de um arrependido Billi J., disse "tá bom Billi".

Quem dera os adultos perdoassem assim como as crianças perdoam, por um sorvete ou por um sorriso. Ou pelos dois.

domingo, 6 de junho de 2010

Antes alguma coisa à você no chão


Escolha razões, motivos, lembranças e fatos. Faça isso enquanto bebe café com leite e bolachas de água e sal. Selecione o que eu já disse e comece a dar pesos diferentes para cada uma em cada ramo desse pensamento. Você define critérios, o que importa mais ou não importa, o que importa menos ou importa de verdade. Pensa, lembra, pede ajuda a alguém. E no fim, constata e...

Comete injustiça. Você fez um julgamento e jamais lembrará de tudo. O que há de injusto nisso? Você está bebendo café, então acorda de uma vez. Pensa bem, quais lembranças vêm primeiro à mente? Não são as lágrimas que contam mais? A raiva, o rancor e toda aquela porcaria que você insiste em guardar no seu seleto espaço de lembranças. Vai dizer que não lembrou das coisas ruins antes de lembrar das boas? Vai dizer que o mais pesado não foi colocado primeiro na balança? Vai lá, admite que eu estou certo ou se mostre um ou uma anormal.

Esperarei pelos anormais. Mas só porque aprendi a ser um.

Não por pesar primeiro as coisas boas, menos pesadas e depois as coisas ruins. Não. Anormal por deixar de lado julgamento de pessoas, ambientes com ou sem pessoas, e locais, com e sem pessoas. Anormal mesmo, daquelas coisas bizarras que você só vê em programas sensacionalistas de emissoras de televisão que são patrocinadas por sites de venda e novos produtos inúteis mas que vendem muito quando são lançados apenas por serem novidades inúteis.

Não é? Não, eu já disse, você está bebendo café, por que ainda não acordou? Eu não estava mais falando sobre os produtos de emissoras (ronc) que... ah sim, acordar para a vida. Vida? Vida não, café. Viu só o que você fez, boba. Você me faz perder o raciocínio. E tudo porque? Porque eu não tenho más lembranças de você. Nem de você nem de ninguém. E nada de 20 e poucos anos aqui, porque nenhum de nós os possui. Chega de carregar pesos em costas doloridas por cadeiras duras que escolas e universidades disponibilizam. Por si só é ruim, imagine quando você pensa e suas costas doem no pensamento. Imagine não, pense e sinta essa dor. Progressiva, silenciosa e que quando torna-se insustentável, você cai e chora arrependida por não ter pedido ajuda, por não ter sido ajudado(a) ou mesmo por não ter aceitado ajuda.

Deixa de lado essa rotina de achar que tudo pode-se em si, sendo que a origem da força é deixada de lado. Você não pode esquecer dessa força. Você não precisa carregar o peso dessas mágoas. Afinal, as mulheres não gostam que a balança indique muito peso, não é? E você também não precisa julgar ninguém, contar e medir pesos leves e pesados para então decidir que atitude tomar. Que tal fechar os olhos, já que o café não adiantou mesmo, e deixar que aquela força que você tanto deixa de lado te guie.

Essa força pode ser o amor. A amizade. A confiança. O reconhecimento pelo que já se recebeu. Pode ser Deus. No fim, é tudo farinha do mesmo saco. Ou café do mesmo bule.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Como se fosse a primeira vez


Como se fosse a primeira vez. Ou da mesma maneira de uma vez ou duas, anteriores à primeira. Aquela sem conhecimento, sem saber quem ou o que é, o que faz, quais músicas gosta ou  quando perdeu os dentes de leite. Foi assim, simples, desse jeito único. Porque da primeira vez eu não lembro. Nem da vez antes da primeira. Eu só lembro depois, bem depois. Como se antes não existisse, pois diferença alguma fazia.

Ontem. Um dia que não pareceu ser o dia que acabou por ser, na beira do fim, próximo do seguinte. A noite de um dia que pode ser generalizada como o dia em um todo, sem uma noite em si. Não havia nada escuro, escondido, em fuga por motivo qualquer. Nada que voltasse tempos de dor, de sofrimento, embora esse tenha sido sentido no fim, sem razão aparente. Havia luz, muita luz.

Foi, pareceu, sem nada acontecer. De repente um grande lago se formou, a muito custo pela insistência da terra em pegar para si essa água. Vantagem nisso foi apenas não haver afogamento algum, nem sonho deixado de lado por alguma perda. Mas talvez fosse melhor jogar tudo para baixo das águas calmas e, contra a natureza, salgadas daquele lago irregular.

Nada mudou ou irá mudar. A perda é irreparável, erros em diferentes instâncias que não podem ser corrigidos, apenas colocados no papel para um dia virarem pó, como tantos outros casos já julgados, justa ou injustamente, por juízes honrados ou corruptos. Pó esse que ficará à espera de um vento, de preferência monstruoso, que espalhe por todos os cantos, de modo não haver chance alguma de lembrar o que estava escrito na terceira ou última linhas.

Um fim. Deprimente fim. Mas isso não impediu que ontem eu voltasse no tempo e lembrasse da primeira vez.

Ou como se fosse a primeira vez.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Histórias do Billi J. - Eu era, eu sou e sei que serei


Dos tempos da faculdade, o Billi J. traz à tona sempre o dia em que passou a dar valor para tudo o que havia feito. Ou seja, essa história ocorre antes disso e depois disso(p1, p2, p3, p4).(clicando nos disso você vai para as respectivas histórias e blábláblá)

Recém entrara na faculdade, longe do amor, do seu amor, da sua Renata, separado dela por uma distância que ultrapassava o gigantesco, sozinho. É, sozinho, pois seu irmão não contava, uma vez que era pirralho bobo e nada sabia, nada entendia, a não ser sobre tortinhas de baunilha, circuitos elétricos, video-games e a vizinha da frente. Que porcaria. Sozinho, muito embora essa fosse uma constante da sua vida, antes de Renata, e durante o período que esteve perto dela(e, arrependimento maldito!, longe simultaneamente). Sozinho. Sozinho. Sozinho.

Não era a sua essa história de festas. Para ser sincero, o Billi J. admitiu que a primeira festa em que foi, por vontade própria, foi aquela em que ele deixou de ser um menino e passou a ser um homem(frase dita por Michael Jordan e adaptada pelo próprio Billi), entregando e explicitando todo seu amor por Renata... ah Renata. A imagem daquele paraíso em forma feminina, daquela, agora, mulher com o jeito angelical e puro de menina, ah Renata, Renata. E como seus cabelos balançavam enquanto ela caminhava, como seus olhos brilhavam quando estava feliz...

Mas a vida era outra. E o Billi J., como eu já disse, estava só. Sentindo-se só. Odiava aglomerações e só não era antissocial por completo porque frequentava faculdade, supermercado e banco. Bom, uma vez ou outra a padaria, já que os brigadeiros daquela portuguesa com sotaque russo eram fantásticos. Ãhn, onde estava? Ah sim. Solidão, Billi J., antissocial, é, por aí.

Sem vontade, quase desistindo do seu ainda não sonho profissional, o Billi J. queria dar um fim nessa situação. Era a última vez que passaria por aquela situação que, se não era péssima, beirava o insuportável apenas. Não que fizesse alguma diferença, uma vez que o Billi J. não queria mais aquilo. Sentia-se só, estava só. Só, só, só. Só solidão. Solidão do cão que vê os donos abandonarem a casa por não pagar o aluguel. Um pouco forçado, mas não deixa de ser.

Durante o caminho, começou a lembrar da sua infância. Crianças brincando. Uma mais afastada. Deveria ser ele. É, era ele, pois era uma criança franzina, usando óculos, longe da maioria, sentada em um banco comendo a merenda e olhando para o céu, imaginando quem sabe um dia ser astronauta. Sonho de criança que o Billi J. nunca realizou. E viu naquela criança a melhor lembrança. Sempre fora diferente, sentira-se diferente, distanciava-se da maioria. Distante da maioria. Sempre e sempre.

Essa tônica desde cedo havia desgastado o Billi J. como ser humano por si em sociedade. Não pensava em mudar, apenas em como seria se não fosse tão diferente, tão estranho, tão distante da maioria. Como seria se gostasse da maioria, de conviver com a maioria, com suas generalizações e banalizações, com falsas verdades, sonhos e sentimentos ilusórios. Não, deixa para lá. A lembrança daquele menino, de si mesmo quando criança, bastava para perceber que poderia ser e viver sendo assim, desse jeito estranho.

O menino se foi, ficou para trás como se fosse parte do passado. E não deixava, mesmo, de ser apenas passado, embora muito daquele menino continuasse no Billi J. do hoje. Depois do menino, veio a lembrança da quarta, quinta ou sexta série. Não soube ao certo qual daqueles anos viera à tona na sua mente, em uma vaga mas desejada lembrança. E a permanência da diferença, agora com as brincadeiras estúpidas por parte dos outros, o menosprezo de alguns por seus ideais e convições politicamente corretos, algo difícil de manter nessa idade. O... amor. Bom, isso se resume à Renata. Nessa época já havia descoberto seu amor por ela. Já sentia o coração quase explodir em pulsações sentimentalmente sinceras. Bom, era melhor nem lembrar dela agora.

Junto com o desejo de não lembrar mais do começo de seu amor pela Renata, foi-se embora a imagem do Billi J. pré-adolescente. Como se fosse um melhores momentos, veio então a temida, mas igualmente bem-vinda, lembrança do ensino médio. Tão mais próxima do presente. Tão mais intensa, tão mais vivida. Amor e ódio, a raiva e a felicidade, a espontânea risada e os incontáveis e indescritíveis sorrisos da Renata. Ah, só pensava nela. todas as suas lembranças traziam ela consigo. E mesmo nessa retrospectiva indireta e de certa forma incontrolável, ela estava onde devia estar, onde havia estado de fato no passado do Billi J..

E do passado para o presente, longe, distante. Da felicidade que surgiu daqueles poucos momentos de intensa vivência daquele amor para a tristeza e a dor da distância, da ausência, da perda. Renata. E por ela veio tudo o que de bom conseguira fazer. Tudo o que de melhor conseguia demonstrar. Por ela, e consequentemente por si mesmo. Louco, percebeu que o ônibus havia chegado na universidade. Não teve que abrir os olhos, pois não havia dormido.

Já não sabia se tivera mesmo as lembranças ou se apenas vira em uma escola para crianças, uma de ensino fundamental e a outra de ensino médio, alguém que representava a si em tempos passados. Dúvida indiferente, pois a lembrança ou a visão lhe trouxeram vontade.

Pois a partir delas, vistas ou pensadas, voltara a sentir orgulho de sua constância e da sua persistência com suas convicções e ideais. Estava só sim, longe dela, mas e daí? O amor era o mesmo. Ele era o mesmo.

E aquilo, certamente, era um ótimo motivo para continuar, pois ele era se não tudo, pelo menos uma boa parte, do que queria ser.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Só de passagem, por uma passagem


Alguém já parou para pensar, hoje e não algum dia, em coisas feitas antigamente que hoje são grandes bobagens, por serem erros, ou que são razões para momentos de orgulho próprio, por acertos?

Sem banalidades, coisas de criança. Bobagens mesmo, atitudes que pareciam ser indispensáveis e que hoje são motivos de riso, de lamentação, de algum sentimento diferenciado, com ou sem nostalgia.
Coisas com as quais você se importava. Pessoas com as quais você importava-se, sem motivo aparente(embora com motivos que você achava serem suficientes). Atitudes tomadas em determinados momentos e que hoje são vomitadas só com a lembrança.

Ficar triste porque alguém riu de você ou rir junto quando estão querendo te humilhar. Chorar pela equipe ter ficado em segundo lugar na gincana da escola ou de emoção, pela sua paixãozinha da escola ter lhe dado bom dia. Exaltar-se com um oi ou rebaixar-se pela falta do mesmo. Subir pelas paredes de ansiedade e cair na valeta de decepção.

Situações que remetam esse tipo de coisa. Acertos que hoje são erros. Risos que hoje não são mais entendidos, lágrimas que hoje não seriam derramadas. Pensar em si, alguns anos ou mesmo meses atrás e imaginar qual seria a reação se aquilo acontecesse hoje e não naquele tempo, naquele dia, em um passado controlável apenas pelo tempo, insano e incansável.

Acho que essa é a prova de que estou ficando velho. Mais mental do que fisicamente. Mais por pensamentos e até atitudes do que por números no documento. Mais por situações vividas do que por qualquer outra coisa.

Porque velho é assim, gosta de relembrar, imaginar e pensar sempre no passado, querendo fazer relações do ontem com o hoje. Entender e concluir. Rir e chorar com passados estranhos, próximos ou longínquos. Tentar imaginar se o Pelé jogaria hoje o que jogou na época, se os Beatles fariam o mesmo sucesso hoje e se 'E o vento levou' levaria tantas pessoas ao cinema.

E pensei nisso, nessas palavras, ao lembrar de um momento, com o rádio na mochila, em que sem razão alguma, em uma conversa particular mas sem muito sentido existencial, falei algo que, tão diretamente, nunca mais senti vontade de falar.

E o pior de tudo é que eu deveria ter ficado quieto mesmo, porque sei que só falei porque era impulsivo demais.

Era. Talvez ainda seja, mas bem menos do que... era.

Estou ficando velho. Mesmo sendo novo.

Só que isso não vem ao caso.

*Eu não gostei disso. 
Não gostei desse texto. 
Faltou... um pouco.... muito mais de inspiração. 
Mas queria escrever.

**E hoje não é o texto em si, 
mas sim o conteúdo que deve ser levado em conta
na hora de colocar um comentário.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Em um céu de estrelas, apenas o fundo escuro. Onde estão as estrelas?


Estranho que em alguns meses uma foto impressa, que eu segurava em minhas mãos várias vezes por semana, ou mesmo por dia, tenha me trazido tantos bons sentimentos. Paz, calma, tranquilidade e força para continuar. Longe, mas sentindo perto. Sentimento puro.

De nada adiantou. Ou muita coisa adiantou, já que ainda estou aqui. Mas hoje revi essa foto num dos meus álbuns de fotos(online). Antes de lembrar do dia da foto, da pessoa da foto, lembrei do que aquela foto, a que segurava em minhas mãos, fez por mim. E um vazio enorme veio em mim ressurgiu.

Não há como evitar.

Eu perdi toda e qualquer palavra que escreveria. Num instante de pensamento, cantei o trecho inicial da música desse texto em voz alta. Sem intenção alguma. E as minhas palavras sumiram, sem qualquer indício do lugar onde estão agora. Talvez tenham desaparecido completamente. Talvez.

Sem palavras, não há texto. Assim como sem sinceridade não deve haver palavras. Como sem vento não há energia eólica e como não há lembrança sem passado.

Hesito em escrever algo mais. Eu já nem sei o que quero escrever. E eu nem preciso escrever mais nada. O que sinto continua. O que penso continua. Talvez tudo tenha desabado, apenas destroços restaram, mas eu continuo aqui.

Mais uma vez, sem comentários. 
Qualquer coisa, 
mande-me um email, 
recado no orkut ou via twitter. 
Quem quiser comentar o que escrevi, 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A cada dia um recomeço(7) - Quando você percebe que aprendeu por um ano em uma noite


Incrível como as mais diferentes coisas possíveis de aprendizado aparecem volta e meia nas nossas vidas. Incrível mesmo. Eu não buscava aprender e definir nada ontem. Era só uma conversa. Apenas mais uma discussão. Apenas palavras. Com raiva, mágoa, enfim, palavras. Mas aprendi tanta coisa nessa conversa raivosa e magoada, sobre o passado, que você não faz ideia.

E a grande prova de que aprendi é que provei, para mim mesmo antes de qualquer coisa, que eu não guardo mágoas. Que eu não fico remoendo tristezas passadas, dores passadas. Que eu não fico colocando as cabeçadas que dei na parede(literalmente) como coisas a serem cobradas algum dia. Algum dia como ontem à noite.

Eu só não sabia que era tão fácil.

Um dia um amigo escreveu uma pergunta e eu resolvi respondê-la. Era algo como 'por que a escuridão é sempre mais fácil de ser vista do que a luz?'. Eu respondi. E hoje a minha resposta, cujas exatas palavras a minha mente de maluco não deixa lembrar, faz muito mais sentido.

Eu sei, pois apesar de tudo também sou humano, que é muito mais fácil ver a escuridão. Ver os erros. As lágrimas. A dor. Relembrar tudo isso ao invés de priorizar e dar valor real aos bons momentos, aos sorrisos, abraços, tudo aquilo que foi bonito mesmo. Eu sei que a escuridão é a primeira coisa a surgir na mente. Eu sei.

Só que também sei que é mais cômodo ficar pensando no preto do que no branco. No escuro do que no claro. Na dor do que na alegria. É mais cômodo porque isso te dá o direito de reclamar, da vida, de Deus, do mundo, das outras pessoas. Da outra pessoa.

Eu me livrei disso. Definitivamente ontem, livrei-me disso. De mágoas, de dor, das lembranças ruins, das lágrimas, do vazio, da agonia. Livrei-me de todas essas lembranças porque isso não me afeta mais. Porque nenhum sentimento ruim é despertado quando lembro disso. Porque tudo o que me fez bem vem antes. Porque o que me fez bem é o que realmente importa. É esse o passado que eu preciso, e quero, lembrar.

Não posso fazer com que alguém se livre disso. Com que alguém passe a dar valor ao pingo de luz no meio da escuridão, mesmo que ele seja só um pingo. Pingo de luz que só os corajosos, aqueles que sentem sinceramente, conseguem reunir forças para ver, para sentir, para transformar toda a escuridão em luz à partir daquele mísero pingo.

Eu sei que é possível. Porque eu recomecei, mais uma vez, uma parte da minha história. Alguém que já não guardava mágoas consegue sorrir espontaneamente, mesmo em meio às mágoas, às dores, às lembranças de um passado que deve ficar apenas no passado.

Porque, se as más lembranças continuarem sendo prioridade, as boas lembranças devem ser esquecidas, de vez.

Se não há vontade em mudança, em crescimento, em percepção de que nada, nem ninguém, é perfeito, não há motivo para lembrar das coisas boas, daquilo que realmente foi vida.

Sinto-me melhor. Livre de mágoas, de uma vez por todas. Embora o sorriso não seja completo, a minha parte eu fiz, definitivamente. Por amor. E rezo para que as mágoas relacionadas a mim também sejam esquecidas, para que não exista a necessidade de apagar tudo o que de bom aconteceu.

Eu ainda vou enfrentar problemas, vou sofrer, vou chorar demais para ficar relembrando dores, lágrimas, mágoas passadas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O que me faz escrever?



Deixando de lado as maiores coisas a induzirem reflexões, que são o amor e a vida em si, hoje, uma semana depois da última coisa que escrevi aqui, tentei pensar no que já foi escrito, por mim(óbvio) e o que havia por trás além da vontade de escrever, da espontaneidade e da sinceridade, presentes em todos os textos.

Eu já escrevi desabafos. E como. Quem leu mais do que 5 textos aqui leu pelo menos um desabafo, certamente. Cheios de mágoa, tristeza, decepção, raiva, ou alguma coisa semelhante para a qual ainda não inventaram adjetivo ou advérbio correspondente. Desabafos, deprimentes ou engraçados, fundamentados para todos ou apenas para mim. Não importa, foram necessários.

Já escrevi coisas que acabariam sendo indiretas. Acabariam porque, no fim, as pessoas que 'deveriam' ler não leram, e não lêem, e não lerão. Coisas passadas que motivaram histórias ou aquele complexo emaranhado de frases soltas que quem lê tenta, mas não consegue entender.

Entendimento. Escrevi textos com um certo ar de arrogância, querendo que ninguém entendesse. Por mais que os comentários sejam poucos, há sempre uma busca de um seleto grupo de pessoas que enche-me de orgulho com frequentes visitas, que tentam entender. E não é culpa deles a não concretização desse entendimento. Alguns poucos foram intencionalmente complicados durante a escrita para que a generalização, errada, fosse tida como certa. Entenderam? Não, acho que não.

Já escrevi por estar feliz. O reencontro do Billi J. com a Renata foi num desses dias. Mesmo sem motivos para estar feliz, mesmo ainda incompleto, reflexivo, triste e coisas a mais, feliz por sentir algo grande, sincero, espontâneo e, sim, puro, em mim. Sentimento, ou até sentimentos, definidor de escolhas, sejam certas ou erradas.

Escrevi para agradecer. A Deus, aos amigos, à família. À vida em si, por me proporcionar tanta coisa, aprendizados, momentos de pura e simples existência e alguns de vivência intensa. Não há muito o que dizer aqui.

Escrevi. Escrevo. Escreverei. É ridículo usar o mesmo verbo em três tempos, mas nunca importei-me em ser, ou parecer, ridículo. Escrevo porque gosto, porque preciso, porque quero, porque é uma forma de aliviar alguma coisa ou mesmo de buscar respostas longínquas em palavras que, no fim, estão dentro de... mim. Não queria que rimasse.

Bom, os comentários estão aí, se alguém quiser dizer o que o faz escrever... bom. Já entenderam, pelo menos isso.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Eu já nem sei mais o que é isso


Pouco importa se a nuvem foi um dia algodão, ou se houve alguma nuvem.

Pouco importa se o ar parece vital ou é de fato indispensável.

Pouco importa pedra, flor, espinho e todo o resto do jardim.

Pouco importa se acham que a minha vida é uma grande coisa.

Pouco importa quantos exemplos de coisas boas ou certas eu posso dar.

Pouco importam todos aqueles que clamam por socorro, mas que acabam fechando seus ouvidos.

Sinceramente, pouco tem me importado o mundo.

Porque os meus sorrisos são incompletos.

Porque os dias não me agradam.

Porque as coisas não me trazem lembranças.

Porque as palavras já não aliviam mais.

Porque eu não posso ser o que os meus amigos merecem.

Porque eu erro sem saber.

Porque deixo de buscar na minha família.

Porque não consigo abrir meu coração todo para Deus.



E porque, qualquer que seja o advérbio cabível aqui, os raios do sol não chegam até mim.


É complicado dizer. É duro pensar. É angustiante sentir.
Espero um dia merecer essas pessoas que, mesmo sem saber, ainda lutam por mim.
Até quando ?

sábado, 14 de novembro de 2009

Histórias do Billi J. - Tudo sumiu, tudo se foi. Coração que volta a bater.



"Caro amigo Vini Manfio:

Era apenas mais um dia. Acordei naquele dia com a ideia de que seria mais um. 'Just another day', apenas. Rotina de sempre: acordar, ler o jornal, comer, ir par o banheiro, tirar as meias e colocar o chinelo, andar um pouco pela casa, ouvir Kinks nos lp's originais que ele comprei em um leilão na internet, enfim, o de sempre até trocar a camisa, colocar uma calça, os tênis brancos e ir para o trabalho.

Tudo estava tão... normal naquele dia. Normal de habitual, não de comum. O Sol e seu calor intenso e insuperável, as árvores sendo louvadas como maravilhas de Deus pelas sombras necessárias, as crianças indo para a escola e quase sendo atropeladas por motoristas céticos, arrogantes e estressados que acham que se chegarem 10 segundos atrasados aos 5 minutos de babação ao chefe antes do trabalho serão demitidos. As coisas estavam acontecendo como acontecem todas as manhãs.

E eu caminhando. Pensando na vida. Em como estaria o meu coração, que a Renata levou com ela para a Inglaterra. Renata. Namorei outras gurias(puts, agora acho que posso falar em mulheres, mas na época eram gurias) mas nenhuma despertou em mim algo além de um carinho. Bons momentos, mas nada que me traga imensos e sinceros sorrisos quando lembro. Pessoas legais, mas nenhuma como a Renata. E como eu sentia falta dela.

Mas então. O dia seguiu normal. O trabalho, normal. Nenhuma grande incomodação. Fiz o que tinha que fazer, almocei, voltei ao trabalho. Nada de mais. Conversei pouco com aqueles porcos hipócritas que me cercam, bando de puxa saco. Malditos. Quando podem, me ferram. Inventam coisas que não tem cabimento contra mim. Quase fui demitido várias vezes. Por isso não converso com quase ninguém.

Enfim. Era só mais um dia. Quando cheguei em casa vi um email. Da Renata. Fiquei feliz que ela tinha me mandado algo. Quando vi que era apenas uma frase quase fechei o navegador. Bom, li, óbvio. Ela pedia que eu ligasse o celular e ligasse para ela. Caramba. Eu ia gastar um bom dinheiro. Ligação internacional. Caro pra dedéu. Mas ela pediu. Talvez precisasse. Adivinha? Liguei, claro. Não aguentei. A sensação de que ela precisava falar comigo falou mais alto.

Liguei. Chamou, chamou, chamou. Estava quase desligando quando ela atendeu. O coração deu aquela bombada, foi sangue para todo o corpo em instantes. Os olhos brilharam, o sorriso veio. Alegria que contagiou meu corpo. Quase não conseguia segurar o celular. Antes que eu pudesse perguntar se ela estava bem, ela me disse que queria me ver. Eu disse que também queria ver ela, mas que não era possível no momento. Ela disse para eu ir na antiga casa dela, pois havia preparado uma surpresa para mim. Eu perguntei o que era e ela disse que, se confiava em nela, iria lá agora mesmo. Então disse que me amava e desligou.

Fiquei sem reação. Estranhei. Pensei e repensei. Por que eu iria lá? Ela não está lá. Ela mora longe daqui. Por que ainda fico alimentando esperanças? Eu continuo amando-a do mesmo jeito que passei a amá-la quando ela me disse oi pela primeira vez, há longos... sei lá. 10 anos. Ninguém no meu lugar iria. Ninguém. Fazer o que lá? Sabe-se lá quem estaria morando lá agora. Quem sabe a Gabriela, minha primeira namorada e prima da Renata. Seria bom revê-la mas, não sei. Pesei tudo que tinha na cabeça. Tudo me dizia para não ir. Mas o "se você confia em mim, vai lá" falou mais alto.

'Coração idiota, por que ainda faço o que me pede?' pensei naquele momento. Mas fui. Antes, tomei um banho, coloquei uma roupa bem normal, bem simples, e saí. No caminho tudo veio à mente. Que surpresa ela teria para mim? Se quisesse me mandar algo pelo correio, saberia meu endereço. Não fazia sentido. Mas eu estava indo. Meu coração e ela me disseram para ir. Fui. Sem pressa. Meu coração batia acelerado. Diminuí mais ainda o passo. Mas ele continuou querendo saltar pela boca. Parecia desesperado, ansioso, mas pelo que? Por uma surpresa que, no fim, não seria nada do que eu realmente gostaria?

Segui. E cheguei lá. Toquei a campainha. Ninguém atendeu. Comecei a ficar irritado. O que ela queria que eu fizesse naquela casa que parecia não ter ninguém dentro? Pensei em ligar para ela. Toquei mais duas ou três vezes a campainha. Vi a cortina se mexendo. Estão chamando a polícia, só pode. Então tentei ligar para ela. Quando começou a chamar, comecei a escutar algo tocando. A nossa música. Beautiful, do Marillion. Era essa a surpresa. Ela me trouxera aqui para escutar a nossa música. Mas ainda não fazia sentido.

Quando a maçaneta da porta começou a girar, pensei que iria ser xingado. Estava cabisbaixo, como quem diz "tá bom, não vou mais incomodar, aliás, não sei por que toquei a campainha". E aquela música foi se aproximando. E eu cantando apenas com os lábios. Quando ouvi uma voz cantando. Não, não podia ser. Eu não conseguia olhar para cima. Meu corpo estava prestes a... sei lá, me abandonar. Comecei a cantar alto aquela música, porque aquela voz parecia ser da Renata. Eu estava sonhando. Só podia. Louco, insano, sonhando com alguém que mora há milhares de quilômetros daqui.

Continuei cantando a música alto, mas aquela voz não saía. Não desaparecia. No último refrão, cantei o mais alto que pude, mas aquela voz continuou. Ela se fez presente comigo naquele momento e eu, por algum motivo, não conseguia parar de olhar para o chão. Que me levassem preso, mas eu não sairia dali enquanto a música não parasse de tocar.

Foi quando a música parou. E eu percebi que a minha ligação estava indo para a caixa de mensagem. Sem perceber, meu celular continuou chamando. Durante toda a música. Não consegui entender como, isso é praticamente impossível. Mas naquele momento fora possível. Não sei. Aquilo me trouxe de volta à vida. Meu coração batia como se fosse um pandeiro numa roda de pagode. Batia mais do que alguma coisa bate no liquidificador. Batia, pulsava, queria sair do peito. Só pela música. Por estar tocando onde estava tocando, na casa onde ela morava.

Era hora de ir embora. Quase tive um infarto, tamanha aceleração cardíaca. Eu devia estar pensando nela, apenas nela, mas conseguia pensar no porquê do meu coração quase ter explodido. E eu nem sequer vi de onde vinha a música. Meus olhos lacrimejavam. Todas as lembranças dela, aquela angústia por não vê-la há anos. Todo amor guardado. Tudo. Todo aquele desejo sincero de estar com ela. Uma lágrima caiu do meu rosto e, antes que eu levantasse a cabeça, ouvi um "Oi".

Eu estava delirando. Definitivamente. Ia ligar para o manicômio. Estava ouvindo a voz da Renata. Mas como não tinha mais nada a perder e, tendo a certeza de estar alucinado em virtude de uma simples música numa casa 'qualquer', resolvi levantar a cabeça e... quase morri Vini. Sério. Ou tinha morrido e não sabia. Ela estava na minha frente. Eu ouvia a voz dela. Mas não conseguia acreditar.

Antes que eu pudesse pensar que era um sonho, ela abriu o portão, se aproximou de mim, segurou a minha mão e, indo no fundo dos meus olhos disse "Eu voltei". Sinceramente, se algum dia o tempo parou, foi naquele instante. Eu não sabia se acreditava naquilo ou o que teria que fazer para acreditar naquele sonho. Eu não sabia de mais nada, nem qual a porcentagem de ácido acético no vinagre(lembra que eu sou engenheiro químico né?). Nada. Mente vazia.

Fazia sentido o coração quase sair do corpo, aquela ansiedade toda. Pressentimento. Dizem que existem essas coisas com pessoas que se amam. Amor sincero e mútuo. Dizem. Talvez não exista. Mas naquele momento qualquer coisa que me dissessem que o amor poderia fazer, eu acreditaria. Se dissessem para me jogar do alto do Big Ban por amor, eu me jogaria. Tudo. Faria tudo. Porque eu não sabia o que estava sentindo mais. Meus pés não tocavam mais o chão, meus olhos já não viam, minha boca não falava, meus ouvidos não ouviam. Eu parei de funcionar. Quase por completo.

Só o meu coração quase explodia. Quase explodiu. Demorei a entender que era ela mesmo. Toda aquela saudade, aquele amor, toda... todo... eu não sei. Jamais vou conseguir explicar o que senti. O que vivi naquele momento. Indescritível, literalmente. Sem palavras. Ela voltara. Para casa. Para mim. Se houvesse um ranking, eu seria o homem mais feliz do mundo. Muito mais do que alguém que ganhara na loteria, que conseguira qualquer que fosse a coisa. Eu era mais feliz que a própria felicidade. Louco, insano, feliz.

Ela tentou me explicar. Eu não pedi explicações. Nem pedi quanto tempo ela iria ficar. Mesmo assim, ela disse que havia voltado para sempre. Por mim. E pela mãe dela, claro. Não importava. Ela que voltasse por saudade daquela casa, do vira-latas, do sistema de transporte público precário. Pelo que fosse, ela voltara. E... mais linda do que nunca. E como ela é linda. E como seus cabelos balançam quando ela caminha...

O amor da minha vida Vini. Depois de tanto tempo, estava com ela novamente. E nem tínhamos sequer dado um abraço, um beijo. Apenas nos olhávamos, de mãos dadas, como namoradinhos à moda antiga. O mundo não existia mais. Meus problemas não existiam mais. A minha vida talvez não existisse mais. O mundo talvez não existisse mais. O abraço, o beijo. Os abraços e os beijos. Ficamos horas na frente da ex e agora atual casa dela. O meu amor estava comigo. Depois de tanto tempo longe, percebi que não vivi nesses anos. Apenas sobrevivi. Muito bem, mas faltava algo, faltava o amor, faltava ela.

Decidi que daquele sonho não queria acordar. E passei a vivê-lo todos os dias. Pedi demissão do meu emprego e arrumei outro, melhor e sem pessoas tão sujas quanto no antigo. Fossem quem fossem. Não importava mais quem estava ao meu lado, pois sabia que eu a veria. E só por vê-la eu perdia tudo que de ruim possuía, na cabeça e no coração.

Eu não sei como terminar essa carta. Não sei como está a sua vida, a sua cabeça, o seu coração Vini. Não sei. Não sei como está a sua faculdade, os seus amigos, sua família. Não sei Vini. Me desculpa, mas com ela aqui, momentos como esse são raros. Serão raros.

Desejo a você que consiga viver como eu agora vivo. E obrigado pela ajuda em todos os momentos ruins que passei.

Grande abraço,
Bilionárico Johansson
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