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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Histórias do Bandiolo - A simplicidade não está nos olhos de quem vê

Ele sentiu-se vingado. Sorria debochadamente como se não houvesse amanhã apenas por estar sentindo-se vingado.

Não entendeu? Explico.

Eeeeestava eu, dias atrás, andando de bicicleta - sim, agora tenho uma bicicleta - no parque desta movimentada cidade. Não que goste de fazer essa coisa de esportes, de fazer parte da tal geração saúde e, tampouco, gosto de sair para, como dizem, ver gente. Aliás, é bom deixar claro que detesto isso, acho uma grande bobagem mas o fato é que, agora, minhas preferências não importam.

Voltando.

Enquanto entrava, pedalando lentamente - com medo de levar um tombo daqueles ao passar por um tapete de pedras lisas - na pista do parque, olhei para uma menina e, como é de praxe nesse ambiente utópico em que a realidade dá lugar a uma imaginação (atualmente) superficial, achei que conhecia a pessoa. Que ela fazia parte da minha vida e, enfim, que eu já havia parado tudo o que estava fazendo, em algum momento, só para vê-la.

Então, óbvio, olhei. E olhei. Sem dar-me conta que a bicicleta continuava andando - até porque eu não seria TAPADO o suficiente para parar de pedalar (embora não lembre de ter dado algum impulso naquela coisa de duas rodas enquanto olhava admiradamente para ela) enquanto olhava, curioso ou admirado, não sei, para aquela menina. Moça. Jovem. Visão do paraíso... digo, digo. Pois é. O fato é que, após alguns segundos, o sujeito que creio ser seu namorado, chegou e... olhou para mim como se eu tivesse feito a pior coisa do mundo ao olhar para aquela beleza toda que estava ao seu lado. Me olhava como se fosse crime olhar, e apenas olhar, para alguém do sexo oposto - ainda mais, adendando minha desculpa esfarrapada, quando se pensa conhecer a pessoa.

A irritação, dele, parecia não ter fim. Pareceu começar a reclamar com ela. Ela, no entanto, sequer havia notado minha presença e, provavelmente, não estava preocupada com mais uma das crises de ciúmes bobo dele. Porque, convenhamos, nenhum cônjuge que conviva com crises de ciúmes acaba dando muita bola, depois de algum tempo, para isso e, como ela parecia ignorá-lo (sim, eu ainda olhava para el... eles), suponho que fosse uma das centenas de crises de ciúmes daquele relacionamento. O carinha lá pareceu indignado demais. Irritado, olhou para mim e movimentou os braços como quem diz 'para de olhar, bicho triste, essa maçã tem dono'. Então decidi ir contra meu instinto e seguir adiante como se ela, aquela pessoa muito atraente - a mulher, não o carinha ciumento - não estivesse lá.

Olhei para frente e, bom, alguma coisa bateu na minha cabeça logo que virei-a. Tudo bem, minha cabeça bateu em alguma coisa que, possivelmente, estava parada lá há anos. Décadas. Quem sabe séculos. Uma árvore, estátua, não sei. O fato é que bati a cabeça naquilo e fui ao chão. A bicicleta seguiu alguns metros - também aqui nada passa de suposição - até cair. Não pensei no fato em si, a batida, queda, enfim. A primeira coisa que pensei, confesso, foi nas pessoas a minha volta rindo. Olhei para os lados e, felizmente, não havia ninguém por perto. Então pensei que ela, a bonita, e ele, o ciumento, poderiam ter visto.

Procurei-os discretamente - sim, discreto foi tudo o que não fui nesse caso - e os encontrei. Ela ria, alegremente, da minha queda infantil e ele, bom, a primeira frase do texto diz tudo. Não que eu tenha blá blá blá, já disse isso. Não havia nada errado embora compreenda sua irritação. Talvez - provavelmente - eu ficaria um tanto incomodado com alguém olhando para a minha... se eu tivesse uma.

Vocês sabem que... bom, não sabem.

Eu caí, levantei, continuei pedalando e... decidi aposentar minhas voltas de bicicleta pelo parque. Tudo muito dramático, impulsivo e impensado. Tudo por conta do medo de sentir uma vergonha imensa ao reencontrar aquele casal novamente. Porque é certo que eu voltaria a olhar para a namorada dele como se não houvesse amanhã.

Então é melhor que não haja amanhã porque, eu já disse, ela tem namorado. E ele tem ciúmes de mim.

E de todo homem vivo cujo campo de visão venha a ter sua namorada em si.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Histórias do Bandiolo - Os dias em que alguma coisa parou

O início foi demais. Diferente, praticamente único. Enquanto entravam, sorrisos jorravam, olhos brilhavam, bocas babavam, uma loucura quase banal e, com o perdão da rima idiota, sem igual. Passavam pela entrada e quase não deixavam rastros. Pareciam ser carregados por nuvens tamanha falta de rastro. Barulhos estranhos faziam e isso tornava aquele momento ainda mais insano, cada vez menos parecido com qualquer outra coisa.

Vieram, entraram, fizeram sucesso. Demais. Não haviam pálidos ali. Era tudo intenso, colorido, bonito. Todos cheios de cor, branca, preta, marrom, laranja, amarelo e verde. E sei lá mais quais cores foram pintadas em quem presenciava, com a própria existência física, aquele jorrar de tons.

Chegaram, passaram, foram. Ou melhor, deveriam ter ido.

Após entrarem, não queriam mais sair. Insistiam em ficar. Os pedidos, após magnífica entrada e passagem, os teriam levado diretamente para as latas de lixo. Não quiseram sair, não pareciam querer deixar o lugar que agora era deles. Delas. Sei lá mais de quem.

Só sei que não era mais o meu lugar.

Meus dentes rangiam. Meu estômago tentava, em vão, colocar tudo para fora mas...

... tudo o que eu havia comido nos últimos sete dias insistia em permanecer dentro de mim. E eu achando que haviam sido as melhores refeições da minha vida.

Engano.

O gosto ruim que voltava após cada percepção da absoluta inércia interior dizia que era hora de tomar uma providência.

CHÁ DE BOLDO NELES!

E assim, tudo voltou ao normal.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Histórias do Bandiolo - (In)dependente

Ah, aquela velha história de independência! Como era bom sentir que de ninguém mais no mundo era dependente. Querer e poder ir atrás, buscar por si, sem auxílio nem obrigação de agradar. Que legal, demais até, ser responsável por tudo na própria vida, sejam ganhos ou gastos, conquistas ou decepções.

Poder deixar a louça suja na pia quanto tempo fosse preciso, até que a vontade de lavá-la ou a necessidade de usar alguma coisa - por tudo o que havia nos armários estar sujo - surgisse. Poder deixar a poeira tomar conta do chão, do sofá, do banheiro e até mesmo da própria cama afinal, sinceramente, quem tem sono dorme em qualquer lugar.

E assim era, e é, durante quase todo o tempo. Comprar a comida que quiser, quando sentir fome, dou um jeito nas sacolas de lixo APENAS quando não cabe mais nada dentro delas, escolher a marca mais barata de detergente e a mais cara de atum porque, bem, porque existem prioridades. Toda pessoa independente tem as suas prioridades.

O problema de ser independente é passar um tempo como pseudoindependente. Voltar às origens, como dizem por aí. Estar em um lugar que não está TOTALMENTE adaptado a si, ajeitado ao próprio gosto, enfim, passar um tempo onde há tempos não há nada de pessoal seu.

Aquela sensação de toque pessoal em tudo desce por água abaixo e indignar-se ao ponto de sair do banheiro e gritar para a responsável pelas compras:

- Manhêeeeeeee, por que a senhora comprou esse sabonete com cheiro de babosa?

De fato, até a independência deixa dependente.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Histórias do Bandiolo - A visão do saber

- Eu sei que ele sabe.

- Ele sabe?

- Sim!

- O que?

- Que eu sei?

- E o que você sabe?

- Que ele sabe.

- Não, o que você sabe que ele sabe que você sabe?

- Ãhn, repete.

- Você disse que ele sabe que você sabe alguma coisa, o que você sabe?

- Além de que eu sei que ele sabe?

- Sim.

- Eu sei.

- Como?

- Porque ele me olhou, e isso confirmou. Tentou disfarçar mas sabe que eu sei.

- O que?

- Que ele sabe que eu sei.

- Por que você sabe?

- Porque eu sei.

- Como?

- Eu vi.

- Viu?

- Sim, eu vi.

- Então você sabe mesmo.

- Sim, eu sei.

- O que?

- Que ele sabe que eu sei.

- O que?

- Eu vi. Ele viu. Só você não viu. Você e o tiozinho do espetinho.

- Então eu não sei mesmo?

- Se você não viu, você não sabe.

- Então não sei o que você sabe.

- Não sabe mesmo o que eu sei.

- Então conta, o que você sabe?

- Que aquele carinha tentou disfarçar o chute que deu no meio-fio quando tentou subir a calçada.

- SÓ isso?

- E precisava mais? Ele sabia que eu sabia. Tentou disfarçar, fingir que nada tinha acontecido mas... ele me viu. Ele sabia que eu sabia.

- E que você tinha visto.

- Exato.

- Pois é.

- Simples assim.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Histórias do Bandiolo - Ela e o feminismo

- Não, não tenho nada em mente, por que?

Ela hesitou. Aquela história de 'liberação feminina', de que 'cavalheirismo é coisa do passado' soava tão idiota naquele momento. Tanto que não conseguia dizer o que queria. Era tão feio assim convidá-lo para irem ao cinema? Não havia problemas nisso, impedimentos, para eles, só no futebol. Ah, era tão divertido vê-lo jogando.

- Por nada, nada não.

- E você, o que vai fazer?

Será que o jogo havia mudado? Que ele iria convidá-la, então?

- Eu, nada. Estou disponível para qualquer coisa.

Mais claro que isso só se ela berrasse para todos que estavam passando pela calçada algo como 'me convida para sair seu idiota'.

- É bom ter um tempo para descansar, eu gosto.

Balde de água fria.

- Quando foi a última vez que você foi no cinema?

E lá estava ela indo, indiretamente, ao ponto.

- Bah, faz tanto tempo que... eu nem lembro qual foi o filme.

Silêncio mortificante porque ele não continuou o assunto. Não teria interesse nisso? Estaria ela sendo chata? Deveria engolir velhos preconceitos que voltavam e convidá-lo? Nem ou mal, de balde passou a tanque de água fria.

- Pois é, eu também. Queria muito ir.

A deixa final. Não havia como ele não entender a indireta.

- E por que não vai?

Agora sim, vai ser a última.

- Porque não tenho companhia.

Ela olhou para ele. Ele olhou para longe. Parecia cansado. Triste. Ou era só um disfarce para um oceano de água fria.

- Mesmo que sozinha, deveria ir assistir já que você gosta tanto de filmes e tem tempo livre.

Oceano gelado, buummmmm.

Decidiu não insistir mais. Talvez ele tivesse um bom motivo. Talvez não quisesse comprometer-se e depois, sei lá, dormir no cinema. Talvez não estivesse conseguindo sorrir. Talvez não tenha percebido que ela estava beirando a insanidade para ir no cinema com ele. Talvez...

De qualquer maneira, tomou uma decisão importante: nunca mais sairia de sua boca uma frase feminista. Queria ser convidada para sair, queria receber elogios, agrados, carinho. Queria sim, ser tratada como alguém única e, enfim, dependente de amor.

Queria ser amada à moda antiga, com romantismo puro, simples. Chega dessa história de feministas histéricas. Chega de dizer que não se importa, que a hora em que quisesse iria convidar. Tentou enrolar e não conseguiu. Chega de modernidade, de novidades banais e desnecessárias. De independência inútil. Chega de descompromisso. De enganar-se por nada. De culpar os homens por tudo, mesmo quando sequer sabiam ter feito algo.

Chega dessa bobagem sem fundamento.

Sequer era uma raquítica feia e pseudossocialista para tal.

domingo, 12 de agosto de 2012

Histórias do Bandiolo - Já não sou mais eu aqui

- Bom, se não quiser dizer mais nada, vou indo porque...

- Já?

- É, acho que terminamos de conversar o que tínhamos de conversar, então...

- Você está bem?

- Sim, estou, por que?

- Você disse que ficaria mais se eu tivesse algo para dizer então... eu tenho.

- Então diga.

- O que você tem feito?

- Em que sentido?

- Em tudo.

- O de sempre, estudo, leitura, escrita, tenho feito palavras cuzadas, tentado aprender em vários sentidos, missa, orações... o de sempre.

- E alguma dessas atividades você faz acompanhado por alguém?

- Às vezes.

- E...

- Eu sei o que você quer perguntar, então pergunte logo.

- Está saindo com alguém?

- Depende de quem vai aos lugares. Às vezes saio com os amigos...

- Você entendeu.

- Não sei se preciso responder. Por que a pergunta?

- Achei que poderíamos, sei lá, sair e conversar.

- Estamos conversando.

- Ai, não se faz.

- Não sei o porquê disso agora mas não, não estou saindo com ninguém, não tenho um relacionamento com ninguém.

- É que eu...

- Você nada.

- Você nem sabe o que eu iria dizer.

- Disse pelo que imagino, logo...

- O que?

- Você sabe.

- Não estou entendendo.

- Nem eu o que você quer de mim.Conversamos sobre algo sério, impessoal, pronto, acabou, é só isso.

- Você não falaria assim se não estivesse gostando de alguém...

- Já saí da segunda série do fundamental para ainda 'gostar' de alguém e, bom, falaria sim.

- Então tem.

- Sim, e?

- É que eu pensei...

- Esquece, há coisas que precisam morrer para que outras, melhores e verdadeiras, possam surgir.

- Então não era verdadeiro?

- Eu fui, o que eu senti foi, do resto não posso falar...

- Se tem mesmo de morrer, como você disse, então morrerá outras vezes.

- Exato porém, o que você ainda não entendeu, quero que da próxima vez algo significativo, duradouro e intenso passe a existir, com a mesma pessoa, ao contrário do que aconteceu conosco.

- Por que não deu certo?

- Você deve saber, eu não penso mais nisso.

- Por que?

- Cansei de entristecer-me por isso. Pensar em porquês me desanimava, tirava a minha alegria, a minha vontade. Parei com isso quando percebi o quão mal me fazia porque, inconscientemente, eu ainda esperava.

- Mas eu...

- Claro que não, nunca disse nada, por isso eu disse 'inconscientemente'.

- Então..

- É, então é isso, não tenho mais o que dizer.

- Estou decepcionada com você.

- Porque não fiz a sua vontade? Porque o que havia entre nós acabou? Porque estou sendo sincero?

- ...

- Em nenhum momento reclamei ou menti, fiz você acreditar que as coisas voltariam ao que eram, etc. Em momento algum.

- É, mas...

- Fim.

Virou as costas e saiu. Com a convicção de que esse fim seria real.

domingo, 22 de julho de 2012

Histórias do Bandiolo - Eu que não ri se não entendi

- Eu não entendi.

Essa frase derruba a pessoa que julga ser engraçada. Toda piada bem sucedida termina em riso. Seja ela boa ou ruim. De nada adianta o humor ser inteligente e ninguém entender, mesmo que seja a melhor piada do mundo. Bom, se ninguém riu, é a pior piada do mundo.

- Mas você nunca estudou no...

- Piadas que exigem raciocínio não me agradam.

- Mas nunca ouviu falar em partidos de esquerda e de direita? Os de direita são conservadores e os de esquerda são radicais, anti-governo...

- Sim, e daí?

- Daí que a piada é ótima porque o clima da nossa cidade é como um partido de esquerda porque ou é quente ou é frio, entendeu, é um clima radical...

- O que esportes radicais tem a ver com isso?

- Não falei de esportes, o clima é radical porque não existe meio termo, ou é muito quente ou muito frio.

- Mas na explicação anterior você não colocou o 'muito' antes de quente e frio, logo...

- Vocês são exigentes demais.

- Você está exigindo que nós gargalhemos com algo que só pode ser considerado com algum sentido engraçado quando...

- Blá blá blá.

- Isso, é uma bobagem.

- Mas foi engraçado.

- Para você.

- Se foi para mim, foi para alguém.

- Você contou a piada, sua opinião ou seu riso não contam a fim de julgamento da qualidade da piada.

- Por que?

- É como se eu dissesse que meu pé é o mais bonito dos que estão pisando o chão porque...

- O meu está em cima da cadeira.

Riram.

- Não, porque...

- O meu está sobre o meu joelho.

Riram.

- Vão me deixar falar?

- Não queremos deixar você falar.

- Mas você contou uma piada sem graça então...

- Pelo menos ele tentou falar algo engraçado.

- E, apesar do fracasso absurdo, a tentativa é válida.

- Você é juiz de validez verbal?

- Do que?

- Validez verbal. Se uma sentença é válida ou não.

- Juízes dão as sentenças, não as julgam.

- Ãhn?

Entreolharam-se.

E riram pois já não sabiam mais do que estavam falando.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Histórias do Bandiolo - Pedaço de... nada

Ele estava olhando para o prato da pessoa que estava ao seu lado de um jeito... não sei descrever, era como se... não, não parecia querer o que o outro estava comendo, não estava com inveja do tamanho do bife nem... nada disso. Ele só estava olhando e...

...ele estava olhando para o prato da pessoa ao lado por algum motivo!

Sem receio, remorso, ressentimento, medo de que fosse pego e... peraí, começaram a conversar?

Por que ele olhava parecia 'secar' o prato da outra pessoa, com um olhar paranoico, sedento, faminto, sei lá mais o que, se conhecia a pessoa? Inveja? Do que?

Caramba, sério, não sei o que é pior, o cara olhando com olhos arregalados para o prato do outro ou eu, observando os dois que comiam... ou tentavam comer... sem... o que mesmo?

Ah, deixa pra lá.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Histórias do Bandiolo - Mesmo dia, mesmo dia

Todo dia, 18 horas.

Mesma seção do mesmo mercado. A padaria.

Todo dia, 18 horas, com dois reais e cinquenta centavos.

Pão cacetinho*. Meia dúzia.

Não estava preocupado para o que as pessoas que sempre o viam lá poderiam falar.

Até porque, elas também iam ao mesmo mercado na mesma hora.

18 horas.

Há tempos não sentia-se mais um paranoico compulsivo.

Mesmo que seguisse os mesmos passos todos os dias, na mesma hora dia pós dia.

Jack Nicholson foi um brilhante e compulsivo paranoico 'As good as it gets'.

Ele também poderia sê-lo, então.

Ela, a atendente da padaria, seria sua Helen Hunt.

Ele seria Jack Nicholson.

Aliás, ele já era, só faltava ela.

Hoje, ah sim, hoje iria perguntar se ela...

Parou em frente à padaria do mercado.

O mesmo mercado de cada dia.

18 horas.

Parado, viu-se olhado.

Para ela.

Sorriu e...

...começou a rir. Esqueceu o que ia dizer.

O que ia pedir.

Ela deu às costas a ele.

Ele continuava a rir.

Tudo aquilo era ridículo.

Ele era ridículo.

Porém engraçado.

Virou as costas e saiu.

Ela não sentiu sua falta.

Ele não sentiu falta dela.

Mas os curiosos que sempre o percebiam sim, eles sentiram sua falta.

Sentiram falta de quem falar.

E rir.

Agora ele ria deles.

Dela.

E de si.

Saiu, sorriu.

Que bobagem!

Aliás, que história é essa de Jack Nicholson, ein?

*para os brasileiros, pão francês

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Histórias do Bandiolo - Até os malucos vão ao psicólogo


- O senhor pode começar.

- Por onde?

- Bem, por onde quiser.

- Eu não quero falar nada, mas me disseram que o senhor poderia me ajudar.

- Qual o seu problema?

- Assim, direto?

- Pode ser, com o passar dos minutos, acabará me falando o que eu preciso saber para lhe explicar o que está acontecendo com você.

- Se é pelas minhas palavras, eu já sei o que acontece.

- Então, por que me procurou?

- Simples, eu não sei como entender por que isso está acontecendo me ajuda a...

- ...sentir-se melhor?

- Isso, o senhor até que é bom nisso.

- Bom, você está perdendo tempo, comece a falar o que está acontecendo.

- Está bem. Acabei percebendo que...

- Não, você não deve me dizer o que percebe, o que pensa ou o que entende, a menos que eu lhe pergunte. Você deve apenas contar o que está acontecendo, entendeu?

- Hum, tá bom. Nesses últimos dois anos, a minha vida tem andado sem um rumo certo. Eu mesmo não tenho certeza com relação a muitas coisas.

- Que coisas?

- Sabe aquela história de dom, para música, artes, oratória, escrita ou mesmo algum talento esportivo ou intelectual? Pois é, não tenho nada disso. Meu futuro profissional, portanto, depende muito do que me agrada e...

- ...você ainda não descobriu com o que quer trabalhar pelo resto da vida.

- Mais ou menos isso. A questão não é descobrir o que quero, mas sim o que preciso.

- Por que, ao invés de buscar o que acha que precisa você não busca o que quer?

- Porque eu também não sei o que eu quero.

- Do que você gosta?

- Não desvie do foco, não é de um teste psicológico ou daqueles testes vocacionais que preciso.

- Então continue a falar sobre o que você quer falar.

- Muito bem. Da mesma forma que não consigo sequer começar o encaminhamento da minha vida dentro de um trabalho, não consigo resolver problemas emocionais e, não me chame de débil, mentais.

- Problemas emocionais todos temos.

- O senhor é casado?

- Quem é o paciente?

- Você venceu. Então, se o senhor já viu Chaves, sabe o que é amor platônico.

- Dona Florinda e Professor Girafales.

- Isso. Pois é, sinto como se estivesse em uma situação parecida.

- Você a vê...

- ... não me interrompa! Eu a vejo, fico com cara de bobo, gaguejo, não consigo manter um assunto razoável com qualquer outra pessoa quando ela está por perto. A conheço e sei que não há em nenhum reinado desse mundo coração tão bom. Conversamos à distância...

- ...internet?

- Eu já disse, não me interrompa senão eu saio sem pagar a consulta. Sim, pela internet. Horas e horas mas quando estou perto dela não consigo conversar.

- I...

- Shhhh. O problema é que não importa o que eu diga ou o quanto demostre o que acontece comigo por causa dela, para ela, está tudo bem como está e isso talvez me incomode. É uma companhia adorável, uma pessoa simples e Deus bem sabe como pessoas simples me encantam. Só que...

- ...

- É, isso aí. Penso nela todos os dias, doutor. É como se o sol brilhasse mais a cada pensamento que me lembra aquele rosto, aquela voz e todos os momentos que passei perto dela. Eu sou um grande bobo, não sei o que fazer, tenho quase certeza de que nada posso fazer mas ainda assim isso...

- ... lhe desanima, lhe tira as forças, a motivação e consequentemente os sorrisos.

- Exato, essa foi uma boa interrupção.

- Obrigado, estou aprendendo.

- Não se empolgue.

- Bom, eu vejo que..

- Eu disse que terminei? Assim, os meus pensamentos, quando não direcionados para o que eu sinto, para a saudade da família, dos amigos e dela, bom, esses pensamentos tem me feito pensar que aquela crise dos 25 anos chegou cedo demais em mim, pois não tenho nem 20 anos.

- A tal crise existencial?

- Não devia tê-lo elogiado. Bom, é essa crise existencial, sim, ou algo próximo. É terrível pensar que, hoje, poucos são ideais que me motivam a continuar seguindo-os. É como se muito do que eu acreditasse tivesse transformado-se em...

- ...nada.

- Isso! Nada! Todo o tempo que passei amadurecendo em mim tudo aquilo que sempre vi como correto, justo e sincero, parece estar fraco. Por muito tempo busquei esse crescimento e hoje eu me pergunto 'para que tudo isso?'. É cansativo ter de aprender e mudar à partir do que se aprende, do que passa a ser o melhor.

- Há algo tomando o lugar desses ideais?

- Bom, não. E isso incomoda mais ainda. É como se estivesse me esvaziando e me tornando um pastel de ar, sem carne, frango ou qualquer outro recheio. É muita massa para pouco interior. Me sinto vazio, cheio de nada, sem rumo a seguir, sem saber como sair disso e estar sozinho...

- ... potencializa isso.

- Na trigésima potência. Bom, não vou falar de números, sei que o seu forte são as palavras audíveis.

- Obrigado pela consideração.

- ...

- Mais alguma coisa?

- Sim, estou com fome.

- Você entendeu.

- Sim, entendi. Bom, o senhor não é a primeira pessoa que me ouve e tenta entender o que está acontecendo comigo. Doutor, tem sido difícil encontrar motivação. O final de parte do meu caminho não parece ser suficiente para o que estou passando. A curto prazo algumas coisas funcionam mas... eu não consigo me concentrar, não consigo escrever, não consigo criar nada, não consigo sequer cantar sem uma letra na frente para me guiar. É como se eu tivesse um microfone e, no show mais importante da minha carreira, tivesse um ataque de pânico e desmaiasse na frente de 80 mil pessoas.

- No Maracanã?

- Não, em Wembley.

- Deve gostar de Beatles.

- Não vem ao caso. Qualquer vestígio de concentração desaparece quado percebo que posso estar começando a concentrar-me. Estudar é uma guerra contra a minha vontade, mente e corpo. Não me vejo engajado em nada e essa nulidade me enerva. Durmo mal, não consigo lembrar de qualquer sonho e, acordado, sonhar racionalmente com desejos realizados está sendo tão difícil quanto perceber que perdi muito tempo me preparando para chegar até aqui e ver que de nada adianta estar preparado no lugar errado. E sim, gosto de Beatles.

- Você está no lugar errado, então?

- Talvez esteja, talvez seja só uma fase.... E TALVEZ O SENHOR POSSA ME AJUDAR.

- Gosto do seu bom humor.

- Odeio a sua ironia, o seu sarcasmo e suas frases curtas e sem qualquer pingo de direcionamento para a resolução dos meus problemas.

- Você é um banana, um covarde.

- O senhor é um idiota arrogante que acha que, por ter estudado durante anos, sabe tudo sobre todos, generalizando casos e esquecendo que eu SOU ÚNICO! E que ninguém vive as mesmas coisas que eu.

- Você está sendo arrogante ao achar que só você passa por situação semelhante.

- Mas a maneira com que eu reajo a tudo isso deve ser única.

- Claro, você tem medo do futuro e se prende ao passado para justificar o que está acontecendo.

- Eu não mencionei meu passado.

- Não? "Tudo o que eu pensava e achava certo' - isso não é passado?

- Mas...

- E tem mais:...

- Não tem mais nada, continue com a teoria do medo do futuro.

- Bom, não há muito o que dizer. Há uma grande insegurança em você por não ter nada encaminhado, nem no campo profissional e muito menos no afetivo. Você queria ter na faculdade uma certeza de trabalho para o resto da vida e ao seu lado um pessoa com quem, pelo sentimento e por aqueles ideais sinceros que mencionou ter, gostaria de constituir família. O problema é que nada disso está sob o seu controle e isso lhe deixa inseguro, pois não é apenas pela sua vontade que passam todas essas certezas.
- Isso é passageiro, então?

- Claro, a insegurança vem com...

- ... a maturidade.

- É, e não faz diferença se você tem uma mentalidade bem avançada para a sua idade, ninguém se importa com isso e talvez sequer você ache isso uma grande coisa quando percebe que essa segurança pelo crescimento não lhe garante segurança no futuro. Você se incomoda com algum defeito ou mania que tem?

- Sou ansioso, talvez isso explique a insegurança.

- Muito bom, você já pode ir embora.

- Meus problemas não acabaram só por tê-lo ouvido falar de um ponto de vista diferente do meu sobre alguns dos problemas que considero ter.

- Não, não acabaram.

- Então?

- Sua consulta acabou.

- Ah.


sábado, 28 de maio de 2011

Histórias do Bandiolo - Mais longe do que nós


- Incrível como eles conseguem fazer o ônibus andar sem que todos estejam sentados.

Sei que ouvir isso me pareceu uma reclamação um tanto mau humorada de alguém que reclama de tudo. Até porque, quanto antes o ônibus sai, antes ele chega ao destino e nem a minha confusão com mochila, pão, bolachas e o cartão do ônibus me tirariam a vontade de chegar no horário da aula.

- E ainda por cima vamos em pé, por que não colocam mais ônibus já que aumentam o valor das passagens?

- Não sei, acho que em todos os lugares é assim.

- Claro, todo mundo aceita numa boa e os grandes amassam os pequenos.

Fato inquestionável. Fui então para o fundo do ônibus e ela, com a entrada de mais pessoas, acabou parando, em pé, ao meu lado.

- Mas eu te garanto que isso vai mudar e que daqui a pouco iremos sempre sentados.

Gente idealista e sonhadora me faz rir. Talvez porque veja parte do meu ridículo nelas.

E isso não deixa de ser engraçado.

"...and I know how I feel..."

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Histórias do Bandiolo - Como criança com a tia da peruca


Daquelas muitas reflexões sobre a existência humana perante a natureza, estavam dois amigos caminhando sozinhos no meio da multidão pelas calçadas das esquinas de qualquer lugar, analisando tudo e todos, inclusive um dos muitos cães de rua que caminhavam por ali também.

- Esse cachorro passou por tantas pessoas, olhando-as, e continuou seu rumo indiferente a elas. Quando chegou perto de mim, simplesmente parou.

- O que você acha que isso pode significar?

- Ou eu sou muito feio ou ele sentiu-se familiarizado comigo.

- Não acho.

- Não acha o que?

- Que tenha se familiarizado com você.

- Que bom.

- ...

- Peraí, por que você acha que ele não se familiarizou comigo?

- Você é muito mais feio do que ele.

- Obrigado, você é um bom amigo.

*tanto "texto" quanto música não possuem significado. 
Mas apenas a música é boa.

domingo, 3 de abril de 2011

Histórias do Bandiolo - Ah sim, você( Último Ato )


*se começa, um dia acaba. Com algumas poucas, e excepcionais, exceções. A grandeza de um pequeno gesto, de um pouco de paciência e muita atenção superam qualquer pequena cãibra ou redução de jornada de trabalho. Estranho, pequeno, bom, muito bom. Sem sabedoria e aprendizado no ouvir, porém muito disso no entender e compreender. Entendimento é dom, e ponto final.



Ato VIII


Cena I

(o velho senhor está sentado no banco do parque, tristemente pensativo, quando aparecem para conversar consigo o jovem rapaz e o jovem das ruas)

- Viemos a ti para tirar-te algumas das grandes verdades da vida ó velho tristonho. Que mal está a tirar-te o sorriso?

- A vida e a espera temporal tiraram-me o sorriso tão lentamente quanto o caminhar de uma tartaruga tão vivida quanto eu. Os anos passam e tanto eu quanto a tartaruga vamos perdendo a alegria, a vivacidade e, que Deus nos tenha piedade, o amor por tudo, inclusive pela vida.

- Tua tristeza por espera é mais amena que a minha por tão recente despedida inimaginável porém sei que deves saber disso, tamanha sabedoria de teus anos e experiência de teus verbos.

- És jovem entretanto muito perspicaz, jovem rapaz cujos olhos entram em conflito e tentam evitar as lágrimas que o tempo jamais cansará de derramar.

- E o que poderia fazer para lutar contra o tempo? Há salvação para meu coração?

- Mesmo que não saibas o que fazer, faça. Mesmo que não saibas para onde ir, vá. Tão simples e tão somente faça dos teus verbos presente e jamais condicional imaginável e planejável. A vida não te entregou o plano da despedida, certo? Então é isso, viva e lute, com coragem, mesmo que...

( coloca a mão no coração, sentindo uma grande dor )

- Que aconteces? Continue antes que meus rins entrem em conflito por minha sede incessante de descoberta dos caminhos da vida.

- Não há muito tempo para mim. Meu coração dói e não apenas como dono de sentimentos puros e verdadeiros. Minha vida terrestre chega ao fim mas antes disso quero dizer-te, jovem que o mundo maquiou com sujeira e tratou de amedrontar com rejeições e decepções, que não deves cometer o mesmo erro que eu. Dê uma nova vida a teu coração e não fique esperando por aquela que está em teu passado, tudo porque tua infância hoje não existe mais e és homem. Seja um e, se novamente teu coração bater e for tomado de ti, faça o que disse ao jovem que ao teu lado está. E o condicional entra apenas na terceira tentativa. Se ainda assim tua tristeza for maior e tua dor tomar conta de todo teu coração transformando pensamentos em mágoas, terás então o direito absoluto e indelével de sentar-te na praça e, como eu, perder o resto da vida à espera de uma volta que, assim como eu, saberás nunca acontecer.

- Por que tão duras palavras, acaso tua vida inteira não valeu as pulsações de teu coração?

- Tanto valeu que hoje estou aqui fingindo ser sábio e aconselhando dois jovens que estão sendo espelhos de meu passado em um tempo que nunca mais será presente. Antes de deixar este mundo, quero apenas lhes contar o que tenho observado nesses tantos anos de reflexão em torno da vida, do amor, do mundo.

- O que descobriste?

- O grande segredo que nem homens, nem mulheres descobriram até o presente dessas palavras mas que eu, por amor, dor e tudo no nível de extremidade radical que vivi, consegui tornar conhecido. Talvez seja uma bênção divina poder dizer-lhes que...

- O que? Conte-nos logo qual é o grande segredo desse mistério chamado vida, ao qual...

( o velho aperta ainda mais a mão no peito )

- Adeus.

( morre )

- O Dono de nossas vidas não quer que saibamos o maior segredo de sua presença indescritível, o amor. Está louco por me fazer acreditar que poderia viver e ser amor por uma frase. Rapaz imundo, deixo-te em busca de minha amada.

- Pelo que nossos ouvidos receberam deste nobre senhor, creio que não sabes o que fazer ou para onde ir, apenas será levado pelo amor e por tudo que o envolve.

- Como podes tão simples palavras serem tão diretas? Não entendo como sendo tudo que és ainda és pequeno perante o mundo e te escondes nessa sujeira e em todas essas capas que escolheu colocar para disfarçar a grandeza de teu coração e a genialidade de tua mente espontânea. Não me digas mais nada, não quero que tuas palavras me tragam à realidade de minha existência nula. Te deixo aqui para ser guiado pelo amor e para o amor. Obrigado por tua companhia que, em minúsculo contável tempo, fez de mim um jovem honrado por tê-lo como companheiro e ouso chamar-te à partir de hoje tão somente de amigo.

- Que o amor te guie.

( saem )


Cena II

( o jovem rapaz entra correndo na estação de trem )

- Senhor de aparência triste, mãos trêmulas e coração monstruoso de bondade. Velho que escondia o jogo de verdade do amor que o mundo teima em chamar de coincidência. Trapaceiro, tivesse ele dito-me antes que uma carta me esperava em minha casa e antes minha ansiedade viria e meus olhos poderiam voltar a esperar pelo amor que há em mim e que Anabelle levou consigo sem mais explicações. Aí vem o trem, com ponto temporal que traz um ponto pequeno de felicidade sonhada que será um mundo de vida quando puder vê-la.

( o trem para, Anabelle desce correndo e abraça o jovem )

- Meu coração quase parou durante todo este tempo que longe de ti estive. Meu sorriso é pequeno e meus olhos são detalhes ínfimos perto da magnitude da felicidade que sinto por poder abraçar-te, amor de meu coração e vida.

- Preciso de ti e todos esses dias lutei contra meu pai e todos seus vigias para conseguir enviar-te a carta e encontrar-te aqui.

( aparecem dois homens armados )

- Deixe a moça em paz, jovem imbecil. Teus olhos serão arrancados por minhas mãos se não a largares.

- Meu amor está comigo e não há homem nesse mundo capaz de separar-me dele. Ela me ama e eu lhe dei meu coração. Voltem para suas casas e vão em busca de um amor para si.

- Afaste-se, Anabelle. Teu pai nos deu ordem expressa de atirar nesse jovem sem vergonha se o encontrasse em tua presença.

- Digam a meu pai que irei com ele se ele se for.

- Vamos Anabelle, volte conosco e poupe o piso dessa estação do sangue sujo deste jovem.

- Nunca.

(um dos homens agarra Anabelle enquanto o outro aponta a arma na direção do jovem )

- Me prometas que nunca mais buscará estar na presença de Anabelle e pouparei tua existência de tamanha vergonha por morte em uma mísera estação de trem.

- Jamais desistirei daquela que é a dona de meu coração.

- Então adeus.

( atira no jovem que ainda consegue balbuciar algumas palavras )

- Pelo céu e pela terra, meu coração é teu, Anabelle.

( morre )

- Existe justiça em uma vida onde tenho o teu coração mas não podes ter o meu? Que justiça há em uma metade de amor que deixa de existir passando a ser brilho de estrela no céu azul de tristeza, agora e para o resto da vida, não só perceptível como radical. Meu coração dói, meu corpo dói. Sem tua presença, não serei nada.

( morre )

- Idiota ele por morrer por ela e ela por morrer por ele. Vivo só e jamais morreria por um amor que não fosse o que tenho por minha vida. Egoísta eu? Que um trovão desça dos céus sobre minha cabeça se estiver errado.

(um trovão desce dos céus e o homem é atingido,morrendo)

( todos os figurantes e o outro homem saem )


Cena III
( Michelle está trabalhando e o rapaz imundo chega correndo em sua direção )

- Não procures entender o que faço e só posso dizer-te que todo esse tempo em que tentas te aproximar foste afastada por meus pensamentos e presa distante de mim por minhas palavras pois minhas mágoas afogavam meu nariz e minha respiração terminava sem que pudesse dar a ti e a meu coração uma chance de amor. Perdoa minhas falhas e faça do amor que sei que tens por mim uma nova chance a meu despeçado coração que por ti haverá de bater.

- Nunca tive coragem de te dizer por não saber como ou porquê mas teu coração sempre bateu por mim e tua mágoa hoje deixará de existir.

- Não entendo o que queres me dizer com tão estranhas e incoerentes palavras.

- Esperas por alguém que somente vias em sua casa e que viste pela última vez na única vez em que o Sol pode tocar seu rosto e fazer de teus olhos porta de uma lembrança que nunca teve fim até hoje. Podes fazer de tuas lembranças um presente ainda melhor do que o sentimento de conforto que elas lhe traziam.

- Pela minha vida, não compreendo o que me dizes.

- Era eu que amavas. Sou eu quem tu amas. Tenho teu amor comigo e ainda deixei meu amor contigo, mesmo que com pequenas e curtas lembranças que o tempo tentou mas não conseguiu apagar.

( ele se ajoelha )

- Por que sumiste? Por que nunca me trouxe de volta à vida com a esperança de um dia rever-te? Tanto tempo te esperando e agora que pela primeira vez direciono meus olhos aos teus, vejo que és não só quem amei mas sim quem amo. A estranheza da explicação disso tudo deve ter chegado ao conhecimento daquele velho senhor que tinha todas a resposta absoluta sobre o amor e a vida. Não importa, não preciso de conhecimento quando meu coração volta a bater após anos e toda a sujeira de meu rosto e a indecência dos cortes de minha veste passa a não existir por sentir estar no céu, deitado em uma nuvem olhando para a obra mais perfeita que o Senhor dos Anjos criou.

- Minhas lágrimas podem correr agora que tenho certeza que viveste paralelamente ao tempo que desgasta e faz sumir. Eu só quero que saibas que estive longe tanto tempo e voltei irreconhecível pois...

( o jovem se levanta )

- Tua lembrança fez com que o tempo não existisse. Minha espera só foi possível porque o meu amor por ti é verdade, é dádiva, é absurdo para minha mente humana. Não quero que me expliques, não preciso de palavras quando tenho teu rosto frente meus olhos.

- Prometi aos céus e a meu coração que meus sonhos me fariam voar. Meu sonho é tua presença próxima a mim, teu amor em meu coração. Sonho e posso sim, voar.

( o rapaz segura a mão de Michelle, a beija e depois volta-se ao público )

- Há dramas incríveis e amores impossíveis. Há fé e descrença. Há vida e morte. As escolhas nos são dadas dia-pós-dia e a cada hora aceitamos e renunciamos coisas, caminhos, futuros. A cada um é dada a oportunidade de construir o futuro. A cada um é dado um amor e a busca por ele, sendo verdadeira e sincera, faz de uma vida aparentemente sem sentido uma vida cheia de vivacidade. Do banal de cada dia que vossos olhos enxergam, só o amor que é de verdade prevalece e supera tempo, distância, mágoas e, sabem os anjos se o que digo é verdade ou não, existência física. Obrigado por vossa atenção.

( olha nos olhos de Michelle, beija-a novamente.)

( as cortinas se fecham)

Fim.


*dentre mortes, dois sorrisos. Dentre eles, amor. Dentre o amor, a realidade. Dentre ela e o sonho, a verdade. Que grande loucura!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Histórias do Bandiolo - Ah sim, você( Ato VII )


( uma linha de poucos pontos faz a ligação entre o que é palavra e o que é real. Há pensamento em diversos pontos, há sentimento em apenas um )

Ato VII

Cena I

( Michelle encontra com o jovem rapaz )
- Boa tarde rapaz com tantas primaveras quanto eu, vi que estavas caminhando com o menino cujo rosto está sujo pelo mundo.

- Sim, estávamos conversando. Em hora futura estaremos conversando com um senhor a fim de tentarmos entender a relação de tempo e vida com o mais belo e indefinido dos sentimentos.

- Não entenderão, com conselhos de um velho ou de um recém nascido, o amor não pode ser segurado nas mãos e analisado com os olhos, apenas senti-lo basta.

- O dizes pois não queres reduzir sofrimento por ele, se o quisesses, iria conosco ao encontro do velho.

- E credes mesmo que ele lhe dará uma resposta definitiva?

- Se fosse esta possibilidade uma certeza, seria passado, pois já teria ouvido-o muito antes de nascer.

- Façam como queiram.

- O menino me contou que deste a ele uma cesta com morangos, que intenções tens com este gesto?

- Morreria de desgosto minha generosidade se houvesse intenção secundária em minha doação a um necessidado.

- Tua face está corada agora que mencionei-o diretamente, acaso teu coração estaria criando ligação com aquele menino que pouco tem por fora mas muito haverá de ter dentro?

- Meu coração é livre, voa com meus sonhos por meus pensamentos. Não há ligação, não há qualquer intenção, nada além de um gesto nobre que faço por...

- ...por?

- Eu o faço por algum motivo nobre, tenhas certeza disso.

- Não há razão na terra e muito menos nos mares e nos céus para que mintas para mim, vejo muito mais em teus incontroláveis gestos corporais do que tuas finitas palavras querem me dizer.

- Se vês o que realmente sinto, por que insistes com palavras?

- Não mais insistirei. Apenas estranho como podes ter por alguém aparentemente tão fechado e duro um sentimento tão espontâneo como tuas mãos inquietas e teus olhos brilhantes demonstram.

- Disse-te antes que o amor não pode ser entendido, uma vez que é livre, é independente, é puro e, como disseste, é espontâneo. Vejo naqueles olhos tristes um ser magnífico camuflado em poeira, roupas rasgadas, pés descalços e muitas barreiras passadas ainda intactas.

- Não estás longe da verdade. O tempo de meu relógio já é curto, preciso ir.

- Está bem, pode dizer-lhe por ti um recado meu?

- Dificuldade alguma encontrarei para tal.

- Obrigado. Diga-lhe que assim como ele tem dores passadas, todos temos, e que há o amor que recebemos pode derrubá-las se lhe dermos espaço...

-... e tempo.

- Isso, como soube que não seria outra minha palavra?

- Apenas soube. No mais, é uma bonita frase, terei orgulho em passá-la adiante.

- Obrigado.

(saem)

Cena II

( o velho senhor caminha pelo bosque até que encosta suas mãos em uma árvore )

- Minhas horas futuras não serão muitas, bem sei disso. Meu coração bate apenas pela esperança de vê-la novamente. Teria um fim digno se ao menos soubesse que, depois de todos esses anos, foste feliz e estiveste viva, e bem. Tão pouco, tão pouco e nada ligado a mim a não ser por uma lembrança que remete toda motivação de uma vida por um sentimento que, Deus bem sabe, não faz sentido. Tantas outras vieram e nenhuma conseguiu ser realmente um amor. Talvez tenha sido exigente mas a verdade absoluta é que em todas eu esperei sentir o mesmo que por ti, encontrar-te de alguma maneira. Felizmente não fui covarde de permitir tamanho sofrimento para com aquelas que tentaram ser novo amor em meu coração. Não seria justo ligá-las a mim sem verdadeiramente amá-las. Minha dor é amenizada por essa consciência que, mesmo tanto tempo depois, continua leve, com erros tão próprios quanto insignificantes ao mundo. Não tenho mais forças, preciso descansar um pouco.

( o senhor senta ao pé da árvore e dorme )

( fim do Ato VII )

segunda-feira, 21 de março de 2011

Histórias do Bandiolo - Ah sim, você( Ato VI )


( não sei até onde posso chegar, não sei até onde vou chegar. Nada sei, sinceramente. )

Ato VI

Cena I

( o velho senhor está sentado em um banco na praça, uma folha seca cai sobre seu colo, ele a segura, olha com atenção )

- Não sei porque ainda espero. Não passo de um completo idiota por esperar. São tantos anos, número inferior à minha idade real porém infinitamente superior a idade que sinto ter, por esperar e por não mais acreditar no rumo de minha juventude, na vivacidade de minhas longínquas ações, o amor. Por que te espero ainda? Nada queres me oferecer, nada pode te fazer querer. Nada pode algum dia te fazer olhar-me com um desejo maior, com uma busca incansável como fora a minha por tanto tempo. Não passaria de um triste hipócrita se dissesse ser passado. Se o fosse, estaria vivo, ativo, com vontade de apreciar as folhas antes de secarem e caírem das árvores. Meu passado é presente, aquilo que chamam de amor, que sentia e, como sou tolo, ainda sinto por ti é a minha tristeza, a minha mágoa, o meu amargo motivo para vir até aqui esperar por ti, sabendo que nunca mais verei-te, aqui ou em qualquer lugar, neste ou no mundo dos anjos. Não deves lembrar-te de mim, era tão pequeno perante tua presença perceptível à distância. Era apenas um detalhe na tua rica e indescritível existência. Tua companhia me deu os melhores dias e teus olhares, os melhores sonhos. Que amor estúpido pude alimentar, durante tanto tempo, por alguém que nunca se importou com isso, com minha atenção, com minha voluntariosa presença, com minhas palavras puras. Ou será que algum dia percebeste-me ou tiveste por mim algum movimento acelerado em teu coração? Mais uma vez, velho asno, por alimentar essa possibilidade irreal é que estás aqui, segurando uma folha seca no mesmo lugar. Anos, décadas neste banco para chegar à triste velhice e ainda assim continuar alimentando a esperança dos jovens tolos, apaixonados e, não menos, utópicos.


Cena II

( jovem rapaz encontra com o menino de rua)

- Tão sujo e tão mal vestido rapaz, se tua face fosse limpa, teu semblante de menino prevaleceria.

- Não vejo tanta felicidade em teu rosto, bem vestido, limpo e antes extasiado jovem. Que acontece em tua história?

- O que era sorriso hoje é lágrima, o que era vontade hoje é desânimo. Minha vida perdeu todas as cores pois meu amor partiu para longe de meus olhos e braços. E tu, por que carregas este papel na mão, por acaso há alguma criada com a presença tão suja quanto a tua que quer de ti um sentimento que, por hoje e todo o tempo que te vejo vagando por aí, não podes oferecer?

- Não há maldade em tuas palavras, do contrário faria-te engoli-las. É só um pedaço de papel com algumas letras, nada além disso. É boa educação convidar-te para uma refeição mas, como bem sabes, sou um jovem das ruas e nada posso oferecer-te como consolo senão minha inteira e sincera atenção.

- És sujo e mal vestido, porém com um coração mais valioso do que a maioria daqueles semelhantes a ti em idade e vida humana. Muito me agrada entregar-te palavras mas não sei o que dizer-te, meu coração quase não bate, meus olhos quase não se abrem e minhas pernas se arrastam por este chão manchado como teus pés. Abrindo os olhos não vejo vontade de ver e fechando-os, não vejo vontade de viver pois a lembrança de minha amada e a impossibilidade de tê-la comigo novamente fazem de mim um humano sombrio e vazio.

- Eu entendo.

- O que, como podes entender o que sinto? Por acaso já amaste, maltrapilho?

- Amor é o mais puro e incontável dos sentimentos. A dor também não pode ser comparada pois só conhece sua dimensão quem a carrega. Contudo posso afirmar-te que meu coração bateu tanto quanto o teu, que minha dor foi tão grande quanto a tua e que meus olhos, passados anos, ainda lembram a perfeição do rosto daquela por quem meu coração ainda espera, mas minha mente tenta esquecer para conseguir começar uma nova vida.

- Pois se houvesse motivação em mim, estaria espantado com tamanha descoberta. Preciso procurar um velho senhor para pedir um conselho, tamanha segurança em suas palavras. Venha comigo, acho que também podes ouvir boas palavras e ainda contar-me algo sobre tua vida que hoje não passa de remendo nessas ruas tão mal cuidadas quanto tua vida e meu coração.

( saem )

(fim do Ato VI)

sábado, 19 de março de 2011

Histórias do Bandiolo - Ah sim, você( Ato V )


(já deveria ter um final feliz, ou provavelmente infeliz, mas continuo com essa bobagem de escrever como se fossem estas bobagens uma peça teatral)

Ato V

(o menino de rua está sentado na praia, olhando para o mar)

- Cada dia que passa é um dia mais distante das palavras que ouvi, das imagens que vi, do calor que recebi e de tudo que um dia sonhei. Onde, eu só queria saber isso, onde?

(o menino olha para a Lua)

- Que queres me mostrar, Lua solitária nesse imenso céu azul escuro? Que esperas que eu diga, que estou feliz aqui e agora, imundo e sem chance alguma de prosperidade em qualquer que seja o dito espaço de minha vida? Tu que, desde o surgimento da fala humana, és musa para poetas loucos, bobos e utópicos sonhadores, que esperas que eu faça hoje, aqui e agora? Fosses tu uma estrela cadente que rasga o céu e, dizem as línguas daqueles mesmos poetas que tanto te adoram, concebe um desejo para quem a vê, te pediria não uma pessoa, não um sonho, não uma mudança, apenas e tão somente apenas uma imagem. Que meus olhos pudessem vê-la sob a tua luz e de tuas estrelas. Nem palavras ditas com tão doce voz, nem escritas em cartas cheias de carinho e sinceridade, tampouco um toque leve, sutil, suave. Apenas uma imagem, Lua distante e estranha, bola branca que todas as noites passa por minha vida sem nada deixar além do sentimento de solidão e daquela nostalgia digna de velhos mancos que desistiram de recorrer a ti como ouvinte. Tu passas e nada muda tua rotina. Agora as nuvens passam em tua frente. São fracas, ainda posso vê-la. Consegues ser tão incrível em dias como hoje. De alguma forma, fazes com que tua luz transpasse as nuvens deixando sobre elas um círculo em volta de onde estás. Como és indecifrável e admirável, Lua brilhante e distante. Se pudesses ouvir meu lamento, se pudesses limpar minha alma...

( o menino olha para o lado e vê o pequeno cesto com morangos que ganhou de Michelle )

- ... partem desses morangos tua resposta? E todos aqueles que passaram, prometeram e nunca voltaram? Todos que disseram importar-se e nenhuma palavra me dirigiram depois? Todos aqueles que aparentaram amizade mas que sequer por um momento agiram com tal valor? Queres ainda que espere por seres humanos mais limpos do que eu por fora, porém com almas e histórias mais sujas do que a minha? Se é essa tua resposta singela Lua, com o perdão de minha falta, não posso mais.

( o menino levantou-se, segurou o cesto e estava pronto para jogá-lo no mar quando percebeu um bilhete nele. Desistiu e sentou novamente, olhando para o céu, buscando entendimento)

(fim do ato V)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Histórias do Bandiolo - Ah sim, você( Ato IV )


( aprender a não esperar não serve para leitura e escrita, a não ser que você precise de um lápis ou um livro. Deixar que alguém, seja você ou qualquer outra pessoa, fazer algo para que esses dois verbos sejam atitudes suas não deixa de ser muito conveniente. Tanto quanto preguiçoso. Insisto, nada disso faz sentido )

Ato IV
Cena I

(Michelle chega em casa e encontra seu pai e sua mãe, bêbados em meio a uma já densa nuvem de fumaça de cigarro)

- Onde estavas, broto de uma noite tão sórdida quanto esta que hoje regamos, tua mãe e eu, com um pouco do manjar dos selvagens, onde estavas este teu corpo pequeno e inútil?

- A caminhar pelas ruas estreitas meu pai. O dia é lindo quando iluminado pelo Sol, mas a noite, com a lua e suas estrelas, ilumina menos, porém de um jeito todo especial. Deveriam caminhar um pouco sob o luar para apreciarem essa maravilha que lhes é permitida.

- Não venhas com tolices. Esta tua poesia não tem valor, não traz dinheiro ou comida. Não traz prosperidade a mim e tua mãe.

- Jamais prosperarão enquanto tiverdes como alimento esta bebida e estes pedaços de palha queimada encherem vossos pulmões de uma fumaça tão suja quanto o chão de nossa casa.

- Cale-se! Não tens direito algum de contestar nossas vidas. Deve-nos muito por não ter-te deixado ao relento da maldita noite de inverno que tirou de nós a liberdade de viver a juventude como merecíamos. Tão belos e vivos éramos e, somente por tua causa, perdemos tudo isso quando por maldição alheia, nasceste e nossos bons corações nos fizeram criar-te como moça de família.

- Se tivésseis bons corações, não estaríeis arruinando vossas vidas e também a minha vida. Vossos vícios e este ódio por supostamente ter-vos atrapalhado impedem-vos de viver a liberdade que ainda possuem, agora sem a responsabilidade sobre minha existência.

- Não somos mais jovens, não temos beleza e perdemos toda a vontade com anos de rotina estúpida e sufocante. Queres que vivamos uma suposta liberdade como? Não fale asneiras, estamos presos, como tu estás presa a nós, e ao nosso fracassado negócio, por toda vida.

- Tenho asas e sei que posso voar para onde meu coração quiser.

- Se tens asas, é uma galinha. Não podes voar, não és como outros jovens que podem ter o que precisam para suportar seus sonhos. Não conseguirás nunca.

- E vós, minha mãe, nada dizes?

- Serás apenas mais uma escrava deste mundo, menina. Me deixe em paz.

(Michelle sai repentinamente e vai para o quarto. Lá, abre a janela e olha para o céu)

- Sei que posso ir além. Tenho certeza de que algum dia conseguirei viver um sonho, seja meu por toda a vida ou por um momento. Trabalho muito por poucas moedas, não recebo apoio de meus pais mas, que mais poderia exigir além da vida que me conceberam e do alimento que até aqui me sustentou? Deus tenha piedade de suas palavras ásperas e sentimentos rancorosos. Eu vou viver, pois livre sou para caminhar, para sonhar, para amar.


Cena II
(o jovem está preso, e conversa com o policial)
- Por que vós me prendeis, policial? Moedas ou bens não me sobram, mas sou honesto e jamais cometi algum crime. Ou seria crime correr atrás da mulher amada?

- O pai de Anabelle me pediu que o segurasse quando visse tu próximo dela. Não te preocupes rapaz, quando o trem partir, estarás livre.

- Trem, que trem?

- Tua amada e o pai viajarão em poucos minutos.

- Não pode ser. Amo-a e recebo o mesmo sentimento daquele coração puro e cheio de bondade. Ela não me abandonaria sem prévio aviso. Ela não me abandonaria nem mesmo com um aviso de anos de antecedêcia. Que está havendo?

- Como eu, policial solitário, poderia saber disso? Mesmo que fosse conhecimento meu, não diria-te.

(o jovem vira-se, olha pela minúscula janela para fora)

- Como podes, Anabelle, ter me deixado aqui? Entendo tuas últimas palavras em meus ouvidos mas não consigo compreender por quê me deixaste aqui. Uma tristeza profunda faz-se presente e será futuro por todos os anos, vida inteira e também após a morte. Minha alma está seca com tua partida, com a distância que estás de meu coração, de meus olhos, de meus braços. Por que Anabelle, deixaste-me aqui, sem ao menos uma razão? Que tolice estou dizendo, mesmo com longas horas de explicação não entenderia, não aceitaria, não sentiria justiça nesta atitude tua. Seria culpa de teu pai? Sei que nunca gostou de mim, mas trabalhando honestamente conseguiria provar-lhe meu valor. Meus olhos doem pois minha mente antevê que não haverei de vê-la nunca mais. Não há mais dias, noites, que diferença faz a luz do Sol ou o brilho das estrelas se teu rosto não está mais próximo do meu para iluminá-lo, e teu coração não está perto do meu para fazê-lo pulsar com honestidade? Anabelle...

( encosta a cabeça contra a parede, nem ouvindo a frase do policial)

- Está solto, vá embora jovem.

( fim do Ato IV )

quinta-feira, 17 de março de 2011

Histórias do Bandiolo - Ah sim, você( Ato III )


( quando pensa-se entender, há imaginação, suposição. Quando não tenta-se entender, há a simples leitura. Muito mais do que os olhos, muito menos do que a boca. Simples assim. )

Ato III
(o menino de rua caminha pela calçada à beira mar)

Cena I

- Hoje são tantos jovens que reclamam que suas vidas não fazem sentido, que suas decepções não são superadas, que seus problemas são os maiores do mundo, e tudo por que? Ah sim, jovens como eu que, ao contrário de meu eu, reclamam pela falta de moedas para a bebedeira e a jogatina, para as mulheres e outros deleites carnais. Jovens que não importam-se em aprender mesmo com uma biblioteca particular em casa. Jovens que criticam a mãe e chegam a bater no pai. E tudo por que, jovens? Tudo por um sentimento tão sujo quanto esta barata que acabo de amassar com meu pé direito descalço. Olhem para mim, nada tenho diante do que vós tendes e não me vedes blasfemando contra Deus e contra meus falecidos pais. Tenho moedas? Não. Tenho oportunidades? Tampouco. Nada tenho e de nada do que sentis falta preciso. Minha única necessidade é, e por ventura passará anos sendo, descobrir onde ela foi parar.

( o vento sopra e as ondas do mar quebram violentamente. O menino senta, traz os joelhos para perto do peito e os envolve com os braços. )

- Reclamam de tantas injustiças, jovens, sem saber que as verdadeiras injustiças só são descobertas anos depois. Quem diria que a única vez em que pude ver aquele rosto sob o sol seria a última em que o veria? Ah sim, o amor. Os velhos o tratam como lenda utópica, os adultos o desprezam por não saberem dele viver. Os jovens, ah, jovens idiotas, prendem-se à rostos, tornozelos e mãos. Prendem-se à fortuna da família e ao encargo do patriarca. Fosse a vida justa, estaria eu feliz com a minha miséria, e ela ao meu lado, e vós estaríeis em uma miserável vida, mesmo com moedas, bens e roupas.

( entra Michelle, a vendedora da feira, carregando uma pequena cesta com morangos)

- Olá menino, se teu rosto não estivesse tão sujo, pelo tempo e pelo mundo, poderia tentar adivinhar quantas primaveras se passam desde teu nascimento.

- A sujeira de meu corpo concentra-se em meu rosto pois não encontro alegria neste presente para trazer à tona uma face sorridente e limpa. Não te importes com as primaveras de minha vida, não são tantas quanto minha máscara de poeira e sal aparenta.

- Tão só, tão sujo, tão rígido. Como consegues então, com tão pouca idade, desprezar as alegrias de um mundo cheio de vida?

- Da idade da alegria trago tristeza. Do nascimento, a solidão. Apenas meu chapéu e tudo que ele carrega trazem algum consolo às dores de minhas cicatrizes. Que queres tu, tão doce e amável, vindo ao encontro de um fardo pesado que força alguma no mundo é capaz de carregar?

- Insisto, não sejas duro com a vida do mundo e com tua própria. Se deixares de lado por um minuto todo este rancor, sei que perceberás que não precisará mais dele e quem sabe teu fardo fique um pouco menos pesado de carregar e a capa que esconde teu ser de todo o mundo, e de mim, passe a mostrar um pouco mais do que agora. Bom, apenas vim lhe entregar isto.(e entrega a ele a pequena cesta de morangos)

- Sou grato mas não posso lhe pagar sequer o minúsculo talo destes morangos.

- Não lhe cobro nada porém, se quiserdes mesmo recompensar-me, faça o que te disse, nem que seja com uma destas tantas e tão monstruosas cicatrizes que insistes em carregar para manter distante de ti todos que enviam para tua vida a fim de completá-la.

(Michelle sai, o menino fica segurando a caixa de morangos, perplexo. Segundos depois, volta a olhar para o mar, e sorri)

Cena II
 (Anabelle e seu pai estão em casa, arrumando as malas para viajarem)

- Sejas breve, Anabelle, nosso trem está na estação esperando nossa partida. Lembre-te que teremos uma vida nova agora que serei delegado em nossa nova terra.

- Peço vossa permissão meu pai para, provavelmente, pela última vez em minha vida ver meu amado.

- Jamais te daria tal permissão, contudo, como será a última vez que poderás vê-lo, serei compassivo. Fico feliz por saber que nunca mais verei-o diante dos olhos, aquele jovem não é digno de tua presença.

- Vos respeito meu pai e discordo de vossa opinião. O amo com todas as minhas forças mas não posso ir contra tua vontade, sabendo vós muito bem porque decidi ir consigo e não lutar contra todo amor que tenho por meu amado.

- Depressa, antes que eu mude de ideia.

Cena III

( Anabelle está na frente da casa do jovem, ela grita por seu nome )

- Meu amor, venha depressa!

( o jovem abre a porta e fica perplexo ao vê-la ali )

- Eu já lhe disse que não deves vir a minha casa, esta parte da cidade é muito perigosa e...

( subitamente, Anabelle o interrompe com um beijo )

- Nunca esqueças que te amo hoje, que te amei ontem e que te amarei amanhã e por todo sempre.

(ela vira-se e sai correndo. O jovem, desesperado e ainda sem assimilar o que acontece, começa a correr atrás dela)

- Bela Anabelle, dona de todos os sonhos que brotam em minha mente, espere, me diga o que está acontecendo.

- Pare de me seguir meu amor e fique com nossa última lembrança.

( um policial pensa ser o jovem um ladrão e, rapidamente, o derruba no chão. O jovem grita mas o policial tapa sua boca e o algema. Anabelle continua correndo sem olhar para trás, chorando)

(fim do Ato III)