Mostrando postagens com marcador amor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador amor. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Pedaços de um pensamento (74)


Quis, por muito tempo, voltar a um estado onde qualquer sentimento era transformado em palavra, qualquer imagem era transformada em frase e qualquer sentimento originava um parágrafo, ou mesmo um texto. Quis, de verdade, voltar a transcrever com sinceridade e espontaneidade tudo o que estava acontecendo embora, reconhecendo a mudança de situação momentânea para uma completamente diferente, aceitasse o fato de não conseguir mais ter parte de mim tão presente, pois dava a esse pedaço de papel virtual - e consequentemente ao verbo escrever - uma importância significativa em uma personalidade ainda indefinida.

O que era, ficou. Deixei de querer voltar àqueles fragmentos, por vezes surtados, de espontaneidade e sinceridade - essa, vista hoje, um tanto superficial (embora verdadeira) - por perceber que isso morreu, esse hábito, essa prática, esse gosto e, enfim, essa coisa toda de trazer a realidade, de forma inconclusiva e confusa - na maioria das vezes - faz parte do passado. O gosto pelo verbo escrever continua, com uma alteração significativa no produto final: profundidade.

Dizer que não foi nada é, de alguma forma, cuspir em um prato no qual saboreei uma deliciosa lasanha. Acontece que, e isso explica o porquê de ter chamado de rasa a sinceridade no parágrafo anterior, o passado fica gravado na memória, faz parte da história mas quando é assim, o certo a fazer é deixá-lo morrer. Assim como a origem de boa parte dos meus escritos espontâneos - e, confesso, bonitos - o transcrever toda realidade e imaginação para cá também é passado. Agonizante passado.

Que precisa descansar em paz na história, no ontem, e penso que há algumas semanas o tenho deixado apodrecer embaixo da terra. Deixar morrer não é renegar o que aconteceu ou insinuar que, nesse caso, trazer a vida e a imaginação para cá sempre fora um erro. Jamais. Acontece que isso passou. Esse hábito precisa morrer para que novidades surjam e, quem sabe, até mesmo consiga levar minhas palavras a um nível mais significativo aos olhos dos outros - uma vez que considero que apenas os meus conseguem ver algum sentido nisso tudo.

Deixar aquela ideia de voltar ao passado, no escrever, é deixar também - e definitivamente - a origem de grande parte disso. De maneira alguma é sensato pensar que, desde aquele tempo, tudo gira em torno do passado e que ele ainda faz parte do presente. Não. A lamentação pela ausência de palavras espontâneas leva, invariavelmente, ao que gerava-as no passado. E isso não é ruim, apenas um erro infantil pois aquele passado não faz parte do presente há um enorme tempo.

Sentimentos surgem, paixões diversas aparecem e, assim como amizades, são transitórias. A vida é passageira pois o tempo é linear e não perdoa descuidos. Ele passa. A história foi escrita e estará sempre gravada entretanto só é permitido continuar escrevendo-a, acrescentando capítulos e novos personagens, quando capítulos anteriores são encerrados e personagens antigos - e fora de todo o contexto do presente da história - deixam de ser arrastados, agonizantes, para frente.

Estou feliz por, finalmente, ter deixado de querer escrever como em tempos atrás. Aqueles capítulos passavam, as semelhanças não passam de meras coincidências e...

... bom mesmo é saber que não preciso de mais tempo para ter certeza de tudo o que quero, e preciso, escrever nesse capítulo.

Capítulo que promete ser o mais difícil dessa história. Mais responsabilidades, exigências, preocupações. Mas também será o melhor porque o pouco tempo, até agora, já foi o suficiente para saber que a sinceridade não é rasa.

Assim como a espontaneidade, embora ainda pouca, não existe por si só. O motivo é diferente, o amor é diferente, a alegria é diferente. Amor mais intenso, que requer mais de mim.

Amor que requer, e merece, palavras melhores. Um eu melhor.

Obrigado ao Amor pelo amor que me fez voltar a sorrir... espontaneamente ao longo dos dias.

domingo, 18 de setembro de 2011

Pedaços de um pensamento (26)


Vejo que hoje, e é bem provável que sempre, me falta capacidade de expressão, mesmo em situações corriqueiras. Deixando de escrever palavras um tanto figurativas posso dizer que me sinto, muitas vezes, um bobo por completo quando tenho a oportunidade e não sei expressar, palavras, gestos e, óbvio, sentimentos, às outras pessoas. Andando sozinho pelas ruas nas esquinas de qualquer lugar fica fácil 'pensar alto' - o que, em suma é o famoso falar de mim para comigo - e dizer que 'esse momento ao seu lado, por mais simples que possa ser, me faz acreditar que o sublime está sim em cada palavra, em cada gesto e em cada olhar seu'.

Isso em mim irrita a mim. Muito. Por que é tão fácil dizer que um momento é tão único quando não estou mais vivendo aquele momento? O inútil dom do arrependimento não corrige uma falha de personalidade que impede que demonstrações verdadeiras - e tão simples! - sejam levadas para fora de uma mente que não cansa de querer.

Além das palavras há a repressão - por assim dizer - do que está acontecendo dentro da mente, e à partir do coração. É um instinto humano que deve indicar algo como medo, receio ou ansiedade por desconhecer o que virá em contrapartida pelo gesto - ou palavra, demonstração. E se não consigo sorrir ou mesmo pronunciar frase qualquer não é porque aquele é um momento difícil e sim porque eu, dentre as muitas limitações, não consigo me soltar quando quero ser melhor, quando quero falar melhor, quando quero me expressar melhor.

Sublime. Em uma tarde de sábado, em alguns passos, um motivo que nunca muda.

Acima do incrível, do indescritível, do magnífico.

Ainda assim, tão somente sublime.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Histórias do Billi J. - Há um final? Não, há um amor


- Amor.

- Oi.

- Já parou para pensar que isso pode um dia acabar?

Billi e Renata estavam sentados no sofá, em um daqueles momentos que tanto faz o que está passando na televisão, se está chovendo canivete ou se algum primo chato está no outro sofá comentando tudo sobre o que sua mãe disse de outras pessoas quando estava no cabeleireiro. Não há como se surpreender com uma pergunta daquelas, vinda de uma Renata que sempre indagou sobre tudo. Ainda assim, Billi não queria entrar no mérito da questão e tentou não levar adiante o assunto. Afinal, estava tão bom como estava, por que fazer perguntas que não acrescentam nada?

- Rê, sabe, em qual final você acha que eu deveria pensar?

- Não é no fim, mas na possibilidade de fim.

- Do que?

- Disso tudo.

- Disso?

- É, o namoro, o amor, sei lá, a nossa relação próxima...

- E por que teria que acabar?

- Não é você que diz que tudo tem um fim?

- Mas é diferente.

Para quem não queria estender o assunto, ele percebeu após dizer 'é diferente' que uma longa explicação seria necessária para acalmar a inquietude dela.

- Diferente como?

- Nos conhecemos há muito tempo, não acho que no nosso caso vai ter um fim.

- E se você ou eu conhecermos alguém que mexa conosco de um jeito diferente?

- Uma nova paixão?

- Ou um novo amor.

- Olha, passamos anos longe um do outro e até imaginei estar apaixonado uma ou duas vezes mas... sabe, é diferente. Não me vi, em momento algum, querendo estar do lado de outras pessoas como quero estar ao seu lado.

- E se eu não quiser mais?

- Vai ser difícil mas, quero que você seja feliz, acima de qualquer felicidade própria.

- Você fugiu da minha pergunta. Você já pensou que pode acabar?

- Penso agora. O namoro pode acabar, podemos nos afastar, ficar sem conversar, sem ver um ao outro...

- Então tudo tem um fim, mesmo.

- Inquieta, calma! Você não me deixou dizer que, apesar de imaginar que possa não estar ao seu lado para sempre, jamais imagino, porque não creio que exista essa possibilidade, que possa amar alguém como amo você.

- Como não existe essa possibilidade?

- Já faz tanto tempo que te conheço que... bom, desde que te conheci me senti diferente. Pequeno e ingênuo, não sabia o que acontecia mas sempre sorria quando te via. O tempo foi passando e, com crescimento e maturidade, percebo que não amo você porque você é linda, porque é simpática, porque é inteligente, engraçada, dedicada e tudo mais. Ou melhor, amo você também por isso, mas não principalmente, entende?

- Então me ama por que?

- Quero que você seja feliz, que realize sonhos, que esteja sempre bem. Me preocupo mais com você do que comigo, não tenho dúvidas disso. E eu amo você porque eu amo você, não existe condicional, característica ou explicação. Amor é uma coisa estranha porque com o tempo você distingue ele de encantamento, paixão, carinho e do gostar. Eu amo você, Renata, não tem um porque dissertado ou explicado. Não tenho condicional, não tenho razão, tenho apenas um sentimento sincero, único, grande, simples e puro.

Billi percebeu que, enquanto falava, Renata não apenas ouvia, como sentia cada palavra que ele dizia.

- Muita gente me disse, sempre, que não daria certo, que éramos muito diferentes, que eu era...

- ... boa demais pra mim, bonita demais pra mim, inteligente demais pra mim?
- Isso. Nenhum deles sabe o quanto eu senti a sua falta estando tanto tempo na Inglaterra. Você me disse uma vez, por telefone, que me esperaria o tempo que fosse preciso, se eu te pedisse.

- Sim.

- E por muito tempo quis te pedir mas não queria te prender. Eu precisava de você mas não podia te amarrar a mim sem saber sequer se voltaria para cá.

Enquanto Renata falava, Billi a olhava como se estivessem se encontrando depois de muito tempo longes um do outro.

- Só que...

Renata ficou em silêncio.

- Só que o que?

- Você sabe que eu pedi para que você esperasse por mim.

- Sim.

- E você nunca pensou que poderia não dar certo e que poderia estar perdendo tempo de conhecer uma pessoa que te desse todo o amor que eu não podia te dar por estar longe?

- Não, nunca pensei. Depois que você me disse 'espera por mim' eu não consegui mais me aproximar de ninguém de um jeito mais íntimo do que simples amizade.

- E se não desse certo?
- As coisas tem um tempo certo. Por sentir por você algo que tinha, e tenho, certeza que nunca sentiria por ninguém, aceitei esperar e com isso o amor foi amadurecendo. A espera é difícil mas é um obstáculo muito pequeno quando há amor, de verdade. Esperaria muito mais tempo, se fosse preciso. Eu amo você, Renata, isso não vai mudar. Nem com tempo, nem com a distância.

- Eu sei, já teria mudado, se fosse possível. Eu amo você, meu amor.

Aquela tarde monótona, aquela televisão inútil, aquele primo chato, nada disso parecia existir. Estavam um ao lado do outro e os olhares se encontravam para logo em seguida tomarem a mesma direção. Os olhos se abriam e se fechavam. Ao mesmo tempo, com a mesma velocidade, nas mesmas direções. 

Sabe-se lá como descrever o que existia entre eles.

sábado, 5 de março de 2011

Pedaços de um pensamento (8)


Foi-se o tango inconstante beirante, em questão de único passo, do tudo e o nada, a intensidade e a monotonia, a alegria e decepção. Não importa muito se não há definição clara e objetiva do que hoje ritma a dança. Até porque, não há sequer definição de qualquer coisa. Encaminhamento por conveniência não é válido, o incerto domina e o medo de que acabemos sentados, cada um de um lado do salão, impede de um simples 'então será assim'. Não há mais tempo para ensaio de passos, para uma tranquila e progressiva evolução. Tão somente o hoje é conduzido com algumas lembranças boas, uma ou outra segurança natural, um pouco de ajuda externa e muita vontade de que no final ninguém, incluindo-nos nesse grupo, lembre que algum dia pisamos nos pés do outro, atrapalhando o que poderia ser um espetáculo mas acabou sendo... uma grande confusão, sem chances de receber um elogio. Sem a necessidade dos aplausos antes, durante ou depois, fica muito mais fácil conduzir um passo aqui e outro ali. Muito mais do que querer esquecer o que foi, ou não foi, há um desejo de que, seja como for, os passos acompanhem o ritmo que devem acompanhar. É aquela história de acreditar que se for para ser uma grande apresentação, assim o será, mesmo que demore algum ou muito tempo. Por mais que a paciência seja um fator determinante para que novos erros não sejam cometidos, não há um marasmo que impeça o surgimento de novos passos, para frente ou para trás, direita, esquerda ou diagonal qualquer. Estamos assim, dançando como ensaio, quem sabe um dia veremos o começo de um espetáculo. Ou não, as possibilidades são muitas. O período da loucura impulsiva do tango passou, felizmente. Talvez hoje esses passos sejam de uma clássica valsa.

Ao final da música, quem sabe tocada em um piano também clássico, desejo sinceramente que haja um sorriso no rosto. Mesmo que eu tenha de aplaudir sentado em um dos cantos, e não no centro, do salão.

*I'm so happy when you dance with me

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Incertos segundos


Cada segundo alongado torna o estado presente, e passado, maior. Período cada vez mais longo, sem expectativa de término. Duração indefinida que impede qualquer certeza sobre algo que não seja passado. Com uma convicção real, diversas dúvidas inescrupulosas, a falta de discernimento sobre o que realmente acontecerá e a impossibilidade de descobrir o que fazer. Imaginar o presente como tempo e contexto certo faz muito sentido, não só por estar vivendo-o mas também por todas as coisas que cercam esse viver presente. Passado quase distante, ainda digno de remorso e arrependimento, cuja lembrança acaba tornando sensata a impressão de que não teria sido o que hoje pode ser. Imaginar erros longe do presente em direção ao passado, cujas marcas na lembrança são feitas pela angústia de nada poder fazer é fácil, e condiz com o que hoje é motivo de reflexão.  Impossível retirar explicação inútil e justificativa estúpida do meio disso, ou seja, é desnecessário querer ir contra toda essa verdade que jamais deveria ter sido coisa qualquer, menos ainda uma falsa verdade. Entretanto, sentir a falta de, imaginar-se, e ter a convicção de que, remetem a complementos diferentes dos que complementavam essas frases pessoais no passado. A dura e sofrível admissão do que vinha a estar, o que outrora remetia ao próprio ego, buscando uma salvação alheia para então salvar a própria alma, hoje remete à salvação de qualquer alma, qualquer coração ou, em menor escala, qualquer mente, para então conseguir, com muita misericórdia Divina, salvar a alma, e consequentemente o ego. Não que a salvação do ego esteja sendo importante nos últimos, sei lá, 15 meses. E não, também, que alguém em especial não seja o verdadeiro motivo de todo esse pensar, dessa análise um tanto improdutiva porém instigante.

De tudo a mais ou menos, não consigo imaginar a minha vida sem o motivo dessas, e de tantas outras palavras que escondem algo que é muito maior do que qualquer outro algo que outrora tenha me motivado. O meu presente, sendo estado de vida ou recebimento por qualquer razão(quem sabe uma boa vontade do Criador) seria sim, aquela que há muito tempo deixou de ser também uma razão, concentrando-se apenas em uma emoção. Sendo, (ah não!) então, A emoção.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O silêncio, as lágrimas.


Eu não tenho tantas palavras para escrever. Não tenho muitas palavras para te escrever. Também não quero parecer ter sido alguém que não fui para pessoas que não me conhecem e não te conheceram. Não adianta dizer-te agora que me arrependo por tempo passado e não aproveitado. Tampouco as minhas lembranças possíveis de palavras de apoio e ensino serão muitas. Sabes que é verdade. Sei que também isso não faz diferença, como nunca fez.

Não fosses tu, eu não estaria aqui. Eu não existiria. É uma maneira bem racional e um tanto quanto boba de tentar fazer o que não fiz em anos: reconhecer.

Agora que caio na realidade, perdendo o maldito senso de imortalidade que tenho pelas pessoas próximas a mim, choro por lembrar que no Natal não estarás mais conosco. Que não me receberá de braços abertos, enfim, que não escreverá mais nada no meu livro. A lembrança mais marcante que tenho de ti é só minha, já que ninguém mais sabe. Sim, as latinhas no chão e a tardia percepção da importância daquilo. Não tanto pelo fato em si, mas sim pelo entendimento, infelizmente vindo apenas anos depois. Sabes que talvez seja só um fato qualquer, uma história qualquer. É, talvez seja. Não importa.Guardo aquilo com importância, como uma lembrança própria.
 
Eu não tenho o conhecimento suficiente para dizer ao certo como eras, o que fazias, enfim, essas coisas que constam em qualquer homenagem. Poucos foram os dias em que conversamos. Menos ainda foram os momentos de conversa, já que nenhum dos dois puxava um assunto que não caísse no lugar comum. Sabes que tenho sim dificuldade para iniciar uma conversa qualquer com alguém que não vejo todo dia. Contigo era assim mesmo.

Também não vou te pedir desculpa, porque não acho que algum dia tenha feito algo muito errado para tanto. Até porque, se fiz, levei um puxão de orelha da tua filha e pedi desculpa no ato. Tampouco ajuda dizer que queria ter sido melhor contigo. Porque não acho que eu não tenha sido bom o suficiente. Eu só não o fui por muito tempo, por muitos momentos. Não vou ficar alongando palavras para mostrar um arrependimento que é só meu, mas que não é de todo verdade pois cada dia é uma história e se o futuro fosse conhecido, certamente você teria mais páginas no meu livro.

Cai por terra em dias como hoje o senso de imortalidade que acho que muitos como eu possuem. Aquele senso de que aconteça o que acontecer, vocês, senhores de idades com cabelos brancos e palavras sábias, estarão lá, sempre com um sorriso para nos receber. Cai por terra o humano, ressurge o cristão, aquele que entende que a morte é apenas a passagem para a verdadeira vida, com Jesus e todos aqueles que por aqui já passaram e que mereceram um lugar lindo para seu descanso.

Deus hoje te carrega para junto dele e esse caminho não será tão longo, eu sei. Sem pensar em como será a tua existência agora, digo que rezo por ti, agradecendo a Deus por não sido de um jeito ruim a tua partida. Eu vou sentir saudade porém conforta saber que estarás bem agora, seja como for a existência nesse lugar chamado céu, paraíso, enfim, nome semelhante.

Eu não consigo dizer mais nada, assim como não consegui te dizer muita coisa. Esse foi o meu reconhecimento da tua importância, não apenas racional como também emocional, para mim.

Eu te amo, vó Wally, Deus está contigo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Histórias de uma vida não vivida(22)


*Odiava listas. Os melhores disso, os piores daquilo. Listas nostálgicas eram piores ainda. O melhor beijo, os maiores fiascos, as melhores noites de sábado. Odiava colocar em ordem qualquer coisa que fosse. Talvez porque sua mente era uma bagunça constantemente aumentada por coisas e coisas. Errado não estava, pois não perdia tempo algum no passado. Sem sonhos até que a lenda do cupido passou a ser um momento, o seu momento. Odiava listas mas não escondia que aquele era o dia mais feliz, e inesperado que já havia vivido. Um começo no fim, sem importar-se com o fim propriamente dito, se é que haveria um fim. Sem importar-se com a possibilidade de tudo não passar de um sonho de alguém que jamais havia sonhado.

Lendo um livro para um trabalho que precisava fazer, ouviu seu celular tocando. Tendo em mente que só recebia ligações quando, ou precisavam de sua ajuda ou alguma coisa ruim havia acontecido, temeu pelo pior. Não poderia parar de ler para ajudar alguém, mas dificilmente negaria se fosse o caso.

- Alô?!
- Ei, vai fazer o que hoje de noite?
- Estudar.
- Tá brincando? Hoje é sexta, dia de descansar, de ir para a festa ou ao menos ficar sem fazer nada.
- Não posso.
- Sem frescura, vem aqui em casa jantar.

Não poderia ser verdade, aquele era um de seus novos amigos da faculdade, não fazia sentido ele lhe convidar para jantar. Além disso, a sua... bom a sua companheira, para não dizer outra coisa, que não era nada além de companheira mesmo, poderia ligar para conversarem sobre os desentendimentos dos últimos dias.

- Deixa para outro dia, não posso hoje.
- Por que tá falando assim?
- Porque as pessoas só me ligam quando tem uma notícia ruim para contar ou quando precisam da minha ajuda.
- Eu não liguei por nenhum desses motivos. Liguei porque quero que você venha jantar comigo e com a minha família. Talvez a...

Aí a coisa mudou de figura. Aquele "a" indicava que ela poderia estar lá, uma vez que ele, seu colega, e ela, sua... enfim.
- Talvez?
- Sabia que isso ajudaria na tua decisão. Oito horas aqui em casa. Tão tá.

É, ele sabia mesmo que pesaria na decisão saber que a... bom, que ela estaria lá. Mesmo que fosse só uma possibilidade. Então é óbvio que, depois disso, não havia mais livro, não havia mais louça para lavar ou roupa para dobrar e guardar. Só pensava naquela janta e na possibilidade de ver a... de vê-la. Toda essa empolgação ia contra suas recaídas com pensamentos de "que bobagem, ela não estará lá".

Minutos passam, completam horas e já eram 20 passadas daquele dia. Chegou na casa do amigo e logo de cara viu que a... que... bem, que ela estava lá. Nem teve tempo de se apresentar e ela, para a surpresa de todos os presentes, pais, tios, avós, o colega e a vizinha fofoqueira, correu ao seu encontro e disse com boa entonação:
- Família, esse é o meu namorado.

Ãhn? Nem bem se conheciam, nem bem tinham passado algumas horas juntos, nem bem sabiam algo sobre o outro. E ainda por cima discutiram sem razões justificáveis nas últimas vezes em que se encontraram. Não se viam há seis dias, ela havia deixado claro que aquilo, fosse lá o que estivesse sendo, não iria longe. E agora isso, namorados? Era demais para uma só noite, para um só sujeito, para um só jantar.

Antes que pudesse falar ou balbuciar uma palavra, começou a rir. Mas ria como se fosse criança vendo uma outra criança escorregando em uma nasca de bacana, digo, em uma casca de banana. Ria incontrolavelmente como bobo, talvez porque fosse assim que sentira-se ao ouvir que, sem saber tinha agora uma namorada. Não que sua vontade fosse outra, mas poderia ter sido avisado antes.

Tentavam perguntar-lhe algumas coisas mas ele não conseguia fazer nada além de rir. Risadas que tentavam ser, em vão, engolidas, esquecidas. Ninguém entendia o porquê. Nem ele, nem seu colega, nem a sua... namorada. Bah, essa era realmente nova. Mas não, não... não o que mesmo? Ah sim, não fazia sentido. Hahaha, e ria como criança quando ganha chocolate, como adulto quando acha uma nota de dois reais no chão, como um senhor de idade quando vê seus netos sujando-se na lama.

Ria, sem compreender ao certo aquilo. Achando engraçado cada parte daquela comédia digna de Shakespeare, ou algo próximo e atualizado. A apresentação, o compromisso, o espanto seu e de todos, a ligação, o entusiasmo, o trabalho que precisava ser feito. Não sabia mais ordenar o passado e o momento presente.

E sorriu, feliz.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O vazio de viver e só


O vento lá fora faz barulhos semelhantes aos uivos dos lobos. Sei que a culpa não é dele, vento, pois não faz barulho, é discreto, solitário. Ah sim, aquela fresta da janela que não consigo fechar. Por sua causa ouço ruídos de alguém que não faz ruídos. As leis da Física podem explicar por que pequenas frestas geram tantos ruídos, não eu. Não vem ao caso. Decido parar de escutar essa barulheira do mudo vento e saio de casa. Caminho sozinho pelas ruas desertas da capital. Inacreditável mas real. Não por ser feriado, por alguma greve ou bobagem semelhante. Ninguém está presente na rua porque o vento, novamente ele, é forte, é consistente e, mesmo solitário, é decidido e voraz. Ninguém quer estragar o cabelo, a roupa, deixar que ciscos entrem em seus olhos, ninguém quer, exceto eu. Pouco importa a mim o que importa aos outros, meu corpo é apenas corpo. Pouco importa também que o vento leve o meu calor consigo, dissipando-o e esparramando-o até que não haja mais vestígio do calor que antes era meu. Insisto, pouco importa-me não ter mais o calor que meu próprio corpo, com o qual também pouco importo-me nesse momento, gerou. Quando percebi, havia levado além do meu calor, parte importante da minha felicidade, sem que eu pudesse vivê-la concretamente. Mas sei que o vento não tem culpa. Pouco importa a chuva iminente, o vento cada vez mais vigoroso, o cansaço cada vez maior. Pouco importa-me eu, no meu caminho inconstante, nos meus aprendizados inúteis, em mais uma tristeza velada e enterrada, em todas as lições reaprendidas seguidamente e sem necessidade. Sem importar-me com coisa alguma, luto contra o vento que nem sabe que existo, mas que levou parte de mim. Sem forças, luto contra mim, contra meu passado enterrado, contra mais uma dor que tira de mim o sorriso, a força, a vontade e, céus, a espontaneidade. Não sei por que o vento não leva, ao invés do meu calor, o meu coração, uma vez que não sei por que ainda o guardo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Histórias do Bandiolo - Plano imperfeito. Felizmente imperfeito.


A menina escolheu o outro. Mais jovem, mais simpático, mais engraçado e com uma aparência melhor, mais atrativa. A menina o escolheu por isso, ou por nada disso. Sem sentimento, apenas aparência, o que ela negava. Esse não era o problema. Ela achava que ele, o outro, o mais jovem, era príncipe, era rei, era tudo que pudesse representar o máximo no meio dos mínimos. O outro que não o mais jovem era passado, aliás, nunca fora passado.

Ele, o outro, o mais velho, decidiu vingar-se. Não passou pela sua cabeça agressão física ou retaliação verbal ou de qualquer outra espécie. Não mesmo, isso era para os fracos. Sequer reclamou. Mas jurou, para si mesmo e para um mendigo que ouviu seus lamentos que iria vingar-se, que iria dar o troco naquele idiota que tanto fez para conseguir tirar o que era seu. Aquela que era sua. Idiota, só pela aparência. E ela, boba, ingênua, iludida com promessas, que assim como as políticas, jamais serão cumpridas.

Pensou, refletiu, perguntou ao bêbado quando encontrou-o novamente na praça tomando cachaça mas nada o ajudava. Era o mau sentimento, era a maldade na ação, na intenção, só podia ser isso. Castigo por querer vingança. Ainda assim não desistiu. Ônibus, carro e bicicleta, de todos os jeitos andou, buscando inspiração. Até pensou em atropelá-lo, mas não seria o suficiente.

Um dia, voltando para casa aos chutes em pedrinhas, encontrou a sua vingança. Ou melhor, quem o ajudaria a vingar-se. Pior do que essa vingança seria arrumar um jeito de fazer crescer chifres morais em sua cabeça ou tirar sua pose de galã atlético na frente de seus amigos, igualmente filhinhos de papai que não sabem diferenciar um ovo de galinha de um ovo de pata.

Não precisava chegar a tanto. Não seria uma vingança tão grande mas, como dizem por aí, pegar a irmã dele seria uma grande obra. Uma grande vingança. E uma grande sacanagem com a irmã em questão mas ele, cego, não importava-se com isso. Sedento por vingança, alucinado pelo sabor da gozação para com o tal sujeito. Ele não pensava em outra coisa, era o mínimo que poderia fazer.

Conquistá-la não foi difícil. Apesar de um olhar sério, tinha uma mentalidade infantil e um sorriso de criança. Era tão velha quanto ele mas não devia nada às menininhas, como era sua antiga paixão. Ele conquistou-a rapidamente, pois nem por um segundo aliviava sua carga cheia de raiva e más intensões para cima daquele quase doce de leite. Ela nem desconfiava. Ele cada vez mais se envolvia com a vingança.

Conseguiu. Conquistou-a, tomou-a por sua, sendo o estado civil qualquer um que não fosse solteiro. E jogou na cara do infeliz. Sim, um infeliz! Que foi ao chão de raiva quando viu que o ex de sua menininha estava tendo um caso, ou algo mais, com sua irmã! SUA IRMÃ. Desgraçado. Logo percebeu que era intencional, que ele não queria nada com sua irmã e alertou-a sobre isso. Ela, cega de amores por aquele poeta digno da fase romântica da literatura brasileira, não deu ouvidos ao seu irmão pirralho, idiota e que queria atrapalhar sua felicidade. Já ele, o homem vingativo, foi ao chão. Sua vingança foi alcançada e por isso cantava alto aos céus por sua vitória. Porém, passou a sentir irmã de seu, agora antigo, desafeto, que fora enganada

Sentia pena dela, daquela mulher com mentalidade infantil, sorriso encantador, simpatia sem igual, INFERNO! Fora enganado pelo cupido idiota, que lançou uma flecha de cima do seu ombro que acertou o coração dela. Cupido burro, guardasse para alguém mais... não conseguia completar a frase. Vingança que resultou em paixão e quem sabe até algo mais. Não pensava mais em ninguém, nem na sua antiga... paixão?, nem no seu antigo desafeto e agora cunhado, nem em nada. Seria impossível se não estivesse acontecendo.

Pensou em contar. Desistiu. Não poderia mais viver sem ela. Mas era sincero, precisava contar. Nunca seria perdoado, então recuava em sua intenção. Questão de caráter, muito mais do que de verdade ou lealdade. Más intenções que resultaram no sentimento dos sentimentos. Incrível seria se não fosse visto, concluído, sentido. Seria qualquer coisa que não acontece se não tivesse acontecido.

Raios o partissem, mentia para seu amor quando dizia que a amava? Não, não mentia. Agora. Antes mentia, mentira, e muito. O começo, o fim. Algo justifica? O presente justifica o passado? Não era para ser assim, então não havia justificativa. Injustificável, isso era. Entretanto, não poderia ser perdoado pelo arrependimento... arrependimento? Concluíra seu plano original. Seria um canalha completo se não a amasse tanto agora...

Não sabia mais o que fazer. Foi falar com um grande homem. O bêbado. Entre um gole e outro, eles brindaram à vida, às mulheres e ao Esporte Clube Rio Grande. Brindaram às maravilhas de Deus, dentre elas as morenas voluptuosas e as loiras de olhos azuis. Brindaram com goles no bico da garrafa, de plástico, daquela cachaça vagabunda. E o bêbado disse-lhe o que deveria fazer, e ele, o ex-vingativo e agora apaixonado, fez.

sábado, 8 de maio de 2010

Histórias do Billi J. - Eu queria que você soubesse


(escrito pelo Billi J. há alguns anos, em uma folha de caderno qualquer. É impróvável que essas palavras não tenham sido escritas para a Renata, embora não faça muito sentido ter sido escrito para ela, mas isso é uma outra questão)

Eu quero cobrar, exigir de você o mínimo de resposta que condiga com todas as palavras que te digo. Quero cobrar, exigir o mínimo de atenção a mais. Um pouco tempo a mais. Palavras que não precisam ser de apoio, motivação ou declaração. Não. Apenas um pouco de atenção. Eu quero, mas não consigo cobrar, exigir o que suponho merecer, pois deixo há algum tempo qualquer coisa que possa fazer para falar com você. Tudo porque eu amo você. E amo demais para estragar esse pouco tempo de atenção que recebo. Pequenos momentos, ótimos pequenos momentos.  Sinto-me como se estivesse muito mais vivo do que estou. Como se vivesse muito mais do que tenho vivido. Como se todo esse fardo pesado que carrego fosse tão leve quanto deve de fato ser. Como se eu fosse forte para fazer desse fardo pesado um fardo leve.

Queria só um pouquinho mais. Mas não posso exigir. Porque o querer é apenas meu. E talvez você não queira. Talvez. Provavelmente. Não importa. O que eu sinto é grande demais para deixar que esse mero detalhe atrapalhe. Porque você me faz bem. As suas palavras me fazem bem. E com elas você abre um espaço cada vez maior em um coração ainda murcho, fraco, que pulsa com ajuda de vários aparelhos, ainda.

Porém eu sei que, também por você, ele voltará ao normal.
De qualquer forma, mesmo que você não leia, obrigado. Eu amo você, muito.

Billi J. - 23/07/01

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Voltar ao lugar de onde nunca saiu. Caiu.


Quem consegue explicar um fogo que surge sem faísca, sem combustível e até sem oxigênio? 

Quem consegue explicar um vulcão em erupção cuja lava nada destrói?

Um atacante que gol algum marca?

E uma raiva que nada finaliza?

Torrar, tostar, fritar, queimar, jogar ao chão, destruir a matéria por si, só, e muito só.

A vontade é de pegar qualquer coisa e jogar na frente, ou para dentro, tanto faz. 

Destruir de uma vez. Entretanto, destruir o que, tudo está...estava remendado.

A vontade é dormir e acordar alguns meses, ou ao menos semanas depois.

Hibernar, como ursos polares. Polares? Bi, quem sabe. Polares, não sexuais, mentes poluídas.

Idiotas são os ursos se, vejam bem, SE acham que sua comida vai ficar pronta por conta, que os caçadores não estão mais atrás de si e que o aquecimento global faz parte de uma teoria da conspiração que irá destruir a raça humana em 2012. 

Acho que confundi as teorias conspiratórias.

Como idiotas são todos esses alienados estúpidos, viventes de mundos de puro sonho imaginário e desnecessário.

Tão desnecessário quanto a rima a cima. E essa agora, vinda por hora. Ridículo.

Como são ridículos aqueles... aqueles lá, alienados, alucinados, chapados ou não, doentes não, apenas alienados alucinados.

Preferem viver felizes em mundos pessoais, onde a felicidade reina.

Idiotas.

Isso não é viver. É imaginar. A vida, aquela que acontece, a realidade, os dias, horas e tudo mais, aquela vida, coisa de gente triste e sofredora, vai passando.

Não. Não. E não. Quer mais um? Então não.

Sem essa de aproveite a vida, cada momento como se blá blá blá. E mais blá blá para cá, para lá, aqui e acolá. 

Porque do lado de cá, aqui, ali ou lá, alguma coisa aconteceu para que algo como começo do texto trouxesse abaixo algo que eu já havia guardado.

Malditos fabricantes de guarda-roupas. Malditos marceneiros. Malditos infelizes que não sabem fazer um cadeado decente.

Só não é maldita a natureza. E apenas nela não irá respingar essa coisa que alguns chamam de ira, outros de fúria, outros mais idiotas chamarão de ciúme, a minoria talvez chame de transtorno mental ou coisa semelhante, mas eu chamo apenas de raiva.

Desses alienados, de mim, dos marceneiros, de vulcões que existem apenas em sonho e daquele maldito copo d'água que está quase sempre meio vazio. Por falta de água, ou de alguma coisa menos importante para a vida, porém mais importante para mim.

Espero um dia conseguir segurar nesse copo durante o acaso que impede o sempre da metade vazia.

Vazio, de certa forma oco. Comido por traças e cupins se fosse de madeira. Copo idiota.

Ei, guarda-roupas são feitos de madeira.

Abracadabra pé de cabrito, soco de Muhammad Ali... Culpa dos cupins!

Não importa. Porque hoje eu quero xingar os marceneiros.

Porque esses também são alienados.





*ninguém sabe o que tem acontecido comigo.
Prefiro que seja assim.
Só não venham com conselhos,
o texto não foi escrito para isso.  
Uma série de perdas sem equilíbrio com ganhos quase nulos. 
Mas eu já sei que aqueles que algum dia 
disseram que faria sentido 
não passam de bobos. 
Ou como está no texto, alienados.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Histórias do Billi J. - Eu era, eu sou e sei que serei


Dos tempos da faculdade, o Billi J. traz à tona sempre o dia em que passou a dar valor para tudo o que havia feito. Ou seja, essa história ocorre antes disso e depois disso(p1, p2, p3, p4).(clicando nos disso você vai para as respectivas histórias e blábláblá)

Recém entrara na faculdade, longe do amor, do seu amor, da sua Renata, separado dela por uma distância que ultrapassava o gigantesco, sozinho. É, sozinho, pois seu irmão não contava, uma vez que era pirralho bobo e nada sabia, nada entendia, a não ser sobre tortinhas de baunilha, circuitos elétricos, video-games e a vizinha da frente. Que porcaria. Sozinho, muito embora essa fosse uma constante da sua vida, antes de Renata, e durante o período que esteve perto dela(e, arrependimento maldito!, longe simultaneamente). Sozinho. Sozinho. Sozinho.

Não era a sua essa história de festas. Para ser sincero, o Billi J. admitiu que a primeira festa em que foi, por vontade própria, foi aquela em que ele deixou de ser um menino e passou a ser um homem(frase dita por Michael Jordan e adaptada pelo próprio Billi), entregando e explicitando todo seu amor por Renata... ah Renata. A imagem daquele paraíso em forma feminina, daquela, agora, mulher com o jeito angelical e puro de menina, ah Renata, Renata. E como seus cabelos balançavam enquanto ela caminhava, como seus olhos brilhavam quando estava feliz...

Mas a vida era outra. E o Billi J., como eu já disse, estava só. Sentindo-se só. Odiava aglomerações e só não era antissocial por completo porque frequentava faculdade, supermercado e banco. Bom, uma vez ou outra a padaria, já que os brigadeiros daquela portuguesa com sotaque russo eram fantásticos. Ãhn, onde estava? Ah sim. Solidão, Billi J., antissocial, é, por aí.

Sem vontade, quase desistindo do seu ainda não sonho profissional, o Billi J. queria dar um fim nessa situação. Era a última vez que passaria por aquela situação que, se não era péssima, beirava o insuportável apenas. Não que fizesse alguma diferença, uma vez que o Billi J. não queria mais aquilo. Sentia-se só, estava só. Só, só, só. Só solidão. Solidão do cão que vê os donos abandonarem a casa por não pagar o aluguel. Um pouco forçado, mas não deixa de ser.

Durante o caminho, começou a lembrar da sua infância. Crianças brincando. Uma mais afastada. Deveria ser ele. É, era ele, pois era uma criança franzina, usando óculos, longe da maioria, sentada em um banco comendo a merenda e olhando para o céu, imaginando quem sabe um dia ser astronauta. Sonho de criança que o Billi J. nunca realizou. E viu naquela criança a melhor lembrança. Sempre fora diferente, sentira-se diferente, distanciava-se da maioria. Distante da maioria. Sempre e sempre.

Essa tônica desde cedo havia desgastado o Billi J. como ser humano por si em sociedade. Não pensava em mudar, apenas em como seria se não fosse tão diferente, tão estranho, tão distante da maioria. Como seria se gostasse da maioria, de conviver com a maioria, com suas generalizações e banalizações, com falsas verdades, sonhos e sentimentos ilusórios. Não, deixa para lá. A lembrança daquele menino, de si mesmo quando criança, bastava para perceber que poderia ser e viver sendo assim, desse jeito estranho.

O menino se foi, ficou para trás como se fosse parte do passado. E não deixava, mesmo, de ser apenas passado, embora muito daquele menino continuasse no Billi J. do hoje. Depois do menino, veio a lembrança da quarta, quinta ou sexta série. Não soube ao certo qual daqueles anos viera à tona na sua mente, em uma vaga mas desejada lembrança. E a permanência da diferença, agora com as brincadeiras estúpidas por parte dos outros, o menosprezo de alguns por seus ideais e convições politicamente corretos, algo difícil de manter nessa idade. O... amor. Bom, isso se resume à Renata. Nessa época já havia descoberto seu amor por ela. Já sentia o coração quase explodir em pulsações sentimentalmente sinceras. Bom, era melhor nem lembrar dela agora.

Junto com o desejo de não lembrar mais do começo de seu amor pela Renata, foi-se embora a imagem do Billi J. pré-adolescente. Como se fosse um melhores momentos, veio então a temida, mas igualmente bem-vinda, lembrança do ensino médio. Tão mais próxima do presente. Tão mais intensa, tão mais vivida. Amor e ódio, a raiva e a felicidade, a espontânea risada e os incontáveis e indescritíveis sorrisos da Renata. Ah, só pensava nela. todas as suas lembranças traziam ela consigo. E mesmo nessa retrospectiva indireta e de certa forma incontrolável, ela estava onde devia estar, onde havia estado de fato no passado do Billi J..

E do passado para o presente, longe, distante. Da felicidade que surgiu daqueles poucos momentos de intensa vivência daquele amor para a tristeza e a dor da distância, da ausência, da perda. Renata. E por ela veio tudo o que de bom conseguira fazer. Tudo o que de melhor conseguia demonstrar. Por ela, e consequentemente por si mesmo. Louco, percebeu que o ônibus havia chegado na universidade. Não teve que abrir os olhos, pois não havia dormido.

Já não sabia se tivera mesmo as lembranças ou se apenas vira em uma escola para crianças, uma de ensino fundamental e a outra de ensino médio, alguém que representava a si em tempos passados. Dúvida indiferente, pois a lembrança ou a visão lhe trouxeram vontade.

Pois a partir delas, vistas ou pensadas, voltara a sentir orgulho de sua constância e da sua persistência com suas convicções e ideais. Estava só sim, longe dela, mas e daí? O amor era o mesmo. Ele era o mesmo.

E aquilo, certamente, era um ótimo motivo para continuar, pois ele era se não tudo, pelo menos uma boa parte, do que queria ser.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A cada dia um recomeço(7) - Quando você percebe que aprendeu por um ano em uma noite


Incrível como as mais diferentes coisas possíveis de aprendizado aparecem volta e meia nas nossas vidas. Incrível mesmo. Eu não buscava aprender e definir nada ontem. Era só uma conversa. Apenas mais uma discussão. Apenas palavras. Com raiva, mágoa, enfim, palavras. Mas aprendi tanta coisa nessa conversa raivosa e magoada, sobre o passado, que você não faz ideia.

E a grande prova de que aprendi é que provei, para mim mesmo antes de qualquer coisa, que eu não guardo mágoas. Que eu não fico remoendo tristezas passadas, dores passadas. Que eu não fico colocando as cabeçadas que dei na parede(literalmente) como coisas a serem cobradas algum dia. Algum dia como ontem à noite.

Eu só não sabia que era tão fácil.

Um dia um amigo escreveu uma pergunta e eu resolvi respondê-la. Era algo como 'por que a escuridão é sempre mais fácil de ser vista do que a luz?'. Eu respondi. E hoje a minha resposta, cujas exatas palavras a minha mente de maluco não deixa lembrar, faz muito mais sentido.

Eu sei, pois apesar de tudo também sou humano, que é muito mais fácil ver a escuridão. Ver os erros. As lágrimas. A dor. Relembrar tudo isso ao invés de priorizar e dar valor real aos bons momentos, aos sorrisos, abraços, tudo aquilo que foi bonito mesmo. Eu sei que a escuridão é a primeira coisa a surgir na mente. Eu sei.

Só que também sei que é mais cômodo ficar pensando no preto do que no branco. No escuro do que no claro. Na dor do que na alegria. É mais cômodo porque isso te dá o direito de reclamar, da vida, de Deus, do mundo, das outras pessoas. Da outra pessoa.

Eu me livrei disso. Definitivamente ontem, livrei-me disso. De mágoas, de dor, das lembranças ruins, das lágrimas, do vazio, da agonia. Livrei-me de todas essas lembranças porque isso não me afeta mais. Porque nenhum sentimento ruim é despertado quando lembro disso. Porque tudo o que me fez bem vem antes. Porque o que me fez bem é o que realmente importa. É esse o passado que eu preciso, e quero, lembrar.

Não posso fazer com que alguém se livre disso. Com que alguém passe a dar valor ao pingo de luz no meio da escuridão, mesmo que ele seja só um pingo. Pingo de luz que só os corajosos, aqueles que sentem sinceramente, conseguem reunir forças para ver, para sentir, para transformar toda a escuridão em luz à partir daquele mísero pingo.

Eu sei que é possível. Porque eu recomecei, mais uma vez, uma parte da minha história. Alguém que já não guardava mágoas consegue sorrir espontaneamente, mesmo em meio às mágoas, às dores, às lembranças de um passado que deve ficar apenas no passado.

Porque, se as más lembranças continuarem sendo prioridade, as boas lembranças devem ser esquecidas, de vez.

Se não há vontade em mudança, em crescimento, em percepção de que nada, nem ninguém, é perfeito, não há motivo para lembrar das coisas boas, daquilo que realmente foi vida.

Sinto-me melhor. Livre de mágoas, de uma vez por todas. Embora o sorriso não seja completo, a minha parte eu fiz, definitivamente. Por amor. E rezo para que as mágoas relacionadas a mim também sejam esquecidas, para que não exista a necessidade de apagar tudo o que de bom aconteceu.

Eu ainda vou enfrentar problemas, vou sofrer, vou chorar demais para ficar relembrando dores, lágrimas, mágoas passadas.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Saída sem despedida. Uma nova vida. Muita coisa ficou conosco.

A tempestade e o sol - Catedral 


Um dia esse nosso sofrimento de hoje será de outros. Quando partirmos, alguém sofrerá como hoje sofremos por quem já deixou o convívio com um buraco que não pode ser tapado. Só que não importa como será com alguém, algum dia. Importa é que hoje sofremos pela perda de um amigo, um companheiro, de futebol, de convivência, de conversas, de planos, de sonhos.

Alguém que merece os mais sinceros e belos elogios. Alguém que fazia muito mas não espalhava pelo mundo todos os seus feitos. Humildade sem hesitação. Um exemplo, de fidelidade, dedicação e doação. Um amigo.

Felizmente as lembranças das nossas histórias, e daquilo que vivemos, jamais serão apagados. Pois tudo o que é vivido com intensidade e sincero sentimento torna-se eterno, apenas pelo fato de fazer parte de um tempo que, até segunda ordem de Deus, será infinito.

Lembranças que, vivas dentro de nós, nos dão força para continuar, coragem para lutar e capacidade de sonhar com dias melhores, na luta por objetivos que talvez nem sejam mais nossos. A vida é uma grande luta e só aqueles que a vivem sem importar-se com o dia da sua despedida dela é que conseguem ser vencedores.

Você não esperava ir tão cedo. Entretanto é certo que fez todo o possível, e conseguiu concretizar grande parte dessas possibilidades, para que esse presente que Deus lhe deu fosse mais do que bem aproveitado.

Você viveu. Você fez parte da nossa vida. E do nosso viver.

Amor de amigo, de irmão. Saudade de quem sente não ter aproveitado mais a sua presença, as suas risadas, a sua conversa, o seu talento.

Que a tua alma, do mais alto céu, possa nos guiar para que um dia possamos nos reencontrar, assim que cumprirmos aquilo para o qual fomos designados aqui.

E quando tivermos alcançado o mesmo patamar de viver que você alcançou, poderemos então aproveitar a eternidade que o seguimento do caminho de Deus aqui nos proporcionará no dia em que começarmos esse novo caminho, essa nova vida.

Também por você, não iremos desistir. A luta continuará, mesmo que sem motivos racionais ou práticos, mesmo que não haja uma real possibilidade de vitória. Lutaremos por sonhos, causas improváveis e impossíveis, assim como você também fazia.

Inimaginável para olhos, ouvidos, boca e mente. Mas possível para quem tem fé.

Deus está contigo, Maiquel Donin Sponchiado.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Frase do dia(ou uma verdadeira declaração de amor)


E como ela é linda... 
e como eu perco o chão, 
como meu coração bate mais forte, 
como todas as outras coisas parecem não existir, 
apenas, e somente apenas, 
por vê-la.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Só de passagem, sobre os últimos dias, os últimos aprendizados


Mesmo que seja apenas uma possibilidade, que nenhuma probabilidade seja confirmada e que as más expectativas não sejam confirmadas, aprendi muita coisa nas últimas semanas. Olhei a minha existência com outros olhos. Os olhos de cima, muito mais distantes do que a própria distância possível. Pode até ser inacreditável, mas os sentimentos não mudaram, nem os sonhos, nem os desejos. A única coisa que mudou foi a minha visão sobre o simples fato de haver um coração que pulsa em meu peito. Poucos acabam dando-se conta disso tão cedo, e tive essa oportunidade. Pedi para Deus um caminho e Ele me mostrou que eu estou no caminho. Longe de muita coisa, sentindo-me perdido, mas jamais sozinho e fora do rumo certo. Muita coisa virá, ou nada disso será confirmado. O importante é que sei que estarei pronto, pois, além de fé Naquele que me fortalece, sinto-me muito mais corajoso a encarar o que poderá vir. E ainda há o amor, motivação de todas as lutas justas, que estranhamente só cresce dentro de mim.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Nos fundo dos olhos, a prova de que algo ainda bate

*a música é boa mesmo

Não tive muito tempo. Não quis ter muito tempo. A maioria do que eu poderia ter dito eu não disse. Por opção. Não queria perder aquele momento com explicações, por mais sentido que elas façam. Não queria e não perdi aquele momento. As palavras, por mais espontâneas e sinceras que fossem, foram ditas com dificuldade. Sem escolha, termos corretos ou prezando por alguma coerência. Apenas falei o que precisava falar. O que queria falar.

É muito provável que elas não fizeram sentido algum. Menos sentido faria todo o resto que poderia ser dito. Dessa vez não errei, finalmente não errei. Mesmo que o coração para o qual destinei aquelas poucas palavras não quisesse ouvi-las, acho que ele ouviu. Aqueles olhos, que mais de uma vez já haviam tirado-me a concentração e as palavras, aqueles olhos... pareciam atentos ao que os meus olhos queriam destinar.

Acredito sim que a maior sinceridade está no olhar diretamente nos olhos enquanto se fala. Parece que através desse olhar os dois corações entram em sintonia e tudo que é dito faz mais sentido, isso quando o sentimento transmitido, mesmo que apenas por um lado, não ofusca tudo e aqueles olhos se perdem uns nos outros, os olhares são trocados como se nada mais fosse necessário. Difícil um tímido fazer isso, até porque é quase certo que quando falo algo a alguém eu olhe para o chão ou para os lados. Mas decidi fazer diferente, e consegui.

Eu falei. Disse. Demonstrei. Mergulhei naqueles olhos e quase afoguei-me. Queria ter afogado-me mesmo, estaria muito mais vivo do que estou hoje. Não foi possível. Talvez nunca venha a ser. Não há sentimento, por menos humano e mais divino que seja, que consiga compensar tudo o que o lado humano pode empurrar contra.

É incrível que quando deveria sumir, desaparecer ou ao menos ser esquecido, isso, esse sentimento que eu não preciso nomear, só aumentou, tomou dimensões que eu não esperava. Por mais que seja estranho, mesmo que não o viva de fato, fico feliz por tê-lo comigo.

Porque o amor vem de Deus. Amando, mesmo que não vivendo ele num todo, me aproximo de Deus.

Quando todos me dizem para esquecer, eu rio. Porque sei que, fazendo o que eu possa fazer, não conseguirei apagar o que não pode ser apagado por uma mente, por mais forte e preparada que ela seja.

É grande, é sincero. E ao transmitir isso diretamente aos olhos, fiquei mais seguro ainda da grandeza e da sinceridade desse... amor.

Talvez seja impossível qualquer coisa que venha disso. Pois é. Mas eu já escrevi que 'acreditar na possibilidade é racional, acreditar no quase impossível é esperança'.

Já não me sinto mal por isso. Pelo contrário. Quero viver o que puder, mesmo que não seja tudo.


*eis a grande prova de quão grande é a insanidade na qual tenho vivido. 
É loucura tudo isso, não faz sentido. 
Quase todos me criticam, tentam me fazer cair numa real humana, racional e simples. 
Tentei fazer algo humano,
 ignorando e tentando me afastar disso, 
mas NÃO SOU ASSIM. 
Ajo de um jeito diferente, 
cada vez menos humano, 
mais espontâneo... 
e mais sincero.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Histórias do Billi J. - Desisto de tudo, mas não de você





A vida não poderia ter sido melhor, Renata estava de volta(clique no marcador 'histórias do Billi J.' no fim do texto e você entenderá), por ela, e também por si mesmo, havia mudado de emprego, seu irmão já não incomodava-o de maneira insistente e tola, seus pais já não pareciam ser empecilhos na sua tentativa de mostrar ao mundo que era possível viver de um jeito diferente e não havia sequer um pensamento ruim na cabeça do Billi J. .

Tudo ótimo, sim, até que...

Bom, nem mesmo o Billi J. sabe como isso começou, o que originou, porém aconteceu e é isso o que vem ao caso agora. Ele e sua amada Renata desentenderam-se. Normal para namorados, principalmente para quem se conhece tão bem quanto eles. Pequenas diferenças fazem grandes estragos nesse caso. E foi mais ou menos isso o que aconteceu. Entretanto esse desentendimento não era normal para Billi J. e a Renata. Porque afinal de contas, depois de toda a distância e do tempo, o simples fato de estarem juntos já era a prova de que nada poderia separá-los(e entramos no auge do famoso 'acreditar no amor').

Houve o dia, o momento, a visão.

Renata estava chegando em casa quando foi abordada por um sujeito. Segundo o Billi J. era o cara mais parecido com um ator de Hollywood que já havia visto. Ela conversou com ele. O Billi J. olhou tudo de longe. Ciúmes sim, e muito, já que conhecia os amigos de Renata e aquele sujeito não era um deles, definitivamente. Como era sensato, embora impulsivo, Billi J. apenas olhava de longe. E apertava forte as mãos, piscava como se tivesse um grande peso nos olhos, enfim, olhava com raiva.

Eles riam. O Billi J. não entendia por que a Renata estaria rindo com alguém que não conhecia. Antes de pensar coisas ruins, precipitando-se em um julgamento errôneo, decidiu sentar ali perto e esperar a conversa acabar. Depois disso, chegou na casa de Renata e indiretamente lembrou o fato de poucos instantes antes.

Respostas evasivas, como se algo estivesse sido escondido. E aquele medo cresceu, transformou-se em angústia e o Billi J. já não controlava mais. O tom da voz subiu como há muito tempo não subira. A velocidade nas palavras era incrível. Um desabafo que saiu sabe-se lá de onde, sabe-se lá por qual motivo.

Renata não entendia, mas parecia não querer entender, não tentar explicar o que talvez não precisasse de explicação, talvez não devesse ou quisesse ser explicado. Estava decepcionada com Billi, pela desconfiança, mas não deu motivo algum para que ela não existisse no Billi J., falava alto como Billi J. nunca havia ouvido e ele fez o mesmo, como se fosse algo necessário.

Ouvidos atentos sem resposta. Saiu e, sem saber para onde ir, ficou sentado na esquina da praça, triste, atordoado, sem saber o que ou por que aquilo acontecera. Sua amada Renata... não, não podia ser. Mas ela não fez a menor questão de negar. Verdade?

Ficaram dias sem se falar, sem buscar explicações. Até que, ao acaso, encontraram-se em uma esquina.
- Pensei que nunca mais fosse falar com você.
- Por que?
- Eu não sei.

Ambos afirmaram, perguntaram e mostraram-se distantes de uma resposta. Diálogo com começo e fim em ambos os lados, da mesma maneira. Perplexos e sem saber ao certo por que havia acontecido, o que havia acontecido. Não tentaram dizer o que poderiam dizer, coisas do tipo 'eu não conseguiria ficar sem nunca mais falar com você'. Não, nada desse tipo foi dito, nada além de um recíproco 'eu não sei' foi dito.

Então de mãos dadas, seguiram o mesmo caminho, sem destino, juntos. O que aconteceu ao certo ninguém sabe. O porquê desse desentendimento. Motivos, razões, explicações. Nada. Não fingiram que nada aconteceu, apenas continuaram de onde pararam, deixando de lado o que eles não precisavam lembrar. Não tentaram explicar-se, pedir desculpas, nada.

Continuaram de onde pararam. Por que explicar esse desentendimento todo se não conseguiam explicar tudo o que acontecera no tempo em que estavam longe? Algo muito maior havia entre eles e não podia ser explicado. Havia motivos para tentarem explicar algo tão insignificante?

Não. E seguiram o mesmo caminho. Juntos, porque algo verdadeiro os unia.



*Não se pode apagar o passado. 
E mesmo sem um presente ou mesmo uma perspectiva de futuro, 
o passado continuará existindo, pois ele foi vivido. 
E tudo que for indescritível, 
de tamanho imensurável, de sinceridade inegável, 
jamais será apenas passado. 
Mesmo que não seja um presente vivo, 
jamais será apenas passado 
e jamais será apagado.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Histórias do Bandiolo - Para não ficar só no tchau

Olhou-a e despediu-se. Sem beijo, abraço, nada. Nem aperto de mão, olhar nos seus olhos ou qualquer outro tipo de afago. Nada. Estava atrasado e, acima disso, magoado. Não importava mais o que ela lhe fizera, as coisas ridículas que ouviu daquela boca que quando sorri ilumina cavernas profundas e escuras. Não importava mais o que lhe fizera pensar, sentir. Passado.

Mas ainda estava magoado.

Sentiu-se a pior pessoa do mundo por aquilo. Sentiu-se pior do que a pior pessoa do mundo sentiria-se. Senti-se como se fosse... de fato, a pior pessoa do mundo. Como se tivesse cometido o pecado mais grave, a falta mais dura, dito a maior blasfêmia e provocado a pior das dores. Sentiu-se como se fora culpado de algo que nem ao menos sabia o que era. De algo que, de fato, percebeu não existir.

Fora acusado, incriminado, culpado, criticado, ofendido, destroçado e destruído. Sentiu-se tão mal que não sabia como em tão pouco tempo voltou a estar com ela. Sabia, mas não queria saber. Não queria entender. Era injusto. Não merecia ter passado pelo que passou, sentido o que sentiu. Sensações estranhas. Sentimentos profundos. Tristeza. Mágoa, mágoa, mágoa.

Despediu-se como se ela não fosse mais do que uma empregada de seus pais e, por consequência, uma empregada sua. Despediu-se como o dono se despede do cão.

"Tchau."

Virou as costas. Precisava fazer aquilo. Deixar aquela impressão de que ele poderia fazer o mesmo, embora ela não fosse sentir um centésimo do que ele sentiu. Era uma forma de vingança, para ele era. Indiferença. Sentimento terrível. Tantas vezes sentia como se estivesse há anos-luz dela mesmo estando abraçados. Agora era a sua vez de retribuir. Tchau e nada mais. Isso mesmo, sentia-se agora bem.

A mágoa passou. Rápido demais. Parou, pensou bem, refletiu e sentiu-se mal. Parecia que algo estava lhe chamando, embora ela estivesse quieta. Será que ela se arrependeu? Será que falará alguma coisa, que pedirá desculpas? Não. Ele não vai fazer nada disso, sabia ele. Deixou de lado o orgulho que era próprio dela e sentiu-se aliviado por ter desistido de tentar fazer o que, de fato, nunca quis fazer.

Voltou e beijou-a. Para não ficar só no tchau. E para não se arrepender e sentir-se mal por ter dito apenas uma palavra na última vez em que a veria naquele dia.

Voltou e nem foi mais, sabe-se lá o porquê...



*O autor acha textos como esse, 
escritos em dias como esses, 
patéticos, 
e não esconde sua preferência 
por textos postados com verdadeiros sentimentos 
e um algo a mais de explosão, 
que nesse caso não passa de uma espontaneidade sincera,

e cheia de... enfim.

sábado, 14 de novembro de 2009

Histórias do Billi J. - Tudo sumiu, tudo se foi. Coração que volta a bater.



"Caro amigo Vini Manfio:

Era apenas mais um dia. Acordei naquele dia com a ideia de que seria mais um. 'Just another day', apenas. Rotina de sempre: acordar, ler o jornal, comer, ir par o banheiro, tirar as meias e colocar o chinelo, andar um pouco pela casa, ouvir Kinks nos lp's originais que ele comprei em um leilão na internet, enfim, o de sempre até trocar a camisa, colocar uma calça, os tênis brancos e ir para o trabalho.

Tudo estava tão... normal naquele dia. Normal de habitual, não de comum. O Sol e seu calor intenso e insuperável, as árvores sendo louvadas como maravilhas de Deus pelas sombras necessárias, as crianças indo para a escola e quase sendo atropeladas por motoristas céticos, arrogantes e estressados que acham que se chegarem 10 segundos atrasados aos 5 minutos de babação ao chefe antes do trabalho serão demitidos. As coisas estavam acontecendo como acontecem todas as manhãs.

E eu caminhando. Pensando na vida. Em como estaria o meu coração, que a Renata levou com ela para a Inglaterra. Renata. Namorei outras gurias(puts, agora acho que posso falar em mulheres, mas na época eram gurias) mas nenhuma despertou em mim algo além de um carinho. Bons momentos, mas nada que me traga imensos e sinceros sorrisos quando lembro. Pessoas legais, mas nenhuma como a Renata. E como eu sentia falta dela.

Mas então. O dia seguiu normal. O trabalho, normal. Nenhuma grande incomodação. Fiz o que tinha que fazer, almocei, voltei ao trabalho. Nada de mais. Conversei pouco com aqueles porcos hipócritas que me cercam, bando de puxa saco. Malditos. Quando podem, me ferram. Inventam coisas que não tem cabimento contra mim. Quase fui demitido várias vezes. Por isso não converso com quase ninguém.

Enfim. Era só mais um dia. Quando cheguei em casa vi um email. Da Renata. Fiquei feliz que ela tinha me mandado algo. Quando vi que era apenas uma frase quase fechei o navegador. Bom, li, óbvio. Ela pedia que eu ligasse o celular e ligasse para ela. Caramba. Eu ia gastar um bom dinheiro. Ligação internacional. Caro pra dedéu. Mas ela pediu. Talvez precisasse. Adivinha? Liguei, claro. Não aguentei. A sensação de que ela precisava falar comigo falou mais alto.

Liguei. Chamou, chamou, chamou. Estava quase desligando quando ela atendeu. O coração deu aquela bombada, foi sangue para todo o corpo em instantes. Os olhos brilharam, o sorriso veio. Alegria que contagiou meu corpo. Quase não conseguia segurar o celular. Antes que eu pudesse perguntar se ela estava bem, ela me disse que queria me ver. Eu disse que também queria ver ela, mas que não era possível no momento. Ela disse para eu ir na antiga casa dela, pois havia preparado uma surpresa para mim. Eu perguntei o que era e ela disse que, se confiava em nela, iria lá agora mesmo. Então disse que me amava e desligou.

Fiquei sem reação. Estranhei. Pensei e repensei. Por que eu iria lá? Ela não está lá. Ela mora longe daqui. Por que ainda fico alimentando esperanças? Eu continuo amando-a do mesmo jeito que passei a amá-la quando ela me disse oi pela primeira vez, há longos... sei lá. 10 anos. Ninguém no meu lugar iria. Ninguém. Fazer o que lá? Sabe-se lá quem estaria morando lá agora. Quem sabe a Gabriela, minha primeira namorada e prima da Renata. Seria bom revê-la mas, não sei. Pesei tudo que tinha na cabeça. Tudo me dizia para não ir. Mas o "se você confia em mim, vai lá" falou mais alto.

'Coração idiota, por que ainda faço o que me pede?' pensei naquele momento. Mas fui. Antes, tomei um banho, coloquei uma roupa bem normal, bem simples, e saí. No caminho tudo veio à mente. Que surpresa ela teria para mim? Se quisesse me mandar algo pelo correio, saberia meu endereço. Não fazia sentido. Mas eu estava indo. Meu coração e ela me disseram para ir. Fui. Sem pressa. Meu coração batia acelerado. Diminuí mais ainda o passo. Mas ele continuou querendo saltar pela boca. Parecia desesperado, ansioso, mas pelo que? Por uma surpresa que, no fim, não seria nada do que eu realmente gostaria?

Segui. E cheguei lá. Toquei a campainha. Ninguém atendeu. Comecei a ficar irritado. O que ela queria que eu fizesse naquela casa que parecia não ter ninguém dentro? Pensei em ligar para ela. Toquei mais duas ou três vezes a campainha. Vi a cortina se mexendo. Estão chamando a polícia, só pode. Então tentei ligar para ela. Quando começou a chamar, comecei a escutar algo tocando. A nossa música. Beautiful, do Marillion. Era essa a surpresa. Ela me trouxera aqui para escutar a nossa música. Mas ainda não fazia sentido.

Quando a maçaneta da porta começou a girar, pensei que iria ser xingado. Estava cabisbaixo, como quem diz "tá bom, não vou mais incomodar, aliás, não sei por que toquei a campainha". E aquela música foi se aproximando. E eu cantando apenas com os lábios. Quando ouvi uma voz cantando. Não, não podia ser. Eu não conseguia olhar para cima. Meu corpo estava prestes a... sei lá, me abandonar. Comecei a cantar alto aquela música, porque aquela voz parecia ser da Renata. Eu estava sonhando. Só podia. Louco, insano, sonhando com alguém que mora há milhares de quilômetros daqui.

Continuei cantando a música alto, mas aquela voz não saía. Não desaparecia. No último refrão, cantei o mais alto que pude, mas aquela voz continuou. Ela se fez presente comigo naquele momento e eu, por algum motivo, não conseguia parar de olhar para o chão. Que me levassem preso, mas eu não sairia dali enquanto a música não parasse de tocar.

Foi quando a música parou. E eu percebi que a minha ligação estava indo para a caixa de mensagem. Sem perceber, meu celular continuou chamando. Durante toda a música. Não consegui entender como, isso é praticamente impossível. Mas naquele momento fora possível. Não sei. Aquilo me trouxe de volta à vida. Meu coração batia como se fosse um pandeiro numa roda de pagode. Batia mais do que alguma coisa bate no liquidificador. Batia, pulsava, queria sair do peito. Só pela música. Por estar tocando onde estava tocando, na casa onde ela morava.

Era hora de ir embora. Quase tive um infarto, tamanha aceleração cardíaca. Eu devia estar pensando nela, apenas nela, mas conseguia pensar no porquê do meu coração quase ter explodido. E eu nem sequer vi de onde vinha a música. Meus olhos lacrimejavam. Todas as lembranças dela, aquela angústia por não vê-la há anos. Todo amor guardado. Tudo. Todo aquele desejo sincero de estar com ela. Uma lágrima caiu do meu rosto e, antes que eu levantasse a cabeça, ouvi um "Oi".

Eu estava delirando. Definitivamente. Ia ligar para o manicômio. Estava ouvindo a voz da Renata. Mas como não tinha mais nada a perder e, tendo a certeza de estar alucinado em virtude de uma simples música numa casa 'qualquer', resolvi levantar a cabeça e... quase morri Vini. Sério. Ou tinha morrido e não sabia. Ela estava na minha frente. Eu ouvia a voz dela. Mas não conseguia acreditar.

Antes que eu pudesse pensar que era um sonho, ela abriu o portão, se aproximou de mim, segurou a minha mão e, indo no fundo dos meus olhos disse "Eu voltei". Sinceramente, se algum dia o tempo parou, foi naquele instante. Eu não sabia se acreditava naquilo ou o que teria que fazer para acreditar naquele sonho. Eu não sabia de mais nada, nem qual a porcentagem de ácido acético no vinagre(lembra que eu sou engenheiro químico né?). Nada. Mente vazia.

Fazia sentido o coração quase sair do corpo, aquela ansiedade toda. Pressentimento. Dizem que existem essas coisas com pessoas que se amam. Amor sincero e mútuo. Dizem. Talvez não exista. Mas naquele momento qualquer coisa que me dissessem que o amor poderia fazer, eu acreditaria. Se dissessem para me jogar do alto do Big Ban por amor, eu me jogaria. Tudo. Faria tudo. Porque eu não sabia o que estava sentindo mais. Meus pés não tocavam mais o chão, meus olhos já não viam, minha boca não falava, meus ouvidos não ouviam. Eu parei de funcionar. Quase por completo.

Só o meu coração quase explodia. Quase explodiu. Demorei a entender que era ela mesmo. Toda aquela saudade, aquele amor, toda... todo... eu não sei. Jamais vou conseguir explicar o que senti. O que vivi naquele momento. Indescritível, literalmente. Sem palavras. Ela voltara. Para casa. Para mim. Se houvesse um ranking, eu seria o homem mais feliz do mundo. Muito mais do que alguém que ganhara na loteria, que conseguira qualquer que fosse a coisa. Eu era mais feliz que a própria felicidade. Louco, insano, feliz.

Ela tentou me explicar. Eu não pedi explicações. Nem pedi quanto tempo ela iria ficar. Mesmo assim, ela disse que havia voltado para sempre. Por mim. E pela mãe dela, claro. Não importava. Ela que voltasse por saudade daquela casa, do vira-latas, do sistema de transporte público precário. Pelo que fosse, ela voltara. E... mais linda do que nunca. E como ela é linda. E como seus cabelos balançam quando ela caminha...

O amor da minha vida Vini. Depois de tanto tempo, estava com ela novamente. E nem tínhamos sequer dado um abraço, um beijo. Apenas nos olhávamos, de mãos dadas, como namoradinhos à moda antiga. O mundo não existia mais. Meus problemas não existiam mais. A minha vida talvez não existisse mais. O mundo talvez não existisse mais. O abraço, o beijo. Os abraços e os beijos. Ficamos horas na frente da ex e agora atual casa dela. O meu amor estava comigo. Depois de tanto tempo longe, percebi que não vivi nesses anos. Apenas sobrevivi. Muito bem, mas faltava algo, faltava o amor, faltava ela.

Decidi que daquele sonho não queria acordar. E passei a vivê-lo todos os dias. Pedi demissão do meu emprego e arrumei outro, melhor e sem pessoas tão sujas quanto no antigo. Fossem quem fossem. Não importava mais quem estava ao meu lado, pois sabia que eu a veria. E só por vê-la eu perdia tudo que de ruim possuía, na cabeça e no coração.

Eu não sei como terminar essa carta. Não sei como está a sua vida, a sua cabeça, o seu coração Vini. Não sei. Não sei como está a sua faculdade, os seus amigos, sua família. Não sei Vini. Me desculpa, mas com ela aqui, momentos como esse são raros. Serão raros.

Desejo a você que consiga viver como eu agora vivo. E obrigado pela ajuda em todos os momentos ruins que passei.

Grande abraço,
Bilionárico Johansson
"