quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O vazio de viver e só(56)

E agora estou aqui, parado, olhando para a chuva fina que cai sobre o telhado da academia ao lado. Olhando para os trens que, ao fundo da paisagem mas ainda assim próximos de mim, trafegam para algum lugar.

Lugar tão distante daqui quanto meus pensamentos. Quanto a mente vai ao olhar umas gotas de água caírem constantemente sobre o chão que piso todos os dias.

Tento encontrar alguma resposta para tantas perguntas. Sempre elas, perguntas. Sempre dúvidas. Sempre as incertezas. Sempre a falta de convicção para tomar decisões.

Ir ou ficar. Iniciar, permanecer ou terminar. Caminhar ou correr. É banal, é simplista, é minimalista.

Ainda assim, duvidoso e real.

Como letras escritas no ônibus, tortas e ao mesmo tempo retratos quase perfeitos de algo. Ou de alguém.

Curto ou longo, próximo ou distante, optativo ou obrigatório, bem ou mal, continuo aqui.

Parado.

Olhando a chuva fina trazer conforto térmico, água para as plantas, para as calhas e para as poças que molham tênis.

Olhando a chuva trazer qualquer coisa que não seja uma resposta.

Queria apenas uma resposta para uma pergunta. Qualquer uma, mesmo que nunca mais conseguisse encontrar as respostas para as outras.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O vazio de viver e só (55)

Deveria ser um dia diferente, com um significado especial, diferente dos outros dias do ano. Tantos anos se passaram e durante um dia em cada um deles pude sentir algo único, algo que não estava presente nos outros dias do ano, sendo esses melhores ou piores.

Acho que isso ficou para trás. Seja pelo motivo que for, pela fase que esteja passando, pelo cansaço acumulado ou qualquer preocupação pontual, não há motivo específico e forte para comemorar algo que, ao menos aparentemente, não faz diferença alguma.

Não sei onde a especialidade do dia oito de outubro se perdeu. Ou se está escondida apenas. Tampouco faço ideia do que isso representa ou significa. Talvez seja do momento. Talvez não.

Queria poder dizer que amanhã será um grande dia. Estaria sendo hipócrita, pois não acredito nisso. Em todos os anos ansiei pela chegada desse dia entretanto, nesse ano, não é o caso. Como se nada representasse, como se não houvesse qualquer motivo para comemorar.

Ou como se todos os motivos fossem pouco diante de algum motivo contrário que não consigo definir ou explicar.

Tudo é suposição. Não. Quase tudo.

Amanhã será só mais um dia.

Just one day.

Just a day.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Pedaços de um pensamento (90)


Há algo nas palavras que saem do coração, como cantaram por aí algum dia, que encanta e faz até o mais cético dos homens repensar sua existência racional e, imaginariamente, autoexplicativa. Procurando por respostas não se chega a lugar algum. Procurando pelas perguntas, idem. Somos ínfimos, insignificantes diante da multidão humana, da imensidão da existência do universo e, creio eu, somos menos do que nada - caso isso seja possível - diante do Criador.

Acreditando ou não em Alguém como fonte primária de tudo o que há - inclusive do próprio tempo - haverá de concordar, senhor ou senhorita, que nossa mente nunca chegará longe o suficiente para saber coisa alguma. Procura-se algum ideal, justiça, lealdade, prosperidade ou caridade através de algum valor, como coragem, persistência ou humildade. Procuram-se diversas outras coisas e, no fim, tudo o que somos, tudo o que fomos, o que seremos e o que almejamos, ou mesmo as coisas das quais desistimos, e, mesmo somando tudo isso não somos nada. Nunca seremos nada.

Nossas perguntas são insignificantes. 'De onde viemos?' importa mesmo em um mundo onde um ser humano lhe pede um pedaço de pão pois está há dias sem comer? Tantas outras perguntas não significam nada quando batemo-las de frente com a realidade. Da mesma forma, pela outra ponta da linha desse raciocínio improvisado - como tudo o que há em minha mente há anos -, a realidade torna-se um grande nada quando confrontada com frases como 'o mundo precisa de mais pessoas como você'.

E tudo isso ainda é pouco, é nada, irrelevante.

Palavras são irrelevantes. A vida é feita de coisas irrelevantes. Porque não somos nada, lembra?

Concordando ou não com isso, acreditar que somos algo além de nada é possível e justificável. 'Só posso viver uma vida então, como não posso ser algo além de nada, esse meu nada é tudo. O meu tudo'. Boa forma de pensar. Talvez seja egoísta. Talvez realista. Ou apenas algo para encerrar um assunto incômodo onde todos podem falar algo e, at the same time, estarem errados.

Quando olho para trás e vejo minha insignificância perto de outros seres humanos, de outras situações, de outras vidas e, claro, de outros sentimentos, percebo que há algo lá que não há mais hoje. Uma vontade de mostrar o que se é pensando que 'ninguém sabe como é', 'ninguém é capaz de entender', e um arrogante 'tenho que ensinar porque ninguém sabe disso'. Vontade essa que não existe mais.

Porque havia algo que transladava as boas intenções, jogando-as entre as más. Havia algo que tirava a inocência de busca implacável pelo que é bem e colocava suaves e imperceptíveis doses de mal nela. Havia algo que fazia transparecer a raiva, a decepção, as dores de um passado recente e a culminada arrogância presente.

Haviam as palavras doces de sonhos, verdes, inacabados. Haviam as palavras das decepções com as próprias falhas.

Houve, também, uma queda brusca na satisfação pessoal, sendo necessários anos para reconhecer que ainda estou longe de onde quero estar. Pessoalmente falando.

Não um lugar, mas uma pessoa.

Talvez seja hora de recomeçar em outro lugar. Com outras histórias. Com uma nova visão. Com novas intenções. Com palavras diferentes e uma mentalidade nova, madura e humilde.

Porém é difícil fazer o novo acontecer. Deixar que ele venha e se faça realidade na prática.

O jeito é levar parte do passado comigo. Parte das palavras que, embora tenham rareado, ainda fazem do passado algo que, apesar de ser quase todo irrelevante, mostrar muito do que quis e consegui ser.

E do que quis e não consegui conquistar.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O vazio de viver e só (54)

Onde foi que as coisas começaram a desabar? 

Como, de repente, tudo o que parecia ser tranquilidade tornou-se uma tempestade sem fim?

Para onde ir, se não quero sair de casa?

Por que ficar, se não aguento mais nada daqui?

Cansaço algum justifica essa inquietação interior. A busca por alguma resposta, que antes era uma obrigação, hoje é uma negação. Não quero respostas, necessariamente. Talvez nem entendimento para as questões acima seja necessário. Quero apenas vida. Viver.

Quero sentir felicidade correndo pelo meu corpo e fazendo com que meus pensamentos tenham algum sentido ou, ao menos, um reles significado.

Tenho querido que tudo acabe de uma vez, sem saber ao certo qual é o final. O que virá depois. E nem mesmo o porquê de isso, ou aquilo, estar acontecendo. Antes ou agora.

Desconheço o tempo.

Parece que as palavras não conseguem mais ser o que eram. Que as pessoas não conseguem mais fazer a diferença que faziam. Que os ideais, os sonhos e as orações não tem mais sentido.

Parece que nem mesmo os sentimentos ainda são plausíveis.

Quem me dera poder escrever alguma frase que, por acaso, trouxesse algum significado a isso. Àquilo. Ou sei lá o que mais. Ou menos. Ou. Ou. E.

Porém, é fácil visualizar que nada disso tem sentido sem que assuma que algumas coisas mudaram em mim. E, embora possa dizer que hoje tenho um conhecimento próprio que em nenhuma outra fase, para outros eus, tivesse, não resolve. Não soluciona. Não explica.

Tantas negações, dúvidas e perguntas. Nada a dizer.

São apenas pensamentos.

Lamentos de um, ou mais finais, cada vez mais próximos.

Onde foram parar os sorrisos sinceros?

sábado, 13 de setembro de 2014

O vazio de viver e só (53)

'Lembro que depois de ouvi-lo, consegui dizer, apenas...

- Amigo, o amor, em si, é idiota. Porque é mais importante fazer alguém feliz do que ser feito feliz. E sendo fonte de felicidade para alguém, você cresce, evolui, torna-se alguém melhor. Mesmo que viva para o resto da vida infeliz. Você é, mas para alguém, não para si.

Ele então parou de estalar os dedos. Secou algumas das muitas lágrimas que escorreram pelo seu rosto e parou. Permaneci calado, a espera do que ele diria. Talvez voltasse a chorar, talvez começasse a gritar ou talvez, e até muito provavelmente, me chamaria de idiota, insensível, estúpido e utópico, ou algo do tipo. Talvez me chamasse de hipócrita. Em vez de encher a boca de xingamentos, levantou a cabeça e fazendo com que seus olhos encontrassem os meus, acertou-me um balaço no meio da testa.

 - Você prestou atenção no que disse? Você acredita no que acabou de me dizer?

Na testa. No olho, No meio do peito. Ou em todos os lugares ao mesmo tempo. Rambo passou por aqui, pensei - em um daqueles momentos em que não sinto orgulho do meu senso de humor.

- Eu...

Hesitei.

- Eu sabia. Você nem sabe do que está falando. Tirou essa frase de onde? Lewis? Dostoiévski? Hemingway?

- Eu não...

- Ah, sim, Bukowski. Um porco tão medíocre quanto você.

- Eu...

Então ele levantou. Saiu. Há mais de uma hora. Eu, em contrapartida, continuo aqui, sentado, olhando para onde ele estava como se ainda o estivesse. Era como se seus olhos continuassem atirando violentamente contra mim algo que eu não... Mentira. Negar que sei do que ele estava falando é pior do que aceitar que sou apenas um covarde. Tão somente um covarde. Nada além de um covarde egoísta.

Um covarde egoísta. Que não quis ir em frente por permitir que os lamentos esbravejados de algum lugar interior vencessem aquilo que era o certo, naquele momento.

Que posso eu falar sobre o amor? Logo eu que bebi tanto do poço do orgulho e cerquei minha vida com muros tão altos que ninguém foi capaz de atravessar. E aqueles que tinham capacidade desistiram ao perceber que quando estavam no topo, prestes a entrar na minha vida, eram agredidos pelos meus inconscientes golpes sociopatas, antissociais e, insistentemente, egoístas.

Talvez agora que reconheci o quão egoísta sou consiga... não. Melhor não.

Deveria pedir desculpas para ele. Para ela. Para todos eles e elas que fizeram muito mais do que deveriam e, por minha culpa, saíram machucados. Deveria pedir perdão por não saber.

Por não querer.

Por não conseguir.

E, principalmente, por não ter tentado, antes, ver o que só estou conseguindo ver agora, sozinho, olhando para o nada com uma imagem ainda em mente. Aqueles olhos castanhos.

Espera.

Os olhos dele não eram castanhos.'

Silenciosa a garoa cai. Silenciosa a garoa caía. Silenciosa a garoa caía sobre seus cabelos. Silenciosos os seus cabelos caíam sobre seus olhos. Silenciosos os seus olhos choravam. Silenciosas as suas lembranças ruíam.

Silencioso, e triste, o seu coração batia.