sábado, 11 de janeiro de 2014

Histórias de uma vida não vivida (57)

*Para onde meus passos estão me levando? Era aqui mesmo que eu deveria estar? Com ou sem redundância verbal ou escrita, redundantemente duvidoso, incansavelmente incompreensível. Eu ou qualquer outro alguém que esteja desesperado à espera de uma resposta concreta para aquela pergunta assim o continuará, a menos que procure-a no lugar certo. Se em um mesmo plano não conseguimos visualizar além, no tempo e no espaço, haverá algum lugar onde isso e aquilo poderão ser vistos. O corpo e a mente não conseguem chegar até lá porém, felizmente, Alguém pode. O problema é conseguir ouvir porque querer todos querem mas saber esperar a resposta, diante dos olhos, requer uma coragem que só quem deixa o seu coração humilde, ao ponto de saber reconhecer sua alma, é capaz de ter.

- Você consegue entender, agora, por que seu avô tem razão quando diz que a vida é uma completa insanidade?

- Acho que sim, vovô, mas continue a história.

- Onde eu parei?

- Você acabou de contar e já não lembra?

- Perdi a capacidade de memorizar o que digo, mesmo que tenha sido segundos atrás. É como se no meu cérebro houvesse um pano e, quando mudo de assunto, esse pano some e aparece outro.

- E desde quando o senhor está assim?

- Um velho como eu não sabe ao certo quando nada aconteceu na vida ou mesmo na história. Deve ter sido quando eu tinha uns 20 anos. Ou menos.

- Ou mais.

- Exatamente. Enfim, onde parei?

- Você estava falando que havia ganhado um presente mas não sabia quem o havia enviado.

- Ah, sim. O que eu falei que era insano?

- A vida.

- Ah, claro, é verdade. Bem, meu neto, depois de conversar com todas as pessoas que poderiam ter deixado aquele presente para mim... ah, lembrei.

- Do que?

- Do por que falei que a vida era insana. Hahaha

- Continua vovô!

- Calma, calma. Depois de fazer o que devo ter acabado de contar, fui até um conhecido que era detetive para ver se ele, com suas fontes todas, conseguiria descobrir quem havia deixado aquele presente para mim.

- Não era mais fácil aceitar o presente e só? Ou escrever 'Obrigado pelo presente, senhor ou senhora anônimo' em uma folha e colar no portão de casa?

- A cidade era pequena e... poderia ser de uma admiradora secreta.

- Uma o que?

- Na minha época, pequeno, jovem e inocente rapaz, não havia esse liberalismo banal em que qualquer um chega em qualquer um, pega, larga, beija e lambe sem pedir licença e sem qualquer sentimento. Havia paixão, romance com olhar, admiração, poesias em forma de passos e cabelos ao vento, era clássico, doce, até mesmo inocente em alguns casos.

- Ahn, não entendi direito.

- Nem precisa porém, só para saber, admirador secreto era um cara que olhava de longe, acompanhava discretamente uma moça, gostava dela de longe, só olhando, querendo se aproximar aos poucos mas, por ser tímido ou envergonhado de mais, não conseguia aproximar-se da tal moça. Ou era uma moça que admirava um rapaz, o que era mais difícil pois... havia um grande cuidado dos pais para com suas filhas.

- Você cuidava da mamãe assim?

- Claro. Mas não vem ao caso.

- Continua vovô, estou começando a ficar entediado com essa história.

- Como eu morava em uma cidade pequena, não seria difícil descobrir quem havia entregado o tal presente.

- O que era o presente?

- Calma. O detetive resolveu fazer-me esse favor se, em troca, eu o ajudasse a cortejar uma moça.

- O que é cortejar?

- Conversar, convidar para sair, agir como um cavalheiro para tentar conquistá-la.

- Por que o senhor, vovô, se o senhor nem namorada tinha?

- Porque a moça em questão era minha prima.

- Eu conheço?

- Não.

- Ah... olha, no dicionário diz que cortejar quer dizer tratar com cortesia.

- Então, é o que eu disse mas em outras palavras.

- Tratar com cortesia não quer dizer conversar.

- Guri, quer que eu termine a história ou não?

- Vovô, ela está chata!

- Você também está chato!

- Ah, tá bom. Então continua.

- Eu aceitei, já que conhecia a moça e, enfim, não custava nada ajudá-lo se ele faria o mesmo por mim.

- Como você fez para ajudá-lo?

- Isso é outra história.

- Se for tão chata quanto essa, não quero nem ouvir.

- Se você continuar me impedindo de contar, não vai terminar de ouvir essa.

- Por que?

- Vou te dar um puxão de orelha que vai te deixar surdo.

- NÃO vovô, por favor não, continua essa super história divertida!

- Ele, o detetive, fez as pesquisas dele, falou com um e outro, com lojistas e tal mas, como eu não havia aberto o presente, não conseguiu descobrir nada.

- Por que você não queria abrir o presente?

- E se não fosse para mim? Haviam deixado na porta da minha casa com um cartão onde meu nome estava escrito mas, e se fosse para alguém com o mesmo nome que o meu?

- Vovô, ninguém tem o mesmo nome que você!

- Quieto. Passei dias sentado na frente de casa, segurando o presente, tentando ver se alguém passava por ali e dava indícios de que havia deixado esse presente para mim. Mas foram quatro, cinco, dez dias e nada. Resolvi, então, abrir o presente.

- O que era? O que era? Conta logo vovô!

- Um prato.

- Um prato?

- Sim, junto com um garfo, uma faca e um saca-rolhas.

- Não entendi. Para que isso?

- Tinha também um cartão escrito: "Venha jantar comigo, no sábado que vem".

- E a assinatura?

- Não tinha.

- Você foi?

- Claro que não.

- Por que?

- Dois motivos: primeiro, como eu havia esperado duas semanas para abrir o presente, aquele sábado, para o qual era o convite, já tinha passado há mais de uma semana.

- E por que mais?

- Não tinha endereço no cartão.

- Como? Mandam um cartão querendo que você vá jantar e não avisam onde é?

- Exato.

- Ai, vovô, a história é tediosa mas o final é de doer.

- Coisas da vida, guri.

- Eu nunca recebi um prato, um garfo e uma faca.

- Muito menos um saca-rolhas.

- É.

- Mas há uma lição nisso tudo que, talvez, lhe sirva para alguma coisa, algum dia.

- Ah, sei, conta outra.

- Não, é serio.

- Qual é? Nunca espere para abrir um presente? Nunca escreva um cartão convidando para uma janta sem informar o local? Nunca deixe um presente para alguém sem nome e sobrenome de quem deve receber o presente?

- Não.

- Então não sei.

- É bom desconfiar do que é fácil, sempre.

- Por que?

- Já pensou se eu tivesse aberto o presente e tivesse ido nessa janta?

- Você não sabia onde era, vovô.

- Mas poderia ter imaginado. Onde quer que eu chegasse, na hora da janta, com um garfo, uma faca e um prato, e possivelmente um vinho para ser aberto por um saca-rolhas, eu jantaria.

- Não entendi.

- Eu estava apaixonado por uma colega, naquela época. Ela era tão legal que duvido que não me convidasse mesmo para jantar em sua casa, mesmo não tendo sido ela a entregar o presente. Meses depois fiquei sabendo que ela gostava de mim.

- Vovô, onde você quer chegar com isso?

- Depois que guardei aquele presente, resolvi parar de procurar alguém.

- Quem você procurava?

- Alguém é modo de dizer, estou querendo dizer que decidi parar de procurar uma namorada. E isso foi bom.

- Por que?

- Duas semanas depois daquilo, conheci sua avó.

- Mas vovô, não faz muito sentido. É como arrancar sementes de jaca, uma hora você arranca uma podre e na outra arranca uma boa.

- Lugares para ir jantar eu tinha entretanto, se tivesse ido em algum deles, muito provavelmente teria mudado toda a história da minha vida.

- Nossa, toda a história da sua vida, vovô?

- Sim.

- Nunca mais quero ganhar presentes então.

- Por que?

- Vai que eu não sei se é para aceitar, para usar, para devolver, para agradecer ou sei lá mais o que, e daí toda a história da minha vida muda?! Não quero! Tenho medo!

- Você sempre fará escolhas. E muitas delas mudam o caminho que a sua história estará tomando.

- Então como saber se é a hora ou não é, se devo ir ou ficar?

- Pense que sua alma só fica em paz quando você está no caminho certo mas seu coração fica em paz quando sua consciência está tranquila.

- E como eu sei quando é assim? E se a alma não estiver em paz mas o coração sim?

- A alma nunca está em paz quando a vida não está no caminho certo.

- Mesmo que o coração esteja em paz?

- Mesmo. O coração, o nosso humano, muitas vezes se engana.

- Ah... mas que difícil vovô! Tenho medo de não saber quando não estou no caminho certo. O que eu faço?

- Coragem com prudência, alegria com tranquilidade, ousadia com temperança. Assim você será quase incapaz de errar.

- Tempe... tempe o que?

- Temperança.

- Espere um pouco.

- O que foi?

- Vou pegar o dicionário.

Pedaços de um pensamento (80)

Quando acordei, hoje, senti uma tristeza que há tempos não sentia. Ali, parado, olhando o mais singelo da criação, entristeci ao perceber que o tempo é implacável. O que dias atrás reluzia como uma grande chance de deixar que a vida, num todo, tirasse ao menos um pouco mais de toda essa pintura gosmenta derramada sobre mim ao longo dos anos, parecia, naquele silêncio, ser parte de um grande salão, escuro e vazio.

As dúvidas, sobre os mais diversos assuntos e aspectos que desconheço, continuam vivas. O não saber, o desconhecer e a indiferença ainda são fortes dentro de um ser que, por algum motivo, parece estar mais vivo.

Tanto na alegria quanto na tristeza, passando por raiva e pelos abraços empolgantes do espontâneo, o que parecia existir era algo que lutava em surgir porém, por diversos motivos e inúmeras desculpas, acabava sendo oprimido, deixado de lado. Senti-me tão vivo como há tempos não sentia. Vida singela, distante das rotineiras indiferença e distração.

Ali, diante do que de mais belo foi apresentado aos meus olhos, senti que estava a abertura para o caminho que há tempos ziguezagueava procurando, sem sucesso.

Como de costume, não consigo ter algo bom sem estragar, de alguma forma. Seja por falta de atenção, por descuido ou porque, de alguma forma, não consigo dar a devida importância, falta muito de mim naquilo que quero para mim. Nem tanto pela forma ou conteúdo e sim, quase que inteiramente, pelo que nem mesmo uma mente atenta e bem definida conseguiria descrever.

No silêncio, na manhã, no quarto escuro, estive diante do sublime.

Sublime que quero ver pelo resto dos dias.

De todos os dias que, algum dia, ousarei chamar de meus.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Pedaços de um pensamento(79)

É difícil caminhar sem perspectiva de onde chegar ou, ao menos, ter uma noção de como fazer para pular as caixas de lixo que são jogadas no caminho para lugar qualquer. Tanto faz como, ultimamente, tudo tem sido levado com indiferença. Ultimamente longo, de semanas, meses, até mesmo anos. Um algo inexplicável mas compreensível, salvo sua origem. Um nada enrolado, embromado, descuidado e rimado que, por fim, não leva a nada além de voltas sem sair do lugar. Os olhos não conseguem ver o nascer do Sol e, tampouco, seu poer - se é que essa palavra faz parte de algum dicionário.

Mais um ano vem e a falta de perspectivas em grande parte de uma vida, que não é vivida no todo, transforma o que se quer em utopia, sonho distante e longínquo que afasta de tudo o que pode parecer uma ponte que afasta do solo lamacento e fétido. Nenhum dos últimos anos que estavam por vir parecia estar cheio de novo, do novo.

De alguém que inspira, onde está a Alegria em meio a tudo isso?

De outra inspiração, a noite vem como resposta que justifica o injustificável, tornando o incompreensivo algo palpável e, com muito esforço, tolerável em meio ao deserto, lixo ou lama no caminho. Seja lá qual venha a ser esse caminho.

Olho para o céu, espero a Alegria. Quero a Alegria. Tenho sede Dela. Preciso Dela e sem Ela não posso viver mais.

A Alegria. Que é Ele. Que são Eles. Que É, por si só.

Como um título de filme fruto de tradução comercial, frases banais completariam com alguma categoria - e nenhum sentido profundo - o que quero dizer há anos e não consigo dizer para mim.

É um fato, pato.

Preciso de coragem para deixar que a Alegria, como disse alguma inspiração, genial, em décadas passadas, seja o que É em mim.

Será, então, o fim da lama, do lixo, do fedor e, claro, do deserto e dessa indiferença noturna que insiste em castigar, enfraquecer e, de alguma forma, forçar a transformação, a regeneração, a escolha por quem pode, e irá, executar tudo isso que é fonte dessa coisa estranha e, singelamente, pura.

Estou cansado de esperar porém, sem medo, não acho que desespero seja necessário porque, talvez, não seja dentro dos próximos 365 dias que tudo mudará e a Alegria reinará.

Entretanto, sem medo de errar, digo que Ela virá.

Alegria que abre o coração, e os olhos. Mas que precisa da coragem.

Vem, Alegria. 

Amém.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Histórias de uma vida não vivida (56)



*As palavras tem o poder de mudar a história. Alguma história, ao menos. Nada mais profundo e clichê do que começar dizendo o que todo mundo pensa, fala e, apesar disso, não dá grande importância. Porque é banal. Virou banal. Transformaram em banais as palavras. Tão banais quanto sentimentos e sonhos. Banais como bananais, extensos e iguais a quaisquer outros - exceto pela nacionalidade dos trabalhadores e o governo que arrecada os impostos. Tiraram o valor das palavras para colocar... alguém sabe onde enfiaram aquilo que diferenciava as palavras das demais coisas que representam algo? De Sansão cortaram os cabelos, das palavras tiraram a importância. Malditos! Quero as palavras que mudem a história, a minha história, a sua história, a história do mundo. As palavras que mudem os sonhos, que mostrem a Verdade e encaminhem todo esse quarto escuro para uma saída luminosa e cheia de vida. Quero as palavras que meu coração treme ao tentar, em vão, dizer e murmurar - daqui a pouco banalizarão os murmuros transformando-os em gemidos, grunhidos, barulhos irritantes ou qualquer outra coisa (malditos!). Quero as palavras que extravasam sentimentos e tornam claros pensamentos, ideais, objetivos e tudo o que mais possa ser descrito e externado para qualquer um - que pode ser nenhum - ouvir, ler, descobrir. Quero o sentido das palavras de volta, sem banalização, sem desprezo, sem fazer o que tem feito de melhor: tirar o significado e transformar todo oásis em deserto absoluto, assim como fizeram com o amor, com a Verdade, com a Justiça e com todas as leis morais implícitas num humano qualquer.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Pedaços de um pensamento(78)

Ultimamente tenho pensado que boa parte disso, ou daquilo, tem sido de uma banalidade desnecessária e, sob algum aspecto, nojenta e infantil. Ao meu ver, naturalmente é meu se eu escrevo, as nuvens no céu, vagando empurradas por ventos oriundos de diferenças entre massas térmicas - ou algo próximo disso - tem muito mais razão em ser do que boa parte do que tem sido à partir de mim, das minhas palavras, ações, enfim, mais sentido do que boa parte do que está inserido no meu pessoal e intransferível tempo.

Outrora a raiva tomava conta. Banal e fútil raiva. Doente raiva. Desnecessária e inevitável raiva. Se o processo fosse mais rápido é certo, e quando digo que é certo aposto que beija uns 90 porcento facilmente, que haveria em algum lugar de mim - que não sei precisar por estar longe dessa área do conhecimento, e com preguiça de digitar no sabichão Google, que, covarde, provavelmente me levaria para a Wikipédia - algo como uma úlcera, ou sinônimo a esta, em fase de desenvolvimento à vapor.

Nota-se que jogar palavras e criar relações análogas - mesmo que superficialmente - não é tarefa para poucos. Os bons são desenvolvedores mas os gênios são objetivos. Qual era o assunto mesmo? Ah sim, a úlcera.

Dizem que stress causa um bolo de três andares de problemas no corpo humano. Ou pode causar. Ou os cientistas, ou "cientistas", dizem isso só para manter seu status de senhores do saber enquanto nós, mortais - como eles, otários! - tentamos evitar tudo o que nos dizem ser maléfico exceto, é claro, frituras, doces, horas seguidas sem descanso de (insira atividade) e por aí vai.

A úlcera, sim!

Desse mal, ao menos enquanto, não fui premiado à partir de toda raiva que eventualmente habita em mim e tira (de mim, lógico) a paciência e o controle sobre meus pensamentos, sendo esses cada vez mais raros - não tente entender. O ponto é que escapei disso. Uma, duas, dez vezes. Talvez tenha escapado hoje quando habitou em meu ser um desejo imenso de bater na cara daquela v(reticências) que insistiu em ser medíocre e perturbar alguém que merece respeito e afeto.

Escapei. Ou a tal úlcera pode ter começado hoje. Ou retomado o processo abandonado desde o dia em que Deus deu um fim na minha aparente(na época) fase de desejo súbito pelo mal especificamente alheio. Nada que condiga com quem quero ser mas coerente com todas as injustiças vistas. Uma coisa não justifica a outra.

Foi só falar e a tentação de dar um soco na cara de um doente comunista lambedor de Marx voltou. Parei por aqui antes que a vontade de fazê-lo volte.