Abro as páginas dos jornais, nada prende a minha atenção. Ligo a televisão e troco de canal, nada me interessa. Há certa semelhança com dias que nada parecem trazer, horas que passam sem deixar qualquer resquício de lembrança. É como uma faca sem fio, que pode até machucar mas não deixará cicatriz. A dor passa a ser nada, sequer lembrança de um dia ruim. Pois afinal de contas, qual a diferença entre os grãos de areia? Juntos são significativos, separados, praticamente iguais, todos insignificantes perto de um todo. Dos dias, da vida, dessa passagem desanimadora do tempo que não deixa marcas, onde está o significativo? Escondido no meio dessa proteção às avessas, paredes, grades, muros ou fossas que limitam passos, limitam olhares, limitam vida, viver, até mesmo sonhar. Significativo preso, amarrado, escondido. Não querem que ele seja visto como sentimento, como sinceridade, como palavra. Não querem que seja percebido, por isso o isolamento, a proteção mentirosa. Sem razão, sem lógica, sem coisa alguma. Perdido de vista como palavras aqui. Ontem, hoje e, se surgirem, amanhã. Perdido como qualquer saudade, como qualquer lembrança, como qualquer amor.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
Histórias do Bandiolo - Onde está a luz?
Escrito por
Vini Manfio
Havia algo errado. A luz era fraca, artificial. O Sol parecia morto e o céu era seu cemitério. O verde das árvores, a vivacidade dos animais, enfim, todas as formas de vida estavam agora vazias. O caos imaginado por doutores e cientistas parecia ter chegado. Estranho era ver que ninguém mais estava se importando, se é que do alto de seus egos arrogantes conseguiam perceber algo em torno de seu corpo cheio de enfeites, vazio de verdades. A sensação térmica era... estranha, nem calor nem frio. Não ventava porém as folhas das árvores e os papéis de bala das crianças no chão estavam sem movimentando sem auxílio externo. Quanta sujeira, quanta escuridão porcamente iluminada por luzes que aos poucos se apagavam. Como tudo ficou tão... sem graça, sem vida, sem sentido. Olhos humanos não conseguiam ver, mente não imaginava e coração não sentia... nada. Voltou para casa, fechou a porta. A campainha tocou, o telefone tocou. Não atendeu nem um nem outro. Ouviu gritos. Havia sim, vida. Que diferença fazia esse sinal de vida se não sentia calor, não conseguia imaginar nada à partir do que via, não havia nada especial naquele dia, que diferença fazia?
Voltou para o quarto e deitou-se. Daquele jeito, queria dormir pelo resto... de algum tempo, até que tudo voltasse ao normal. Talvez fosse apenas um pesadelo, ele estivesse ainda dormindo e a luz brilhava normalmente lá fora. Talvez fosse apenas um dia nublado. Talvez ainda fosse madrugada. Telefone, campainha, gritos, qualquer coisa. Quis dormir.
Fosse o que fosse, mesmo querendo, percebeu que há dias em que não há calor, luz, um sorriso ou um céu azul com nuvens brancas. Dias em que tudo parece descolorir, perder a veracidade, a essência. Felizmente a luz volta a brilhar em algum momento, o céu volta a ser azul, as árvores ganham cor e os animais, humanos ou não, voltam à vivacidade.
No pesadelo, no sonho, no céu nublado ou na madrugada.
No pesadelo, no sonho, no céu nublado ou na madrugada.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Histórias do Bandiolo - Agora, então
Escrito por
Vini Manfio
Os passos eram pesados como nunca haviam sido, fosse pelo peso sobre a cabeça ou sobre suas costas. Caminhava com dificuldade, com lentidão sofrível e digna de pena. Cabeça baixa, olhava para o chão pois não conseguiria levantar caso tropeçasse. Fraco, instável, desgastado, suas forças estavam direcionadas aos pesados fardos que carregava e aos lentos passos, necessários para que não morresse ali mesmo, com tudo aquilo sobre si. Não poderia deixar nada daquilo para trás por isso, mesmo que custasse o mínimo que lhe restava, continuava a carregar aquela enorme quantidade de... o que era mesmo? Ah sim, coisas do passado. Visíveis e invisíveis, pesadas como nenhuma outra fora no presente. Talvez pelos anos que haviam corrido desde o surgimento de cada uma delas, talvez pelas lágrimas que encharcaram-nas ou, quem sabe, por estar sozinho desde algum então. Seu pai lhe ensinou a nunca baixar a cabeça. Ninguém deveria se curvar ao mundo, ao tempo ou a qualquer outra pessoa, dizia. Baixar a cabeça era sinal de fraqueza, ainda mais para si. Seu pai era sábio porém não poderia fazer jus ao seu conselho. Seus olhos ardiam pois a luz do sol refletia no chão seco, carente de gotas de água. Seus pés e suas mãos tremiam. Fraco, incapaz, lembrava de seu pai e o remorso por não poder fazer o que lhe fora dito transformava aquela situação na pior já vivida. Pelo amor, pelos amigos, por erros ou qualquer outra coisa presente ali, naquele pesado passado. Não tinha mais forças, deixou que tudo aquilo caísse no chão. Assim como ele caiu, exausto e acabado. Cercado por tudo que com vontade e sem razão carregava, estava com a cara no chão. Percebeu que, embora estivesse no chão, não estava mais de cabeça baixa. Talvez seu pai, se ainda vivo, lhe desse uma surra ouvindo isso. Dormiu com um sorriso delirante nos lábios.
Horas, quem sabe dias, depois, levantou. Organizou o que estava ao seu redor e, para sua surpresa, muita coisa havia ficado de fora. Então seguiu, deixado uma parte de seu passado para trás. Dessa vez, sem remorso algum.
*do nada para palavras vindas de pensamentos distantes,
sem muito significado.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Incertos segundos
Escrito por
Vini Manfio
Cada segundo alongado torna o estado presente, e passado, maior. Período cada vez mais longo, sem expectativa de término. Duração indefinida que impede qualquer certeza sobre algo que não seja passado. Com uma convicção real, diversas dúvidas inescrupulosas, a falta de discernimento sobre o que realmente acontecerá e a impossibilidade de descobrir o que fazer. Imaginar o presente como tempo e contexto certo faz muito sentido, não só por estar vivendo-o mas também por todas as coisas que cercam esse viver presente. Passado quase distante, ainda digno de remorso e arrependimento, cuja lembrança acaba tornando sensata a impressão de que não teria sido o que hoje pode ser. Imaginar erros longe do presente em direção ao passado, cujas marcas na lembrança são feitas pela angústia de nada poder fazer é fácil, e condiz com o que hoje é motivo de reflexão. Impossível retirar explicação inútil e justificativa estúpida do meio disso, ou seja, é desnecessário querer ir contra toda essa verdade que jamais deveria ter sido coisa qualquer, menos ainda uma falsa verdade. Entretanto, sentir a falta de, imaginar-se, e ter a convicção de que, remetem a complementos diferentes dos que complementavam essas frases pessoais no passado. A dura e sofrível admissão do que vinha a estar, o que outrora remetia ao próprio ego, buscando uma salvação alheia para então salvar a própria alma, hoje remete à salvação de qualquer alma, qualquer coração ou, em menor escala, qualquer mente, para então conseguir, com muita misericórdia Divina, salvar a alma, e consequentemente o ego. Não que a salvação do ego esteja sendo importante nos últimos, sei lá, 15 meses. E não, também, que alguém em especial não seja o verdadeiro motivo de todo esse pensar, dessa análise um tanto improdutiva porém instigante.
De tudo a mais ou menos, não consigo imaginar a minha vida sem o motivo dessas, e de tantas outras palavras que escondem algo que é muito maior do que qualquer outro algo que outrora tenha me motivado. O meu presente, sendo estado de vida ou recebimento por qualquer razão(quem sabe uma boa vontade do Criador) seria sim, aquela que há muito tempo deixou de ser também uma razão, concentrando-se apenas em uma emoção. Sendo, (ah não!) então, A emoção.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Simples assim
Escrito por
Vini Manfio
*Palavras cujo significados somem frente ao som que emitem. A culpa é da boca que proclama um sentido ou do ouvido que seleciona o que lhe convém? Que culpa haveria de ter qualquer deles, boca ou ouvido? Diferença alguma faz quando o que importa é o que os olhos vem e o coração faz sentir. Detalhes tão pequenos, como significados e sons quaisquer, perdem sua quase insignificância para o que traz o frio da ansiedade e o calor de batidas fortes, porém inaudíveis. O sol brilha, reflete em dois pontos verdes. Que importância teria qualquer coisa que a razão viesse me dizer? Nenhuma, pois deixei de ouvir no momento em que pude ver. Deixei de pensar quando voltei a sentir o que faz de mim alguém melhor.
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