segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Histórias de uma vida não vivida (25)


*Pequeno raio de sol. Pequeno e tão valente raio de sol. Percorreste milhões de quilômetros de onde nasceste até chegar aqui, no meu campo de visão. És contínuo e jamais andas sozinho. Não te faz falta algum momento de solidão, para refletir sobre essa vida corrida e um tanto impensada? Raio de sol, sabes da tua capacidade, pela simples, porém estranha, existência tua? Sabes o que a tua presença, rápida e minimalista pode representar em um dia onde poucos como tu conseguem existir em campos de visão como o meu? Consegues trazer um sorriso que, mesmo sendo mínimo como a tua existência, faz valer à pena um dia escuro, com ar e céu de tristeza e lamento. Sim, consegues. Apenas existindo, acontecendo. Não pensas, não aconteces, não refletes sobre a tua existência. Mas fazes teu papel melhor do que todos os que pensam sobre suas existências, buscam entender de onde vieram e para onde vão, e por que, além de tudo. Tu és sábio por isso, raio de sol. Sábio e um tanto quanto malandro, por não ter tempo de achar que a tua existência é inútil e desnecessária, sabendo da existência de outros como tu. Sim, raio de sol, tua sabedoria vem Daquele que criou aquele que te enviou. Está bem, eu sei que tu não pensas nisso. De qualquer forma, parabéns, mesmo sem ter noção, tu cumpres muito bem o teu papel. Ou melhor, a tua existência.



*outra vez achei tão boa a introdução que nem precisei escrever nada além disso. 
Consegui dizer o que queria com poucas linhas, muitas palavras e afins. 
Gostei tanto dessas frases mentalmente infantis 
que nem entrei na complexidade da existência de um raio de sol 
que ilumina e aquece sem ao menos ter saído do sol. 
Deixa para lá, quem sabe em um outro dia de chuva, 
como hoje, 
eu consiga trazer o calor do raio do sol de algum outro lugar. 
Relativo quanto à situação, jamais quanto ao significado.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Como uma volta


Dentre tantos gritos, um ecoa vaidosamente no meio de tantos outros. Ele toma para si proporção descomunal e inútil. Bom, e um tanto quanto superficial. Desgosto feroz que não é raiva, lamento tolo que não é tristeza. Distante do que precisa, necessita e é dito, com mais uma rara exceção hoje, aqui, nessas palavras costumeiramente tortas. Um grito que não sai da boca porque não precisa sair de lá. Ele ecoa, deixa sua marca derrubando uma coisinha aqui e outra ali com suas ondas sonoras, pasmem ou não, inexistentes porém, ainda assim, fortes. Não há o que dizer quando um nome passa a ser a razão das palavras ditas. Não há. Grito algum consegue compensar a vaidade superficial de um grito, qualquer que seja a proporção do seu eco, qualquer que seja a sua consequência. Tanto faz, palavras são ditas e não há como mudá-las. Quem sabe com a troca de nome, de cidade, de identidade, de autor ou idealizador do tal nome, das tais frases. Dizem que uma árvore não cai longe do pé, mas se um pássaro ou um menino pegar e carregar, ela terá caído em outro lugar. Pensem como quiserem, dizendo o que digo, não explico nada, não demonstro nada, não busco entreter ou ter alguma palavra bem recebida. Sim, tanto faz se a vida é entendida literalmente, por palavras, gestos ou pelo nome. Achei que não precisava mais dizer que cansei da literalidade daquilo que não tenho e prefiro voar sem asas, falar sem voz e fazer ecoar alguma coisa por algum lugar do incrível, distante, um tanto quanto irreal, mas muito interessante mundo obscuro da subjetividade.


*não que alguém fosse comentar, mas... 
sem comentários nessas frases.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O vazio de viver e só(13)


Entre as palavras e os números. Ou elas ou eles. Entre o idealizado e o concretizado. Apenas um. Entre o que remete a tempos e o que remete a tempo. Com considerável diferença entre ambos. Entre o ideal, ligado ao idealizado, e o distante do ideal, caminho um tanto quanto oposto. Entre média e assíntota. Muito, muito imaginário agora. Alguns passos separam o sonhador e o arrependido do extasiado e insano. Olhos que se olham para trás e veem o que poderia ter sido ou foi. Distante de um mundinho já não mais real. Já não mais exato. Já não mais verbal ou numérico. Passos acima e abaixo, ao lado pontual e oposto, jamais adentro. Tanto menos afora. Não há como voltar, tampouco escolher uma terceira opção. Dentro da razão o sentimento. Quem sabe vice-versa aqui ou acolá. Tanto faz. Perdido no entre afastado passos ou quilômetros de um e outro. De direita ou esquerda, sem o denotativo intuitivo. Não é o braço que avisa para onde vai. Não são os olhos que avisam para onde vão. Nem a mente. Nem o coração. Razão, emoção, qualquer forma que destoa do que se pensa ou sente. Nada, repito, nada disso escolhe entre um ou outro. Nada disso avisa, sabe, intui ou mesmo imagina para onde vai. Nenhuma dessas possibilidades, dessas frases ou números, no infinitivo ou de sete em sete. Nada, ninguém. Quem sabe uma nuvem, quem sabe um vento. Quem sabe um caminho que cai do céu ou empurra os que estão no meio do entre para o lado. Direito ou esquerdo, não importa. Quem sabe está complexamente perto e longe daqui. Quem sabe não é quem escreve, menos ainda quem lê. Saber, conhecer, imaginar, nada. Nem ao menos sonhar mais é possível. Nada disso faz ou deixa de fazer sentido. Nem real ou irreal, nem ideal ou real, nem braço, olho ou pé. Nem mente ou coração. Nem ilusão. Muito menos sonho. Nada disso define uma escolha, uma opção, uma definição. Nada disso faz sair do meio. Nada disso distingue entre a lembrança e a lembrança.

domingo, 5 de setembro de 2010

Frase do dia

Uma história, por mais errada que seja, não pode ser apagada quando escrita com tinta permanente. A vida é assim. Embora você tenha a possibilidade de aprender a melhorar, a escrita e o conteúdo. Quem se importa com seus erros busca sim, corrigi-los. Mesmo que não volte no tempo.


*dedicado à menina dos olhos verdes que, após uma, 
infelizmente breve, conversa, inspirou o pensamento que trouxe essas frases.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Histórias do Billi J. - Uma história por cinco letras


O Billi J., quando com 5, 6 ou 7 anos, queria aprender a ler muito mais do que alguém quer aprender alguma coisa em qualquer fase da vida. Ele era sedento pela leitura, tanto que olhava fotos e balbuciava as frases das imagens dos livros que ganhava de sua mãe. Sabia o alfabeto inteiro de trás para frente, letra por letra, mas não conseguia juntá-las de maneira ordenada. Isso o intrigava, o motivava a querer aprender a ler, a juntar aquele alfabeto de maneira ordenada. Ele queria ser gente, poder ler, recitar, falar, aprender cada vez mais enquanto os outros meninos só se preocupavam com brinquedos e brincadeiras de criança. Sim, vocês sabem que o Billi J. não era um exemplo de criança com muitos amigos, uma vez que era excluído por seus colegas riquinhos e cheios de pré-conceitos caseiros contra meninos que usam óculos, andam sem roupinha de menino rico e afins.

O Billi J. procurava memorizar sequências de letras em todos os lugares. Placas, panfletos, jornais, revistas e televisão. A cada nova sequência de letras, chegava na aula, escrevia, ou tentava escrever, no quadro e pedia para a professora qual palavra era aquela. Encantou-se quando descobriu que maçã e melancia eram escritas dessa maneira, pois pensava serem palavras muito mais complicadas. Imaginem o prazer que ele teve quando conseguiu escrever anticonstitucionalissimamente pela primeira vez. Bom, deixa para lá, isso não vem ao caso agora. Porque ele ainda não havia aprendido a ler e aquele era seu maior sonho, no auge dos seus 5, 6 ou 7 anos, nem bem completos ou vividos.

A sua professora tinha paciência e gostava da sua curiosidade. O Billi J. ia atrás e a cada dia trazia uma nova sequência de letras para que sua professora o ensinasse a ler. Palavra por palavra. Muitas vezes repetia a palavra, ou melhor, a sequência de letras, mas não se importava quando percebia isso, pois o importante era estar em busca do aprendizado que a maioria não queria nem saber. E pensar que isso não vale apenas para as crianças pequenas, infelizmente.

O Billi J. decidiu que acertaria uma vez a palavra. Então ficou ouvindo na televisão o sorteio daquelas cartelas de... números. E quando apareceu o número e embaixo o seu nome, o Billi J. decidiu que ali conseguiria acertar, escrita e leitura da palavra. Cinco letras, sendo três consoantes e duas vogais. Decorou a sequência e a leitura. A leitura e a sequência escrita. E ficou assim das 3 horas da tarde de uma terça-feira até às 7 e 30 da manhã da quarta-feira subsequente. Pensava e dizia alto, letra, ordem, leitura da palavra. Sim, conseguiria mostrar para sua professora que valia investir nele, nessa sua sede por conhecimento e aprendizado.

Chegando na aula, na quarta-feira, sedento por mostrar que havia aprendido a escrever, e ler, uma palavra. Chamou a professora e escreveu no quadro, as três consoantes e as duas vogais, nas suas ordens corretas. Leu. E sorriu. Olhando para a professora, a decepção(mais uma...).

-Billi, é vinte, e não vinti.

Sério, o Billi J. quase chorou quando ouviu aquilo. O que fizera de errado? Não entendia.

- Billi, não fique triste. Você deve ter ouvido a pessoa dizer vinti, com i, mas se escreve vinte, com e, tá bom? Nem tudo o que se fala é como se escreve. Tà, mas que bom que você continua procurando aprender.

Aquele consolo ajudou muito aquela criança de 5, 6 ou 7 anos. Ele sorriu, engoliu o choro e voltou para sua mesa, não sem antes ser chacoteado, como de costume, pelos colegas que não sabiam diferenciar um r de um m.