sábado, 10 de julho de 2010

O vazio de viver e só(3)


Não posso fugir do meu eu para conseguir entender plenamente um eu que não o meu. Não posso e, mesmo que pudesse, tenho sérias dúvidas se o faria ou não. Negação não por negar, mas por ser injusto. Injustiça tão grande seria adentrar e romper um livre-arbítrio assim como julgar razões e explicações escondidas e inatingíveis.  Com mais uma negação digo que nada pode, em contrapartida, impedir-me de esconder o riso fácil, o sonho insanamente simples e a ideia de que o céu é logo aqui em cima da minha cabeça. Continuo negando, dizendo ninguém entende o que acontece ou deixa de acontecer no eu, meu e não meu, sendo tanto quanto melhor assim por não ter vontade de compartilhar o que é, por direito, apenas meu. Meu, do meu eu e, negando novamente, de mais ninguém. Negando de uma maneira diferente, sem querer até, aceitar é questão fora de cogitação tanto quanto mera e sofrível lamentação, sendo essa digna de pessoas inundadas por aquela velha metáfora do oceano de lágrimas. Eu já enchi um poço, um oceano seria improvável sem exagero. Negação. Aqui, lá e em quase todas as frases dessas frases, que nada são, outra negação, além disso. Positivismo infeliz e inútil seria a solução mais fácil e acessível, porém a mais tola quando não há porque pensar que sim, está como deveria estar. Esqueçam palavras, mensagens, frases e qualquer coisa do tipo. Esqueçam razões ou entendimento. Não, nego mais uma vez que seja qualquer coisa se não, com ão, decepção. Ainda que considere que não exista um fim, negando uma última vez, não agora ao menos.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O todo e a parte. As cores de uma, de várias lembranças.


A vontade é ir atrás, seja falando ou escrevendo, mesmo que não saísse de onde estou sentado agora. Não ficar parado, esperando o tempo passar para então, quem sabe, fazer o que pode ser feito hoje. Queria agir como agiria há alguns meses, impulsivamente, sem pensar em possíveis consequências negativas. Inconsequente nunca fui, impulsivo sim. E faz-me falta, hoje, essa falta de pensar, de refletir, de ponderar. Faz falta pois a ânsia por ouvir ou por ler está tirando qualquer réstia de concentração que poderia ter essa confusa, mas decidida e espontânea mente. Atenção, espontânea mente, duas palavras. Detalhe bobo ao qual não me apegaria se, sendo o que pudesse ser, tivesse em mente algum advérbio de intensidade motivado por um sopro de contagiante e alegre forma de vi... viver. Seja qual for a ordem das cores, o que elas pintam me faz falta. Poder olhar no fundo dessa pintura, a qual os mais exaltados poetas, e eu algum dia fui um deles, chamariam de oceano,  seria como detalhar um ponto branco em uma parede preta, sem uso da criatividade, apenas por ver, branco no preto, ou azul-esverdeado qualquer. Recomeço a frase para, quem sabe, ser entendido. Poder olhar para aquela pintura que, centímetros ao lado coexiste, seria o maior motivo de agradecimento por, no mínimo, poder abrir os olhos e ver. Os poetas nada sabem. Tampouco eu, ansioso e temerário por um não muito mais completo do que esse. Uma totalidade negativa a qual não quero chegar. Motivo maior de estar, covardemente, parado, esperando pelo contínuo e impiedoso tempo. Tempo. Tempo. Como pode tão pouco tempo ter passado, tão pouco tempo ter visto e ainda assim sentir tanta falta daquele quadro detalhadamente criado. E daquele pequeno pedaço azul-esverdeado, verde-azulado, ou qualquer outro nome que defina outra incrível criação de Deus.

terça-feira, 6 de julho de 2010

É sorrir, cantar, pular. É estar espontaneamente bem


Alegria. Estado momentâneo perigoso, sim, muito perigoso. Porque alegria é algo que pode ser tão momentâneo, tão somente momentâneo que, instantes passam e ela pode transformar-se na mais horrenda das decepções. Alegria é feita para o momento, pela empolgação, espontaneamente tirada dos mais simples e puros corações. Alegria de verdade, aquela que não cobra, que não exige, que não encontra poréns, aquela que, mesmo rápida, é lembrada por muito tempo. Alegria verdadeira que nem todos conseguem ter pelo simples fato desses muitos guardarem consigo tudo aquilo que vai contra a alegria. Mágoa, raiva, decepção, inveja, orgulho(que é o mais perigoso dos defeitos) e até o perigoso ódio, incitador de tantas e tantas formas de revide, de vingança, de morte, física ou emocional. Alegria que, quando não verdadeira, acaba fazendo uma diferença tão ínfima que não é lembrada nos dias que seguem. Alegria com muitos sorrisos, muita diversão e pouco pé no chão também não é alegria verdadeira, pode ser boa no momento mas acaba rápidamente. Voe sim quando estiver alegre, mas nunca tempo o suficiente para perder o costume de andar, de caminhar, de pisar em terra firme e, infeliz mas necessário, em buracos, pedras e espinhos. Abrace o amigo, a famíla, a Jesus, abrace a si. Faça da alegria mais um aprendizado, mais uma motivação, mais uma razão para agradecer pela vida e lutar pela justiça, pela paz, pelo amor. Seja um distribuidor de alegria, se assim você sentir-se, o mundo precisa de pessoas alegres, de pessoas verdadeiramente alegres. Alegria. Tão momentânea mas tão intensa e sincera quando bem vivida. Alegria.

*só fala alguém pra completar o together. =P

sábado, 3 de julho de 2010

O vazio de viver e só(2)


As portas não são deixadas abertas quando o dono não se encontra, ou pelo menos alguém de sua confiança. Baseado em experiências próprias, concluí algum dia que é necessário um tempo consideravelmente longo, muitos meses ou mesmo alguns anos, para que uma relação de confiança, em alguém para cuidar a casa ou mesmo ouvir uma história, e um sentimento de necessidade pudessem surgir. Necessidade de ver, de ouvir, de estar perto, de contar o que aconteceu com os ovos de ouro da galinha, por aí. É óbvio que hoje, vendo horas agindo como se fossem intermináveis, minutos que não passam e segundos tão lentos quanto um raciocínio em estado de fome, vejo que estava errado. O que algumas pessoas levaram anos, alguém levou semanas. Menos até, pois foram semanas contadas de sete em sete, resumidas e plenas apenas no meio de cada um desses sete, partindo do meio. Chega a ser preocupante tamanha ocupação territorial em tão pouco tempo. Não por não conhecer quem ganha espaço, mas por algum motivo bem terceirizado. Pensamentos que cansam assim como o tempo cansa o relógio até que esse não aguente mais e pare, exausto, sem forças para retomar sua vida cíclica, restrita e conformada. Qual rei mandava abrir sua porta sem conhecer bem quem entrava, ao menos vigiá-lo muito bem para que não ocorresse surpresa, qual rei? Ilógico por não ser eu um rei, por não vigiar bem ou mesmo conhecer quem entra, ganha a minha confiança, o meu respeito e a minha preocupação. Em pouco tempo conseguiu o que muitos em anos ao meu lado não conseguiram. Com um agravante: não havia intenção. Se fosse rei, seria um maldito e estúpido rei, entrando em um colapso nervoso por querer cada vez mais perto esta alma camponesa que, ironicamente, é cercada pela imagem de uma membra da mais importante corte, dentre todos os lugares que algum dia já tiveram um rei. Não tenho pressa em descobrir pois duvido conseguir fazê-lo em um todo tão misterioso quanto a origem e a consequência dessa pessoa que entra sem dizer oi e talvez saia sem sequer se despedir, levando consigo parte do meu tesouro, aquele que daria-lhe hoje, sem hesitar,  se me pedisse.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Histórias de uma vida não vivida(22)


*Odiava listas. Os melhores disso, os piores daquilo. Listas nostálgicas eram piores ainda. O melhor beijo, os maiores fiascos, as melhores noites de sábado. Odiava colocar em ordem qualquer coisa que fosse. Talvez porque sua mente era uma bagunça constantemente aumentada por coisas e coisas. Errado não estava, pois não perdia tempo algum no passado. Sem sonhos até que a lenda do cupido passou a ser um momento, o seu momento. Odiava listas mas não escondia que aquele era o dia mais feliz, e inesperado que já havia vivido. Um começo no fim, sem importar-se com o fim propriamente dito, se é que haveria um fim. Sem importar-se com a possibilidade de tudo não passar de um sonho de alguém que jamais havia sonhado.

Lendo um livro para um trabalho que precisava fazer, ouviu seu celular tocando. Tendo em mente que só recebia ligações quando, ou precisavam de sua ajuda ou alguma coisa ruim havia acontecido, temeu pelo pior. Não poderia parar de ler para ajudar alguém, mas dificilmente negaria se fosse o caso.

- Alô?!
- Ei, vai fazer o que hoje de noite?
- Estudar.
- Tá brincando? Hoje é sexta, dia de descansar, de ir para a festa ou ao menos ficar sem fazer nada.
- Não posso.
- Sem frescura, vem aqui em casa jantar.

Não poderia ser verdade, aquele era um de seus novos amigos da faculdade, não fazia sentido ele lhe convidar para jantar. Além disso, a sua... bom a sua companheira, para não dizer outra coisa, que não era nada além de companheira mesmo, poderia ligar para conversarem sobre os desentendimentos dos últimos dias.

- Deixa para outro dia, não posso hoje.
- Por que tá falando assim?
- Porque as pessoas só me ligam quando tem uma notícia ruim para contar ou quando precisam da minha ajuda.
- Eu não liguei por nenhum desses motivos. Liguei porque quero que você venha jantar comigo e com a minha família. Talvez a...

Aí a coisa mudou de figura. Aquele "a" indicava que ela poderia estar lá, uma vez que ele, seu colega, e ela, sua... enfim.
- Talvez?
- Sabia que isso ajudaria na tua decisão. Oito horas aqui em casa. Tão tá.

É, ele sabia mesmo que pesaria na decisão saber que a... bom, que ela estaria lá. Mesmo que fosse só uma possibilidade. Então é óbvio que, depois disso, não havia mais livro, não havia mais louça para lavar ou roupa para dobrar e guardar. Só pensava naquela janta e na possibilidade de ver a... de vê-la. Toda essa empolgação ia contra suas recaídas com pensamentos de "que bobagem, ela não estará lá".

Minutos passam, completam horas e já eram 20 passadas daquele dia. Chegou na casa do amigo e logo de cara viu que a... que... bem, que ela estava lá. Nem teve tempo de se apresentar e ela, para a surpresa de todos os presentes, pais, tios, avós, o colega e a vizinha fofoqueira, correu ao seu encontro e disse com boa entonação:
- Família, esse é o meu namorado.

Ãhn? Nem bem se conheciam, nem bem tinham passado algumas horas juntos, nem bem sabiam algo sobre o outro. E ainda por cima discutiram sem razões justificáveis nas últimas vezes em que se encontraram. Não se viam há seis dias, ela havia deixado claro que aquilo, fosse lá o que estivesse sendo, não iria longe. E agora isso, namorados? Era demais para uma só noite, para um só sujeito, para um só jantar.

Antes que pudesse falar ou balbuciar uma palavra, começou a rir. Mas ria como se fosse criança vendo uma outra criança escorregando em uma nasca de bacana, digo, em uma casca de banana. Ria incontrolavelmente como bobo, talvez porque fosse assim que sentira-se ao ouvir que, sem saber tinha agora uma namorada. Não que sua vontade fosse outra, mas poderia ter sido avisado antes.

Tentavam perguntar-lhe algumas coisas mas ele não conseguia fazer nada além de rir. Risadas que tentavam ser, em vão, engolidas, esquecidas. Ninguém entendia o porquê. Nem ele, nem seu colega, nem a sua... namorada. Bah, essa era realmente nova. Mas não, não... não o que mesmo? Ah sim, não fazia sentido. Hahaha, e ria como criança quando ganha chocolate, como adulto quando acha uma nota de dois reais no chão, como um senhor de idade quando vê seus netos sujando-se na lama.

Ria, sem compreender ao certo aquilo. Achando engraçado cada parte daquela comédia digna de Shakespeare, ou algo próximo e atualizado. A apresentação, o compromisso, o espanto seu e de todos, a ligação, o entusiasmo, o trabalho que precisava ser feito. Não sabia mais ordenar o passado e o momento presente.

E sorriu, feliz.